Treasury a 5% é o novo novo normal, diz JPMorgan
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Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, os Treasuries, de longo prazo operam nos maiores níveis em mais de duas décadas. Na última quarta-feira (7), o rendimento do Treasury de 10 anos, referência global, operou na máxima desde abril de 2002; enquanto o yield do Treasury de 30 anos, referência para hipotecas de longo prazo, atingiu 5,7041% no maior nível desde maio do mesmo ano.

Para Marina Valentini, estrategista de mercados globais do JPMorgan Asset Management, os Treasuries no nível de 5% devem se tornar um “novo novo normal” nos mercados. “No cenário atual, diferentemente do período pré-crise financeira, temos países mais endividados, produtividade mais alta e crescimento econômico mais forte, o que pressiona a parte longa da curva [de juros]”, disse Marina, em entrevista exclusiva ao Money Times.

O que explica o novo patamar

Apesar da pressão sobre a ponta longa da curva norte-americana, a estrategista não vê os rendimentos caminhando para os níveis históricos pré-crise financeira, de 6,8% em média, e considera improvável uma disparada para acima de 6% no cenário-base. Também houve questões relacionadas ao conflito [no Oriente Médio], maiores emissões de dívida por parte das empresas de tecnologia nos Estados Unidos e preocupações fiscais e com a credibilidade, que pressionam principalmente a parte longa da curva.

Os preços do petróleo também continuam em alta, com o Brent ao redor de US$ 100 por barril. A incerteza em torno das negociações entre Estados Unidos e Irã continua mantendo os preços elevados, com maior foco na alta dos produtos refinados, como diesel e gasolina. Esses fatores se somam para manter os yields elevados.

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Diferenças em relação ao passado

Marina destaca que a tendência de aumento da parte longa dos títulos do Tesouro é observada desde 2022. “Naquele momento, o nosso time avaliou que estávamos entrando em um ‘novo novo normal’”, afirmou. Muitos olham para a alta recente e dizem que estamos voltando ao “velho normal”, ao período anterior, de 1960 a 2007, em que a média do Fed Funds era de 6%, enquanto a média do Treasury de 10 anos era de 6,8%.

No entanto, há diferenças estruturais. Uma delas é que os países estão mais endividados. Antes da crise financeira, a dívida dos Estados Unidos correspondia a cerca de 40% do PIB. Agora, está próxima de 100%, com expectativa de chegar a 120%. Ao mesmo tempo, temos motores de crescimento diferentes. O consumidor americano está muito mais resiliente, com um patrimônio que cresceu cerca de US$ 70 trilhões desde a pandemia. É um consumidor mais resiliente e menos endividado.

E a principal diferença é a inteligência artificial. Todo esse gasto de capital está levando a um aumento de produtividade. Quando pensamos nessas características do “novo novo normal”, temos países mais endividados, mas também produtividade mais alta e crescimento econômico mais forte, o que pressiona a parte longa da curva.

Impactos para o Brasil

Por aqui, os Treasuries nas máximas também têm pressionado a curva de juros futuros, reduzindo o espaço para cortes da Selic, ainda que de forma limitada. Já o câmbio tem ‘driblado’ o movimento externo: o dólar à vista tem desempenho negativo ante o real no acumulado do ano, de cerca de 4%, enquanto o DXY – que compara a divisa norte-americana a uma cesta de seis moedas fortes – já superou o nível de 100 pontos.

Segundo Marina, é o diferencial de juros entre Brasil e EUA, próximo de 10 pontos percentuais, que tem dando sustentação ao real, enquanto as eleições passam a ser um dos principais drivers dos ativos domésticos. A resiliência da moeda brasileira contrasta com a pressão global sobre os rendimentos.

A reação do Tesouro americano

Marina também comentou sobre o recente anúncio do Tesouro dos EUA de recomprar títulos longos. “Nos dias seguintes ao anúncio do pacote de recompra de títulos longos houve um efeito no mercado, com queda dos rendimentos de aproximadamente 6 a 7 pontos-base”, disse. Quando o mercado recebeu o anúncio, a leitura foi positiva, porque o Tesouro mostrou que estaria disposto a utilizar novas ferramentas para evitar uma alta muito rápida dos yields.

O que preocupa o mercado não é necessariamente o nível dos Treasuries, mas a velocidade com que eles atingem novos níveis. A economia está resiliente, o consumidor está resiliente e os fundamentos corporativos estão sólidos. É uma economia muito mais resiliente a patamares mais altos de juros.

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