Gestantes jovens e pobres têm pior alimentação, diz estudo
Crédito: medicinasa.com.br
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Um estudo realizado desde 2018 com aproximadamente 604 gestantes que faziam pré-natal no SUS em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, revelou que a qualidade da alimentação está diretamente ligada à idade e à renda. Os dados mostram que gestantes mais jovens e de menor renda tendem a consumir mais alimentos ultraprocessados e a ter hábitos menos saudáveis durante a gravidez. A pesquisa foi conduzida por meio de entrevistas e questionários aplicados durante o acompanhamento pré-natal, e os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à nutrição materna.

O levantamento faz parte de um esforço contínuo de monitoramento alimentar no Sistema Único de Saúde. A coleta de informações ocorre por meio do Formulário de Marcadores de Consumo Alimentar, um questionário objetivo que busca dados sobre a ingestão de grupos alimentares, com foco específico em alimentos ultraprocessados. A partir dessas respostas, os profissionais de saúde conseguem identificar padrões saudáveis e não saudáveis entre as pacientes que frequentam o SUS.

Telas atrapalham percepção de saciedade

Um dos achados mais marcantes da pesquisa é o hábito de comer diante de telas. Quase oito de cada dez gestantes adolescentes, de 14 a 19 anos, e mães de primeira viagem (primigestas) fazem as refeições enquanto observam telas de celulares, televisores ou computadores. Segundo nutricionistas, o principal impacto desse comportamento é o atraso na percepção de saciedade, o que pode levar ao consumo excessivo de alimentos.

Esse dado acende um alerta para a saúde materna e fetal. Quando a gestante não percebe que está satisfeita, tende a ingerir mais calorias do que o necessário, o que pode contribuir para o ganho de peso excessivo durante a gestação e aumentar o risco de complicações como diabetes gestacional e hipertensão. Além disso, o hábito de comer distraído está associado a escolhas alimentares menos nutritivas, como salgadinhos, biscoitos recheados e refrigerantes, que são práticos para consumir em frente às telas.

A pesquisa não detalhou se o uso de telas ocorre em todas as refeições ou apenas em algumas, mas o percentual elevado entre as adolescentes e primigestas sugere um padrão cultural que merece atenção. A orientação de nutricionistas é que as gestantes busquem fazer as refeições em ambientes tranquilos, sem distrações eletrônicas, para que possam prestar atenção aos sinais de fome e saciedade do próprio corpo.

Renda e escolaridade influenciam escolhas

Os dados também confirmam uma relação já estabelecida pela ciência: baixa renda, baixa escolaridade e faixa etária jovem estão diretamente associadas a um perfil alimentar menos saudável em gestantes. Isso significa que mulheres com menos recursos financeiros e menos anos de estudo tendem a consumir mais alimentos ultraprocessados e menos frutas, verduras e legumes. A pesquisa reforça essa constatação ao analisar o perfil das participantes do estudo em Colombo.

O formulário de marcadores de consumo alimentar permite mapear esses padrões de forma padronizada. Por meio das questões, os profissionais de saúde na rede pública conseguem obter informações sobre a qualidade do consumo alimentar, além de identificar padrões saudáveis e não saudáveis nos pacientes que frequentam o SUS. Essa ferramenta é essencial para direcionar ações de educação alimentar e nutricional para os grupos mais vulneráveis.

A partir desse cenário, surge uma demanda de saúde pública para que essas gestantes tenham um acompanhamento alimentar adequado. O Sistema de Vigilância Alimentar Nutricional é criado para que os padrões alimentares e o estado nutricional dos pacientes tenham um monitoramento no SUS. Esse controle ocorre por meio do formulário já mencionado, que é aplicado rotineiramente nas unidades de saúde.

Análise estatística revela associações

Para transformar os dados coletados em conhecimento científico, a equipe de pesquisa utiliza ferramentas estatísticas. Natália Laureano, uma das responsáveis pelo estudo, informa que, a partir dessa coleta de dados, há uma análise estatística para que todas as variáveis sejam calculadas. Segundo ela, os dados foram inseridos em um programa específico: a professora usa o Stata 15, que é um software de estatística que faz associações com diferentes variáveis. A partir daí, a equipe faz a análise para ver o que é pertinente e o que não é.

Esse processo permite identificar quais fatores estão mais fortemente ligados a uma alimentação inadequada durante a gestação. Por exemplo, é possível cruzar a idade da gestante com o consumo de ultraprocessados, ou a renda familiar com a frequência de refeições em frente às telas. Os resultados ajudam a direcionar intervenções mais eficazes, como grupos de orientação nutricional para adolescentes ou visitas domiciliares para gestantes de baixa renda.

A pesquisa está sendo realizada desde 2018, a partir de entrevistas realizadas com aproximadamente 604 gestantes que realizavam acompanhamento pré-natal no SUS e residiam em Colombo. Esse número expressivo de participantes confere robustez aos achados e permite generalizar os resultados para outras populações com características semelhantes. A continuidade do estudo ao longo dos anos também possibilita acompanhar tendências e avaliar o impacto de eventuais políticas públicas implementadas no município.

Implicações para a saúde pública

Os resultados do estudo têm implicações diretas para o planejamento de ações de saúde materno-infantil. Se as gestantes mais jovens e de menor renda estão mais expostas a uma alimentação inadequada, é fundamental que as equipes de saúde da família priorizem esse público nas consultas de pré-natal. O acompanhamento nutricional individualizado, com orientações sobre escolhas alimentares saudáveis e acessíveis, pode fazer diferença na saúde da mãe e do bebê.

Além disso, o combate ao hábito de comer diante de telas deve ser incorporado às orientações de rotina. Os profissionais de saúde podem sugerir estratégias simples, como desligar a televisão durante as refeições, fazer pausas para mastigar com calma e prestar atenção aos sabores e texturas dos alimentos. Essas mudanças de comportamento, embora pareçam pequenas, podem ter um impacto significativo na prevenção do ganho de peso excessivo e das complicações associadas.

O estudo também destaca a importância do Sistema de Vigilância Alimentar Nutricional como ferramenta de monitoramento contínuo. Ao coletar dados padronizados sobre o consumo alimentar das gestantes, o SUS pode identificar precocemente aquelas em risco nutricional e intervir de forma oportuna. A integração entre a coleta de dados, a análise estatística e a prática clínica é essencial para transformar informações em ações concretas de saúde.

Próximos passos da pesquisa

Embora os dados já tragam conclusões relevantes, a pesquisa continua em andamento. A equipe responsável segue analisando as informações coletadas desde 2018 e buscando novas associações entre variáveis. A expectativa é que os resultados completos possam ser publicados em breve, contribuindo para o debate científico sobre alimentação materna no Brasil.

Enquanto isso, os achados preliminares já servem de base para recomendações práticas. Gestantes, especialmente as adolescentes e as de baixa renda, devem ser incentivadas a buscar acompanhamento nutricional durante o pré-natal. Os profissionais de saúde, por sua vez, podem utilizar o formulário de marcadores de consumo alimentar para identificar riscos e personalizar as orientações.

O estudo reforça que a alimentação durante a gestação é um determinante crítico da saúde materna e infantil. Investir em educação alimentar e nutricional para as gestantes mais vulneráveis é uma estratégia custo-efetiva para reduzir desigualdades e melhorar os desfechos de saúde a longo prazo. A pesquisa em Colombo é um exemplo de como a vigilância alimentar pode gerar evidências para a ação.

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