Déficit fiscal dos EUA: dívida elevada acende alerta
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EUA ‘descobrem’ o déficit fiscal e a dívida elevada: bem-vindos ao Brasil

Três anúncios no intervalo de poucos dias fizeram os americanos ligarem um sinal de alerta para a desarrumação das contas públicas da maior economia do planeta.

O Tesouro divulgou o quarto maior déficit mensal da história; além disso, a dívida pública ultrapassou US$ 40 trilhões pela primeira vez.

Portanto, para economistas e investidores, o avanço do endividamento americano deixou de ser questão secundária e passou a ser uma ameaça real à estabilidade fiscal.

Sinais de alerta nas contas americanas

Déficit de julho

Na semana passada, o Tesouro americano informou que julho registrou um déficit de US$ 432 bilhões, o quarto maior da série histórica.

Ou seja, o número foi influenciado por reembolsos de tarifas alfandegárias, que geraram receita negativa pelo terceiro mês seguido.

Consequentemente, o déficit dos primeiros 10 meses do ano fiscal de 2026 já ultrapassou o total do ano anterior, faltando dois meses para o fim do exercício.

Ademais, o rombo se aproxima de 6% do PIB, três pontos acima do planejado pelo governo no longo prazo.

Dívida pública ultrapassa US$ 40 trilhões

Na quarta-feira, 19 de agosto, outro anúncio azedou o humor: a dívida pública dos EUA ultrapassou US$ 40 trilhões, dobrando em menos de uma década.

Além disso, desde o início da pandemia, o país inundou o mercado com dívida adicional, e não há sinais de que essa onda vai diminuir.

Em seguida, o mercado reagiu. Os títulos do Tesouro foram vendidos, e os rendimentos dos Treasuries de 30 anos atingiram 5,3%, o maior nível em quase duas décadas.

Intervenção do Tesouro e efeitos colaterais

Dessa forma, a alta dos rendimentos tende a encarecer hipotecas, financiamentos e empréstimos comerciais, pressionando o orçamento federal.

Para conter o movimento, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou a duplicação das recompras de Treasuries com vencimento entre 10 e 30 anos, para pelo menos US$ 4 bilhões por operação.

Contudo, a medida teve efeito transitório: na quinta-feira, 20 de agosto, os rendimentos de 30 anos cederam ligeiramente, mas o dólar se enfraqueceu.

Além disso, na sexta, o bitcoin teve a melhor semana em três anos, e o ouro caminhou para o maior ganho mensal neste século.

Analistas, contudo, veem a estratégia como paliativa. Por exemplo, economistas do ING Bank compararam a ação a “reorganizar as cadeiras no convés do Titanic”, pois o essencial — reduzir o déficit e conter a dívida — não foi atacado.

Riscos estruturais e visão de especialistas

Os rendimentos elevados dos títulos têm muitos fatores, por exemplo, inflação persistente e endividamento corporativo ligado à inteligência artificial.

Sobretudo, há ainda uma preocupação mais profunda: os títulos do Tesouro, por muito tempo o ativo seguro preferido do mundo, parecem menos seguros.

Ou seja, em comparação com outros títulos, seus rendimentos já não são atraentes e, em crises, não se comportam como porto seguro.

Visto que a dívida pública atinge 100% do PIB e os déficits são elevados, a disposição dos investidores estrangeiros em comprar ativos americanos tende a diminuir, alerta Kit Juckes, chefe global de estratégia cambial do Société Générale.

Por outro lado, o ambiente global também pesa. A economia mundial está menos estável, com tensões geopolíticas, desaceleração da China e fragmentação comercial.

Ademais, internamente, o envelhecimento da população pressiona gastos obrigatórios, e a polarização política dificulta acordos para conter despesas ou elevar receitas.

Isto é, o resultado é um déficit estrutural, que não depende de ciclos econômicos, mas de escolhas políticas.

Promessas, realidade e o paralelo com o Brasil

O governo Trump e o déficit

No início da gestão, Bessent disse que a prioridade de Trump era reduzir os rendimentos dos títulos, que influenciam as taxas de hipoteca.

Dessa forma, a meta seria atingida com redução da inflação, aumento da produção de energia, produtividade via inteligência artificial e um déficit orçamentário menor.

O déficit, no entanto, foi de US$ 1,8 trilhão no ano fiscal de 2024, e a guerra com o Irã elevou preços de energia e inflação.

Ademais, o Escritório de Orçamento do Congresso projeta um déficit de US$ 2,1 trilhões este ano.

Contudo, não há risco imediato de calote — improvável para um país com PIB de US$ 32,4 trilhões, um quarto do total global, e que emite a moeda do mundo.

Todavia, a percepção é de que a trajetória fiscal deixou de ser apenas elevada e passou a ser insustentável.

Especialistas comparam com o Brasil

Assim sendo, para Camargo, do Banco Genial, o debate sobre dívida fiscal e juros, comum no Brasil, deve se tornar central nos EUA.

Por exemplo, ele observa que a experiência brasileira mostra que o conflito entre política fiscal expansionista e monetária contracionista só adia uma solução.

Por outro lado, Trump, ao pedir redução de juros ao Fed, afirma que a inflação está controlada e que as altas recentes decorrem dos preços de energia, não da demanda interna.

No entanto, sua estratégia de comprar títulos longos financiada pela venda de títulos curtos é vista por Camargo como arriscada.

Em resumo, os EUA chegam ao terreno já conhecido do Brasil: o do déficit persistente e de remendos que não resolvem a raiz do problema. Contudo, a diferença é que, agora, o epicentro é a maior economia do mundo.

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