Desaceleração do PIB expõe esgotamento de estímulos
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O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, divulgado em 1º de setembro pelo IBGE, trouxe mais do que uma desaceleração: expôs uma mudança de fase na política econômica às vésperas da eleição. O dado oficial revelou que o ritmo de crescimento perdeu força, sinalizando o esgotamento precoce dos estímulos que sustentaram a atividade nos últimos anos. A leitura dos números acende um alerta no cenário político, com impacto direto na disputa eleitoral.

Consumo recua e sinaliza esgotamento

A perda de força do consumo é o sinal mais claro desse esgotamento. Após dois trimestres de alta, o recuo de 0,4% é o pior desde o fim de 2024, indicando que reajustes de benefícios sociais, antecipações de pagamentos e crédito subsidiado já não produzem o mesmo efeito. A queda reflete um limite na capacidade de estímulo por meio de transferências de renda e crédito barato. Esse movimento acende um sinal de alerta para a equipe econômica, que vê o principal motor do crescimento perder tração.

A fala revela a sinuca da atual gestão: ampliar estímulos agora contradiz o discurso fiscal prometido para 2027; não ampliar abre espaço para críticas sobre desaceleração econômica na reta final da campanha. O governo se vê pressionado entre a necessidade de manter a economia aquecida e o compromisso com o equilíbrio das contas públicas. Essa tensão deve dominar o debate econômico nos próximos meses.

Mudança no ciclo de gastos públicos

A primeira é a inversão do ciclo de gastos. “Antes, o governo recém-eleito arrumava a casa no primeiro ano e gastava mais na segunda metade do mandato”, afirma. “Agora, por causa do pós-pandemia, a atual gestão acelerou gastos já em 2023”, afirma. Essa antecipação de despesas reduziu a margem para novos impulsos fiscais justamente quando a economia começa a desacelerar. O padrão histórico foi rompido, criando um desafio inédito para a administração atual.

A segunda novidade é a consolidação da independência do Banco Central, que manteve a política monetária restritiva na transição entre Roberto Campos Neto e Gabriel Galípolo, elevando a taxa Selic até 15%. Para Padovani, isso desacelerou a atividade e evidenciou a eficácia da autonomia do BC. A manutenção de juros altos, mesmo com a troca de comando, reforçou a credibilidade da autoridade monetária, mas cobrou um preço em termos de crescimento.

Quadro fiscal pressiona decisões

O quadro econômico-financeiro do País reforça a sinuca em que o governo se colocou. A Pesquisa Focus projeta a taxa Selic em 13,75% no fim do ano, apenas 0,25 ponto abaixo dos atuais 14%. O déficit primário estimado para 2026 está em R$ 60 bilhões e a dívida bruta chegou a 82,5% do PIB em julho. Esses números limitam o espaço para políticas expansionistas, pois qualquer aumento de gastos pode elevar ainda mais o endividamento público.

O terceiro trimestre tende a ser pior que o segundo: a safra recorde não se repete, a indústria segue pressionada por crédito caro e o consumo enfrenta o maior endividamento desde 2021. A combinação de fatores sazonais e estruturais aponta para uma continuidade da desaceleração. A expectativa é de que o PIB do período fique abaixo do registrado entre abril e junho.

Dado pós-eleição favorece governo

O mercado projeta PIB abaixo de 0,3% no período, mas o dado só será divulgado em 2 de dezembro, após a eleição — criando vantagem estratégica para o governo, já que a deterioração não aparecerá oficialmente antes do pleito. Essa janela temporal permite que a campanha explore os números positivos do passado recente sem o contraponto dos dados mais fracos. A divulgação tardia do IBGE, portanto, tem implicações políticas relevantes.

O governo tenta equilibrar discurso e prática. Na campanha, o governo celebra o crescimento médio do atual mandato, que pode fechar entre 2,7% e 2,8% ao ano — o melhor desde o segundo governo Lula. Mas esse número esconde a desaceleração recente e a fragilidade estrutural do consumo. A narrativa oficial foca no desempenho acumulado, enquanto os indicadores marginais mostram perda de dinamismo.

Analistas divergem sobre cenário eleitoral

Por isso, Padovani não vê cenário tão desfavorável ao governo, exceto pelo crescimento da dívida. A inflação permanece controlada, com projeções próximas a 5% em 2026 e tendência de queda em 2027. O controle de preços, apesar dos juros elevados, é um trunfo para a atual gestão. A avaliação é de que a economia não deve se deteriorar a ponto de inviabilizar a reeleição.

“Nossa estimativa do PIB aponta expansões de 0,2% no terceiro e no quarto trimestre, com economia fechando 2026 com crescimento de 1,9%, o que não é ruim num ano de juros altíssimos, tarifaços e insegurança geopolítica”, afirma. A projeção indica um ritmo modesto, mas positivo, o que pode ser suficiente para sustentar a narrativa de estabilidade. No entanto, o crescimento fraco pode ser explorado pela oposição como sinal de fracasso.

Rafael Perez, economista da Suno Research, concorda que os dados sugerem esgotamento do ciclo de crescimento recente, sustentado por consumo e política fiscal expansionista. A leitura é de que o modelo baseado em estímulos chegou ao limite, exigindo uma nova agenda para destravar o crescimento. A divergência entre analistas reflete a incerteza sobre os rumos da economia e seu impacto nas urnas.

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