Juros contracionistas derrubam PIB: queda no 3º tri no radar
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A economia brasileira dá sinais cada vez mais claros de perda de fôlego, e a possibilidade de queda do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre já entrou no radar de analistas. O efeito defasado da política monetária contracionista, que elevou o endividamento de famílias e empresas, começa a se espalhar por diferentes setores, enquanto o impulso de medidas fiscais e de crédito do governo, que sustentou o crescimento no início do ano, se dissipa.

A combinação desses fatores levou economistas a revisar projeções e a antever um cenário de estagnação ou retração no curto prazo.

Segundo a equipe de economia e estratégia chefiada por David Beker, os indicadores de alta frequência sugerem que “a tão esperada desaceleração no Brasil finalmente está se consolidando”, na medida em que a política monetária apertada está fazendo mais efeito justamente quando o impulso de medidas fiscais e creditícias está começando a se dissipar. A leitura é de que a economia perdeu tração de forma mais intensa do que o previsto, com reflexos diretos nas expectativas para os próximos trimestres.

Nessa conta, os analistas consideram não só o efeito defasado da política monetária contracionista, que aumentou o endividamento das famílias e empresas, mas também a retirada do impacto de medidas fiscais e de crédito do governo, que elevou o crescimento no começo do ano. O resultado é um ambiente de menor consumo, investimento mais contido e atividade industrial em ritmo mais lento, sinais que se intensificaram ao longo do segundo trimestre.

Desaceleração evidente e risco de queda

“O segundo trimestre, na margem, deve mostrar uma desaceleração evidente, caminhando para uma possível queda do PIB no terceiro trimestre”, avalia o economista, observando que os primeiros números de julho, ainda incipientes, apontam enfraquecimento maior. “É uma economia que já perdeu tração no segundo trimestre, e é difícil imaginar que tenha reversão disso no terceiro e quarto trimestres”. A declaração reflete um sentimento crescente entre analistas de que o ciclo de aperto monetário, iniciado para conter a inflação, agora cobra seu preço em termos de atividade.

A economista ouvida pela reportagem reforça o tom cauteloso. “Se houver uma desaceleração de magnitude um pouco maior no segundo trimestre, a probabilidade de que o PIB venha negativo no terceiro trimestre é maior”, diz, para quem o viés nas projeções de PIB no boletim Focus também é para baixo. Pelo consenso de mercado, a economia vai crescer 1,98% este ano, e 1,5% no próximo. Os números, embora ainda positivos, escondem uma trajetória de enfraquecimento gradual, com riscos concentrados no segundo semestre.

Os dados de julho, ainda parciais, mostram queda na confiança de consumidores e empresários, além de recuo em indicadores de serviços e comércio. A fonte não detalhou os números exatos, mas destacou que a tendência é de acomodação após um primeiro trimestre surpreendentemente forte, impulsionado por safra recorde e estímulos temporários. A retirada desses estímulos, somada aos juros altos, cria um cenário de desaceleração mais acentuada.

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Impulso fiscal menor que o esperado

Para o Itaú, a decepção com a atividade no segundo trimestre reflete um quadro em que parte do impulso fiscal esperado não se materializou na magnitude inicialmente prevista. “As evidências apontam para um impacto menor do que o esperado tanto da ampliação da isenção do IR quanto da redução da fila do INSS”, diz a equipe econômica do banco em relatório. A avaliação é de que as medidas, anunciadas como motores de consumo e renda, tiveram transmissão limitada para a economia real.

O Itaú revisou para baixo, de um ponto porcentual para 0,8 p.p., a estimativa de impulso fiscal sobre a atividade em 2026. A ampliação da faixa de isenção do IR mostra, até o momento, sinais limitados de transmissão para consumo, enquanto a redução da fila do INSS não se traduziu em aumento dos benefícios na magnitude projetada, explica o time de economistas liderado por Diogo Guillen. A revisão reflete um cenário fiscal menos expansionista do que o inicialmente calculado, o que reduz o suporte à demanda agregada.

Essa dinâmica é particularmente relevante porque o impulso fiscal era visto como um contrapeso ao aperto monetário. Com sua dissipação mais rápida, o efeito dos juros altos se torna dominante, pressionando o consumo das famílias, que já enfrentam endividamento elevado e custo de crédito proibitivo. Empresas também adiam investimentos diante da incerteza e do custo de capital.

Juros altos corroem renda e confiança

O endividamento das famílias, que cresceu durante o ciclo de alta da Selic, agora limita a capacidade de gasto. O crédito mais caro reduz a demanda por bens duráveis, como automóveis e eletrodomésticos, e afeta setores intensivos em financiamento. A inadimplência, embora ainda controlada, começa a dar sinais de alta em algumas faixas de renda, segundo a fonte não detalhou.

No setor empresarial, o custo de capital elevado desestimula novos projetos e leva a um adiamento de expansões. A construção civil, por exemplo, sente o impacto direto do encarecimento do financiamento imobiliário, enquanto a indústria de transformação opera com capacidade ociosa crescente. A fonte não detalhou números específicos, mas ressaltou que a percepção de risco aumentou entre os agentes econômicos.

A confiança do consumidor, medida por diferentes institutos, recuou nos últimos meses, refletindo preocupações com emprego e renda futura. Embora o mercado de trabalho ainda mostre resiliência, com taxa de desemprego em patamares baixos, a qualidade das vagas e o ritmo de criação de empregos formais desaceleraram. A fonte não detalhou os dados, mas apontou que a massa salarial real cresce em ritmo menor.

Projeções em revisão e riscos à frente

Diante desse quadro, as projeções para o PIB de 2024 e 2025 estão sendo revisadas para baixo por diversas instituições. O boletim Focus, que compila expectativas de mercado, mostra viés negativo, com a mediana para este ano em 1,98% e para o próximo em 1,5%. A economista ouvida destaca que a probabilidade de um trimestre negativo aumentou, embora ainda não seja o cenário base.

Os riscos, no entanto, são assimétricos: uma desaceleração mais forte no segundo trimestre pode contaminar o terceiro, levando a uma recessão técnica (dois trimestres seguidos de queda). A fonte não detalhou as probabilidades, mas indicou que o cenário de estagnação é o mais provável para o segundo semestre, com viés de baixa.

O Banco Central, por sua vez, mantém a taxa Selic em patamar elevado, sinalizando que só iniciará cortes quando houver convicção de convergência da inflação à meta. A autoridade monetária reconhece o custo da política contracionista sobre a atividade, mas prioriza o controle de preços. A fonte não detalhou as comunicações mais recentes, mas destacou que o balanço de riscos segue desafiador.

O que esperar dos próximos meses

Para os próximos meses, os analistas estarão atentos aos indicadores de julho e agosto, que darão a dimensão exata da desaceleração. Dados de varejo, serviços, produção industrial e confiança serão cruciais para calibrar as projeções. A fonte não detalhou o calendário, mas ressaltou que a divulgação do PIB do segundo trimestre, prevista para setembro, será um divisor de águas.

Se confirmada a queda no terceiro trimestre, o debate sobre a eficácia da política monetária e a necessidade de estímulos fiscais ganhará força. O governo, por sua vez, pode ser pressionado a adotar novas medidas de sustentação da demanda, embora o espaço fiscal seja limitado. A fonte não detalhou planos, mas indicou que a equipe econômica monitora o cenário de perto.

Em resumo, a economia brasileira caminha para um período de crescimento fraco, com risco real de contração trimestral. O efeito contracionista dos juros, somado à dissipação dos estímulos fiscais, cria um ambiente desafiador para consumidores, empresas e formuladores de política. A trajetória futura dependerá da velocidade de transmissão da política monetária e de eventuais ajustes na condução fiscal.

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