As tarifas sobre dispositivos médicos têm gerado preocupação entre especialistas do setor de saúde, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. A medida, que busca proteger a indústria local, pode acabar elevando os custos para o consumidor e comprometendo o acesso a tecnologias essenciais no cuidado ao paciente. O debate ganha força em um momento em que os sistemas de saúde já enfrentam pressões financeiras significativas.
Setor americano pediu isenção sem sucesso
O próprio setor de dispositivos nos Estados Unidos pediu isenção à autoridade de comércio do país e não foi atendido. A conta, no fim, encarece a saúde para o consumidor americano, que já convive com um gasto perto de 20% do PIB, contra algo entre 9% e 10% no Brasil e nos países da OCDE. Essa diferença evidencia o peso das tarifas em um sistema já sobrecarregado. A negativa da autoridade comercial indica que a proteção à indústria local foi priorizada, mesmo diante dos alertas do setor.
Com a negativa, os fabricantes americanos enfrentam custos adicionais que podem ser repassados aos hospitais e, posteriormente, aos pacientes. A situação é particularmente delicada em um país onde os gastos com saúde já consomem uma fatia expressiva da economia. A transição para um modelo mais sustentável torna-se ainda mais desafiadora diante desse cenário.
Brasil importa 70% dos dispositivos
A mesma lógica explica por que a resposta brasileira preocupa tanto quanto a medida original. O país importa cerca de 70% do que utiliza em dispositivos e equipamentos médicos, não só em produtos acabados, mas principalmente em partes e peças que alimentam a fabricação nacional. Essa dependência de insumos estrangeiros torna o setor vulnerável a oscilações tarifárias. Qualquer aumento nas tarifas de importação pode impactar diretamente a produção local e o preço final dos produtos.
Além disso, a importação de componentes é essencial para manter a competitividade da indústria nacional. Sem acesso a peças a preços acessíveis, os fabricantes brasileiros podem perder espaço no mercado, tanto interno quanto externo. A transição para uma maior autonomia produtiva exigiria investimentos de longo prazo e políticas consistentes.
Tarifas elevam custos e reduzem competitividade
Tarifas podem até oferecer proteção temporária, mas, quando aplicadas a um setor dependente de componentes e insumos importados, frequentemente acabam elevando os custos e reduzindo a competitividade. Uma estratégia aproxima o país das cadeias globais de inovação. A outra pode afastá-lo delas. No caso dos dispositivos médicos, o isolamento comercial pode significar atraso tecnológico e menor qualidade no atendimento à população.
Especialistas apontam que a integração às cadeias globais permite acesso a inovações e melhores práticas, enquanto o protecionismo excessivo tende a encarecer produtos e limitar opções. A escolha entre essas abordagens define o futuro do setor e a capacidade dos sistemas de saúde de oferecer cuidados de ponta. A transição para um modelo mais aberto, porém, exige equilíbrio entre interesses industriais e necessidades de saúde pública.
Previsibilidade é essencial para investir
O setor precisa de previsibilidade e segurança jurídica para investir, inovar e planejar sua produção. Quando essas condições desaparecem, a conta não fica na fronteira nem na fábrica. Mais cedo ou mais tarde, ela chega ao sistema de saúde e ao paciente. A instabilidade tarifária desestimula investimentos de longo prazo, essenciais para o desenvolvimento de novas tecnologias médicas.
Sem um ambiente regulatório estável, as empresas podem adiar ou cancelar projetos, o que afeta a oferta de dispositivos avançados. A consequência é um sistema de saúde menos equipado para atender às demandas da população. A transição para políticas mais previsíveis é vista como fundamental para garantir a sustentabilidade do setor e o bem-estar dos pacientes.
