Trump Venezuela: estratégia duvidosa em foco
Crédito: investnews.com.br
Crédito: <a href="https://investnews.com.br/negocios/opiniao-wsj-a-estrategia-duvidosa-de-trump-para-a-venezuela/" rel="nofollow noopener noreferrer" target="_blank">investnews.com.br</a>

Uma conferência internacional de petróleo e gás com ingressos esgotados em Caracas, na Venezuela, rendeu manchetes dramáticas na imprensa financeira na semana passada. Representantes das grandes petroleiras, ao lado de muitas empresas menores, se misturaram com colegas e autoridades do governo e reclamaram da rede elétrica destroçada do país. Os jornalistas pareceram se divertir com a falta de equipamentos de golfe para os executivos que queriam dar umas tacadas no country club local.

O evento, promovido como vitrine para o setor energético venezuelano, escancarou a aposta arriscada da administração Trump: reabilitar economicamente um regime que ainda mantém presos políticos e opera à margem da democracia.

Já se passaram nove meses desde que Trump usou as Forças Armadas americanas para prender o ditador Nicolás Maduro dentro da Venezuela, levá-lo para Nova York e promover sua vice, Delcy Rodríguez. Os venezuelanos achavam que teriam eleições. Em vez disso, as sanções americanas à venda de petróleo foram suspensas, e os dólares voltaram a fluir para o regime criminoso. A popular líder da oposição María Corina Machado quer desesperadamente voltar, mas Washington não permite.

Essa sequência de decisões moldou o cenário para a conferência e alimenta o debate sobre a eficácia da estratégia.

Conferência em Caracas expõe aposta arriscada

O encontro do setor de energia foi uma ideia do governo Trump. A aposta é que, ao fazer propaganda da indústria petrolífera venezuelana mesmo com uma ditadura ainda assinando os contratos, será possível atrair capital para o país. A reconstrução das instituições democráticas viria depois. Na prática, a conferência serviu como um palco para que executivos e autoridades do regime se aproximassem, trocassem cartões e discutissem oportunidades de negócios em um ambiente de incerteza jurídica e política.

A falta de equipamentos de golfe, notada com ironia pelos jornalistas, simbolizou o descompasso entre a imagem de normalidade que se tentou vender e a realidade de um país com infraestrutura precária e instituições frágeis.

Críticos de Trump dizem que é um erro de ordem. Eles acreditam que, antes de enterrar dinheiro de verdade em compromissos de longo prazo na Venezuela, em quantias relevantes, os investidores vão querer lidar com um governo legitimamente eleito, operando sob um sistema baseado em regras. A lógica é simples: sem segurança jurídica e sem um Estado de direito funcional, o capital de longo prazo tende a evitar o país.

A presença de grandes petroleiras na conferência, no entanto, indica que há interesse em manter canais abertos com o regime, ainda que por motivos estratégicos ou de curto prazo.

Histórico chavista justifica ceticismo

A história está do lado dos céticos. No mínimo, é preciso cautela ao lidar com os chavistas, que ao longo do último quarto de século “dialogaram” repetidas vezes com os democratas, como estão fazendo agora, só para depois se recusarem a largar o poder. Esse padrão de negociação seguida de retrocesso mina a confiança de investidores e observadores internacionais. A atual vice-presidente, Delcy Rodríguez, é herdeira direta desse legado e não deu sinais concretos de que pretende romper com as práticas autoritárias do chavismo.

Pelo contrário, a manutenção de presos políticos e a restrição à volta de líderes opositores reforçam a percepção de que o regime não está disposto a ceder espaço democrático.

Rodríguez ainda mantém cerca de 324 presos políticos, e várias outras pessoas estão sob liberdade restrita. Os venezuelanos, dentro e fora do país, estão se desencantando com o governo Trump. A expectativa inicial de que a prisão de Maduro abriria caminho para eleições livres foi substituída por frustração diante da continuidade do autoritarismo. A suspensão das sanções, longe de pressionar o regime a democratizar-se, parece ter aliviado a pressão econômica e permitido que o chavismo se reorganizasse sem fazer concessões significativas.

O papel dos investidores na estratégia

Participar da conferência foi uma forma barata de as grandes empresas angariarem boa vontade com a Casa Branca. Até companhias com pouco interesse na Venezuela tinham motivo para aparecer e continuar nas graças de Trump. Para essas corporações, o custo de enviar representantes a Caracas é mínimo se comparado ao benefício potencial de manter um relacionamento positivo com a administração americana. A presença delas, portanto, não deve ser interpretada como um sinal de confiança no ambiente de negócios venezuelano, mas sim como um cálculo pragmático de relações públicas.

Os participantes menores provavelmente queriam se aproximar dos figurões do Ministério do Petróleo, que têm poder discricionário sobre os direitos de exploração e produção dos blocos de petróleo. Acordos camaradas em troca sabe-se lá do quê são o jeito como as coisas funcionam na Venezuela. Para essas empresas, o acesso direto a funcionários do regime pode representar a diferença entre conseguir uma fatia do setor petrolífero ou ficar de fora.

No entanto, essa dinâmica também perpetua a corrupção e a falta de transparência que afastam investidores sérios e de longo prazo.

Perspectivas para eleições e democracia

Depois disso, devem formar um conselho eleitoral independente. Se tudo correr bem, segundo algumas pessoas a par das conversas, o país poderia realizar eleições até meados de 2027. Esse cronograma, porém, depende de uma série de condições que ainda não foram cumpridas, como a libertação de presos políticos, a garantia de participação da oposição e a criação de um ambiente eleitoral minimamente confiável. A fonte não detalhou quais seriam os próximos passos concretos para viabilizar esse processo, nem como o governo americano pretende pressionar o regime a cumprir tais requisitos.

Resultados melhores seriam possíveis. Mas não sem uma volta à democracia. A estratégia de Trump, ao priorizar a atração de capital antes da restauração institucional, pode até gerar algum alívio econômico no curto prazo, mas corre o risco de consolidar o poder do chavismo e adiar indefinidamente a transição democrática. Para os venezuelanos que esperavam mudanças após a prisão de Maduro, a conferência de Caracas foi mais um lembrete de que os interesses geopolíticos e econômicos muitas vezes se sobrepõem aos anseios por liberdade e justiça.

Fonte

By

0 0 votos
Classificação
guest

Resolva a soma:
7 + 1 =


0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários