A saída de Leonardo Maria Del Vecchio da EssilorLuxottica, anunciada na sexta-feira (28), reacendeu as tensões na holding familiar Delfin, principal acionista da gigante óptica dona de marcas como Ray-Ban e Oakley. A renúncia ocorre em meio a disputas entre os oito herdeiros de Leonardo Del Vecchio, fundador do império, e a uma forte desvalorização das ações da companhia. A crise familiar agora ameaça a estabilidade de um dos maiores grupos de óculos do mundo.
Renúncia expõe fissuras na cúpula
A saída de Leonardo Maria aconteceu depois da de seu meio-irmão Rocco Basilico, que era diretor de dispositivos vestíveis, que deixou a empresa no início deste ano. A renúncia de Leonardo Maria marcou uma reviravolta brusca em sua relação com o CEO Francesco Milleri, antigo braço direito escolhido por seu pai para comandar tanto a EssilorLuxottica quanto a Delfin. Em carta publicada pelo jornal MF, o executivo escreveu: “O entusiasmo não é mais o mesmo. O sentimento de pertencimento não é mais o mesmo. A distância é perceptível.”
A empresa provavelmente não nomeará substitutos para os cargos deixados por ele, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto. Ainda assim, ao renunciar, Leonardo Maria tornou pública sua insatisfação com a administração da companhia. Não está claro se outros executivos e herdeiros compartilham dessa avaliação. Caso compartilhem, Milleri poderá sofrer mais pressão. Além de CEO da EssilorLuxottica, ele preside a Delfin.
Delfin concentra ativos bilionários
A Delfin é a maior acionista do Banca Monte dei Paschi di Siena, banco que está no centro da mais recente rodada de fusões e aquisições bancárias na Itália. A holding também possui participações na Assicurazioni Generali, uma das maiores seguradoras da Europa, e no UniCredit. As ações da EssilorLuxottica acumulam queda de cerca de 40% neste ano, o que deixa a companhia com um valor de mercado próximo de € 75 bilhões.
Segundo cálculos da Bloomberg referentes à sexta-feira, a empresa representa aproximadamente 60% do valor dos ativos da Delfin.
Para sustentar as ações após a forte desvalorização e a saída de Leonardo Maria, a EssilorLuxottica anunciou na sexta-feira (28) um plano de recompra de até 5 milhões de papéis, avaliados em mais de € 800 milhões pelos preços atuais. A medida, contudo, não elimina o risco associado à governança da holding familiar.
Herança sem comando definido
As disputas na Delfin surgiram após a morte de Leonardo Del Vecchio, em 2022. Seu testamento deixou para cada um dos oito herdeiros uma participação de 12,5% na holding familiar, mas não colocou nenhum deles no comando. A exigência de uma aprovação quase unânime para decisões importantes criou um obstáculo para os herdeiros, divididos entre os seis filhos que Del Vecchio teve com três mulheres; sua viúva, Nicoletta Zampillo; e Rocco Basilico, filho dela de outro casamento.
No início deste ano, o emaranhado de disputas na Delfin parecia caminhar para uma possível solução quando Leonardo Maria se ofereceu para comprar as participações de dois irmãos, Luca e Paola. O plano de € 10 bilhões lhe daria uma fatia de 37,5% na empresa familiar e abriria caminho para a conclusão do inventário do pai. A proposta foi aprovada em uma votação da família em abril, mas divergências sobre o financiamento e a governança fizeram o negócio naufragar.
Justiça é acionada para destravar impasse
Os herdeiros apresentaram à Delfin uma notificação formal para a transferência de suas participações e recorreram à Justiça de Luxemburgo, onde está sediada a holding familiar, numa tentativa de encontrar uma saída para o impasse. Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, a expectativa é que o tribunal estabeleça formalmente o valor das participações. Não há, porém, um cronograma definido.
Uma avaliação determinada pela Justiça poderia abrir caminho para que os acionistas da Delfin transferissem suas participações para seus próprios family offices. A medida poderia facilitar transações entre familiares ao reduzir as divergências sobre os preços. O processo, contudo, não resolverá a disputa familiar nem mudará a governança da Delfin. Tampouco removerá o maior obstáculo: as principais decisões da holding ainda dependem de um amplo acordo entre os membros da família.
Analistas veem risco persistente
“A recompra de ações da EssilorLuxottica demonstra confiança por parte da administração, mas não reduz de fato o risco representado pela Delfin”, acrescentou um analista ouvido pela reportagem. Representantes da EssilorLuxottica, de Milleri e da Delfin não quiseram comentar. A fonte não detalhou o impacto potencial da disputa sobre a estratégia da companhia.
Fonte
- investnews.com.br
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