Resposta global negligente ao ebola expõe desigualdade
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A resposta global a emergências sanitárias é fortemente influenciada por fatores geopolíticos, econômicos e sociais, conforme revela pesquisa da Universidade de São Paulo (USP). O estudo investigou por que algumas crises mobilizam mais atenção política, recursos e ajuda internacional do que outras, com foco nos surtos de ebola de 2014 e 2018.

A investigação, baseada nos campos dos Estudos Críticos de Segurança e da Saúde Global, utiliza o conceito de securitização, que descreve o processo pelo qual um problema de saúde pública passa a ser tratado como uma ameaça à segurança. Nesse enquadramento, “a percepção de risco e os interesses políticos dos países mais influentes podem determinar quais crises recebem prioridade na agenda internacional”, afirma o pesquisador no artigo.

O estudo foi conduzido por um pesquisador que defendeu sua tese na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, abordando como a comunidade internacional tratou e respondeu aos episódios de 2014 e 2018, além de detalhar o processo de declaração de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Desigualdade geopolítica na resposta sanitária

Deisy Ventura, professora da USP, relata que “a situação política e social da República Democrática do Congo também contribuiu para uma resposta internacional insuficiente no surto que ocorreu em 2018”. Os casos permaneceram, durante boa parte de sua evolução, concentrados em uma região africana marcada por conflitos.

O surto de 2018 é considerado o segundo evento mais letal da história do Congo – e um dos que avançam mais rapidamente. Apesar disso, a mobilização global foi limitada, refletindo a percepção de que a doença não representava uma ameaça direta às nações desenvolvidas.

“O surto corre o risco de ser subestimado pela comunidade global enquanto for visto apenas como um problema local dos países africanos, como o que ocorreu em 2018, sem representar uma ameaça direta às nações desenvolvidas”, relata a Deisy Ventura.

Histórico do ebola no continente africano

O ebola foi identificado pela primeira vez em 1976, com casos simultâneos no então Zaire, atual República Democrática do Congo, e no Sudão do Sul. Desde então, a doença causada por vírus do gênero Ebolavirus apresenta elevada letalidade, com transmissão ocorrendo principalmente pelo contato direto com sangue e outros fluidos corporais de pessoas infectadas ou com animais contaminados.

Entre 1976 e 2022, foram registrados 35 surtos da doença no continente africano: 15 na RDC, seis em Uganda, quatro na República do Congo, quatro no Gabão, três no Sudão do Sul, dois na Guiné e um na Costa do Marfim. Esses números evidenciam a recorrência da doença em regiões com sistemas de saúde frágeis e instabilidade política.

A concentração geográfica dos surtos, aliada à falta de interesse estratégico de potências globais, contribui para que a resposta internacional seja frequentemente tardia e insuficiente. A pesquisa da USP destaca como a securitização de doenças depende menos da gravidade objetiva e mais de cálculos geopolíticos.

Implicações para a saúde global

O estudo aponta que a comunidade internacional tende a priorizar crises que ameaçam diretamente os interesses dos países ricos, negligenciando emergências em regiões periféricas. Isso perpetua um ciclo de desigualdade na saúde global, onde doenças como o ebola recebem menos recursos até que se tornem uma ameaça transnacional.

A análise da USP reforça a necessidade de repensar os mecanismos de governança global em saúde, considerando não apenas critérios epidemiológicos, mas também as dinâmicas de poder que moldam as respostas. A fonte não detalhou propostas específicas de reforma, mas o diagnóstico é claro: a negligência é estrutural.

Enquanto o ebola continuar sendo visto como um problema “africano”, a resposta global permanecerá reativa e desigual, colocando em risco a segurança sanitária de todos.

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