Transformação digital na saúde: promessas eternas e desafios
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Quem acompanha o setor de saúde sabe que a transformação digital é um tema recorrente em congressos, relatórios e promessas institucionais. No entanto, a realidade dos hospitais brasileiros ainda está longe do cenário idealizado. Em uma coluna publicada no portal Saúde Business, um gestor da área reflete sobre as razões pelas quais as instituições de saúde não conseguiram, até agora, se tornar verdadeiramente digitais, apesar de a tecnologia necessária já existir no mercado.

O autor inicia o texto estabelecendo um combinado com o leitor: as reflexões compartilhadas são pessoais e não têm necessariamente relação com a empresa onde atua. Esse esclarecimento é importante para contextualizar a análise que se segue, baseada em sua experiência profissional e em observações do setor.

O convite inusitado de um headhunter

O ponto de partida da reflexão é um episódio profissional. O autor conta que, durante uma fase de reflexão sobre sua carreira, recebeu o contato de um headhunter com uma proposta para trabalhar em uma instituição de saúde. Logo de cara, as palavras do recrutador chamaram sua atenção: ele destacou que se tratava de um hospital, como se isso fosse um diferencial ou uma informação surpreendente.

O gestor estranhou a abordagem e respondeu, surpreso, que, para ele, não fazia nenhuma diferença o fato de ser um hospital. Porém, com o tempo, ele compreenderia o motivo daquela espontaneidade do entrevistador. A surpresa do headhunter revelava uma percepção comum no mercado: a de que o setor de saúde é um ambiente à parte, com características próprias que o distinguem de outros segmentos da economia.

A realidade analógica por trás da fachada digital

Ao mergulhar no cotidiano hospitalar, o autor constatou que, na prática, não são as ferramentas digitais que estão à frente da operação, orientando os processos e a comunicação com os stakeholders. Em vez disso, são as pessoas e seus fluxos analógicos que conduzem o dia a dia. Os dados são gerados depois que as atividades acontecem, e não em tempo real, como seria esperado em um ambiente verdadeiramente digital.

Essa constatação não diminui, porém, os avanços já alcançados. O autor reconhece que, pelo menos, há uma cobertura informatizada para toda a operação hospitalar, e esse é um grande avanço. Sistemas de gestão, prontuários eletrônicos e outras ferramentas já fazem parte da rotina de muitas instituições, ainda que não estejam plenamente integrados ou utilizados em todo o seu potencial.

Tecnologia disponível, mas ainda no gerúndio

O texto destaca que a tecnologia para transformar a saúde já existe e está acessível. Já é possível obter informações sobre interações medicamentosas durante a prescrição, receber alertas sobre possíveis alterações de conduta com base em ferramentas preditivas e contar com barreiras sistêmicas para evitar erros na administração de medicamentos ao paciente. Tudo isso já é possível, enfatiza o autor.

No entanto, boa parte desses recursos — se não a totalidade deles, já disponíveis no mercado — ainda está no gerúndio nos hospitais. As instituições estão, em alguma medida, implantando, desenvolvendo, avaliando… Não são hospitais digitais, mas pretendem ser nos próximos três, cinco ou dez anos. Essa promessa de futuro, porém, não é nova.

Vinte anos de promessas não cumpridas

O problema desse cenário é que, há 20 anos, os hospitais também seriam digitais em cinco ou dez anos, e isso não aconteceu. Por quê? Porque o ecossistema de saúde não é digital. A resposta, segundo o autor, não está na tecnologia em si, mas no ambiente de negócios que envolve o setor.

Para ilustrar essa ideia, ele propõe uma comparação com outras indústrias. Pense em uma instituição financeira: algum banco pode definir seus fluxos internos ou a forma como vai se relacionar com seus clientes? Não. Os bancos precisam seguir as regras determinadas pelos agentes reguladores. O mesmo ocorre na indústria de transformação e de base ou no varejo. Nesses setores, a padronização e a regulação criam um terreno comum que permite a digitalização dos processos.

A falta de padrões como entrave

Na saúde, a realidade é diferente. O autor imagina como seria se o mercado financeiro funcionasse assim: seria um exercício de fé fazer um Pix para outro banco. Poderia dar certo ou não… Felizmente (?), só na saúde os padrões não são padronizados. Essa ausência de normas comuns entre os diversos atores do ecossistema — hospitais, operadoras, laboratórios, clínicas e fornecedores — gera fragmentação e impede a interoperabilidade dos sistemas.

Dessa falta de padronização nascem o desperdício, a perda de eficiência e o desequilíbrio. E a resposta não está mais na tecnologia, se é que esteve algum dia. A resposta está no ambiente de negócios. Para o autor, é preciso que todos os envolvidos renunciem a uma parte de seus interesses individuais em benefício do todo, conduzidos por um ente regulador confiável. Somente assim o ecossistema será digital e, consequentemente, os hospitais serão digitais.

Quem ganha com a transformação digital

Os beneficiários dessa mudança seriam muitos. O gestor, o profissional da assistência, mas, sobretudo, o ser humano que precisa de cuidados médicos. A digitalização do ecossistema de saúde poderia reduzir erros, otimizar recursos e melhorar a experiência do paciente, desde o agendamento até o acompanhamento pós-tratamento.

O autor encerra a reflexão sem apontar soluções imediatas, mas deixando claro que o caminho passa por uma mudança estrutural no setor. Enquanto isso, os hospitais seguem prometendo ser digitais em cinco ou dez anos, repetindo um ciclo que já dura duas décadas. A transformação digital na saúde, portanto, continua sendo uma eterna promessa.

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