A China está passando por uma mudança estrutural em seu modelo econômico, deixando para trás uma trajetória baseada em investimentos e avançando para uma economia mais dependente do consumo. A transformação, segundo especialistas, deve reduzir o ritmo de crescimento que o país se acostumou a apresentar ao mundo. A avaliação é de Hongbin Li, codiretor do Centro de Economia e Instituições da China da Universidade de Stanford, em entrevista ao NeoFeed.
Li esteve em São Paulo em 24 de agosto para o Encontro Anual de Líderes da Fundação Estudar. Na ocasião, ele detalhou os impactos dessa transição e as possíveis consequências para a relação entre China e Brasil. A seguir, os principais pontos da análise.
Transição dolorosa reduz ritmo de expansão
Para Li, a mudança de modelo econômico deve ser “dolorosa” para o crescimento. “Quando um país passa por uma grande transformação, normalmente o crescimento diminui”, afirma. “No longo prazo, se a China conseguir crescer 4,5% ao ano, considero que seria um crescimento muito saudável.”
O professor destaca que a desaceleração é um processo natural em economias que passam por reestruturação profunda. Ainda assim, ele pondera que o patamar de 4,5% ao ano seria um resultado positivo para o país. A transição, portanto, exige ajustes em diversos setores.
Salários crescem, mas abaixo do PIB
Um dos pilares da nova economia chinesa é o aumento do consumo interno. Para isso, a renda da população é um fator crucial. “Os salários cresceram aproximadamente 10% ao ano nos últimos 15 anos. Isso vale para trabalhadores de baixa qualificação. Ainda assim, considerando a velocidade do crescimento, o crescimento dos salários chineses não é tão alto em comparação com o crescimento do PIB”, afirma Li.
O especialista ressalta que, apesar do avanço salarial, a desigualdade ainda é um desafio. “Existe uma grande desigualdade na China. Aumentar a renda das pessoas mais pobres e da população trabalhadora será fundamental para aumentar o consumo”, diz. O governo chinês já adotou medidas nesse sentido, como mudanças na legislação trabalhista, que tiveram efeito significativo. A renda do trabalho na China aumentou dramaticamente desde os anos 1990, segundo Li.
Crise imobiliária e consumo em queda
A mudança de modelo econômico também ajuda a explicar a crise do setor imobiliário. Para Li, os preços dos imóveis caíram bastante nas principais cidades, como Pequim, Xangai e Shenzhen, mas podem permanecer deprimidos por um longo período em cidades menores. O problema não está apenas na perda de riqueza provocada pela queda dos preços.
A retração das compras de imóveis reduz também uma cadeia de consumo associada à habitação, que inclui reformas, móveis e eletrodomésticos. Questionado se o setor imobiliário será um motor de crescimento no futuro próximo, Li respondeu: “Não”. A afirmação reforça a necessidade de novos motores para a economia chinesa.
Relação com Brasil pode ganhar sofisticação
Li disse também que a transformação econômica da China pode abrir espaço para uma relação mais sofisticada entre Brasil e China. Embora a relação comercial entre os dois países ainda tenha forte presença de commodities brasileiras, o professor vê potencial para o país subir na cadeia de valor e atrair empresas chinesas para produzir localmente, inclusive por meio de joint ventures.
A ideia seria aproveitar o capital e a experiência chineses para desenvolver no Brasil setores como veículos elétricos, baterias e comércio eletrônico, em vez de manter uma relação restrita à exportação de produtos agrícolas e minerais. “Vejo uma tendência de muitas empresas chinesas indo ao Brasil para produzir e investir”, afirma Li.
Para o especialista, essa aproximação pode diversificar a pauta bilateral e gerar ganhos mútuos. A transição chinesa, portanto, não representa apenas um desafio para o crescimento global, mas também uma oportunidade para parceiros estratégicos como o Brasil. A fonte não detalhou prazos ou valores envolvidos nessa possível nova fase.
