Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, voltou a alertar sobre o risco crescente de uma crise da dívida nos Estados Unidos. Diante da forte pressão sobre o mercado de Treasuries, com a alta dos juros de longo prazo, o investidor recomendou que os investidores busquem proteção em ouro e, em menor grau, em bitcoin. A indicação, no entanto, ocorre enquanto o Departamento do Tesouro americano amplia suas operações de recompra de títulos para conter a tensão.
Ouro e bitcoin como refúgio
Em uma publicação no LinkedIn, Dalio sugeriu reduzir a exposição a títulos de dívida e diversificar os investimentos. Na prática, ele recomenda:
- Manter de 10% a 15% do portfólio em ouro, que historicamente funciona como reserva de valor em momentos de incerteza;
- Incluir bitcoin em menor grau, como uma aposta mais especulativa.
Dessa forma, a orientação reflete a visão de que os títulos públicos perderam atratividade diante do avanço do endividamento.
Por que reduzir a exposição a títulos?
Dalio considera que a alta dos juros dos Treasuries longos é um dos sinais de que o ciclo está avançando. Ele destaca que o crescimento da dívida e do serviço da dívida está em ritmo superior à capacidade de geração de receitas do governo. Esse descompasso, consequentemente, tende a pressionar ainda mais o mercado de títulos, alimentando um ciclo de desconfiança entre os investidores. Nesse contexto, a diversificação surge como estratégia para mitigar perdas.
O avanço do Big Debt Cycle
A pressão no mercado de Treasuries, com juros de longo prazo em alta, é um sinal do avanço do “Big Debt Cycle”, conceito que descreve o crescimento excessivo da dívida. Segundo o raciocínio de Dalio, esse ciclo se retroalimenta à medida que o governo precisa emitir mais dívida para pagar obrigações anteriores. A consequência, portanto, é uma elevação contínua dos custos de financiamento, que consome parcela crescente do orçamento público.
O conceito já havia sido usado pelo investidor para explicar crises anteriores, e agora ganha força como chave de leitura para o cenário americano. A deterioração das contas públicas, combinada com juros altos, cria um ambiente propício para um desfecho negativo. Por isso, o alerta de Dalio ganha relevância não apenas para investidores, mas também para formuladores de política econômica. A trajetória atual, se mantida, contudo, tende a acelerar o ciclo.
Déficit e dívida em níveis recordes
Os números apresentados por Dalio ajudam a dimensionar o problema. Ele estima que o governo americano terá um déficit de cerca de US$ 2 trilhões, com a dívida federal em torno de US$ 32 trilhões. Somando juros e principal que vencem no período, os pagamentos relacionados à dívida chegam a cerca de US$ 11 trilhões, o equivalente a aproximadamente 200% da receita do governo. Esses valores, dessa forma, indicam um descompasso estrutural entre receitas e obrigações.
Esse cenário torna o país cada vez mais dependente da rolagem da dívida, o que aumenta a vulnerabilidade a choques de confiança. A alta dos juros de longo prazo, nesse sentido, é um termômetro do risco percebido pelo mercado. A recomendação de reduzir a exposição a títulos de dívida, portanto, decorre dessa leitura. A fonte não detalhou, no entanto, como os investidores devem ajustar suas carteiras em outros ativos.
Prazo estimado para uma crise
Dalio prevê que uma crise da dívida pode ocorrer em três anos, a menos que haja uma redução significativa do déficit público. A preocupação, no entanto, é que a trajetória continue se deteriorando. Para ele, caso nada mude, uma crise da dívida nos Estados Unidos pode ocorrer em cerca de três anos, com uma margem de aproximadamente dois anos para mais ou para menos. Ou seja, o colapso pode acontecer em um intervalo de um a cinco anos.
Essa projeção não é uma previsão rígida, mas um alerta sobre a urgência de ajuste fiscal. Dalio argumenta que o crescimento da dívida e do serviço da dívida está em ritmo superior ao aumento das receitas, o que torna a sustentabilidade das contas públicas inviável no médio prazo. A janela para evitar o desfecho, portanto, é curta. Medidas de austeridade ou aumento de arrecadação seriam necessárias para alterar a rota.
Riscos que se espalham pelo mundo
Além dos Estados Unidos, Dalio destacou que outras economias, como Reino Unido, União Europeia, China e Japão, também enfrentam problemas semelhantes de dívida e déficit. Ademais, isso indica que o ciclo de endividamento não é um fenômeno isolado, mas uma tendência global. Cada país, no entanto, possui particularidades em termos de capacidade de financiamento e credibilidade fiscal.
O mercado de Treasuries, por ser o principal referencial para os ativos globais, concentra as atenções, mas o risco é sistêmico. A interconexão financeira, dessa forma, pode amplificar os efeitos de um eventual colapso da dívida americana sobre os demais mercados. Por essa razão, o alerta de Dalio transcende o âmbito doméstico e deve ser considerado por investidores de todo o mundo. A diversificação, mais uma vez, aparece como estratégia de proteção.
Em resumo, o diagnóstico de Ray Dalio combina um alerta sobre a deterioração fiscal dos EUA com recomendações práticas de investimento. A busca por ouro e, em menor escala, bitcoin reflete a perda de confiança na trajetória da dívida pública. O prazo de três anos, com margem de dois anos, sugere que o tempo para correção de rota é limitado. A comunidade financeira, portanto, acompanha com atenção os próximos passos do Tesouro americano e do Fed.
