Em uma decisão que contraria a tendência de modernização dos veículos, a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou na terça-feira, por ampla maioria, o projeto de lei AM Radio for Every Vehicle Act. A proposta torna obrigatória a presença de receptores de rádio AM em todos os carros novos vendidos no país. A medida representa uma virada significativa, uma vez que montadoras como Tesla, Volvo e BMW vinham eliminando essa tecnologia de seus modelos, alegando falta de uso e interferência com sistemas eletrônicos.
O movimento legislativo é resultado de anos de pressão por parte de um grupo diverso de defensores, que inclui empresas de radiodifusão e ex-autoridades federais responsáveis por emergências. Eles argumentam que o rádio AM continua sendo uma ferramenta vital de comunicação em situações de crise, quando outras infraestruturas falham. A aprovação na Câmara é um passo crucial, mas o projeto ainda precisa passar pelo Senado e ser sancionado para virar lei.
Mobilização bipartidária surpreende
As montadoras americanas vinham tentando deixar o rádio AM no passado. Em vez disso, provocaram algo que parecia quase impensável: uma mobilização bipartidária no Congresso para preservar a faixa de transmissão centenária. Esse apoio incomum entre republicanos e democratas reflete a importância atribuída ao rádio AM como ferramenta de segurança pública e comunicação de emergência.
Um grupo de defensores, incluindo empresas de radiodifusão e ex-autoridades federais responsáveis por emergências, vem pressionando parlamentares há anos para tornar o rádio AM obrigatório, depois que montadoras como Tesla, Volvo e BMW deixaram de oferecer esses receptores em modelos novos. A persistência desses grupos foi fundamental para colocar o tema na agenda legislativa, apesar da oposição da indústria automotiva.
O movimento está dando resultado. Na terça-feira, a Câmara aprovou por ampla maioria a chamada AM Radio for Every Vehicle Act, projeto que prevê a obrigatoriedade do rádio AM em veículos. A votação expressiva sinaliza um consenso raro em um Congresso marcado por divisões partidárias. A aprovação na Câmara representa uma vitória significativa para os defensores da medida.
Vídeo: YouTube | Fonte: investnews.com.br
Rádio como linha de vida
Para os apoiadores do projeto, o rádio AM é mais do que entretenimento: é uma infraestrutura crítica de emergência. “Por mais que nossa tecnologia continue evoluindo, nada mudou o fato de que, se você não tiver redes de celular e não tiver energia elétrica, o rádio será sua linha de vida”, disse Curtis LeGeyt, presidente e CEO da National Association of Broadcasters, entidade que representa o setor.
A declaração resume o principal argumento a favor da obrigatoriedade: em desastres naturais ou ataques, as redes de comunicação modernas podem falhar, mas o rádio AM, com seu longo alcance e simplicidade, permanece operacional.
Essa visão é compartilhada por ex-autoridades de emergência, que lembram que o rádio AM já foi essencial em eventos como furacões e incêndios florestais, quando torres de celular foram derrubadas e a energia elétrica foi interrompida. A capacidade de transmitir informações para milhões de pessoas simultaneamente, sem depender de infraestrutura frágil, é vista como um recurso insubstituível. A proposta, portanto, busca garantir que todos os motoristas tenham acesso a esse canal de comunicação, independentemente do veículo que comprem.
Indústria automotiva em alerta
Ao mesmo tempo, o projeto cria uma dor de cabeça inesperada para a indústria automotiva, que enfrenta desafios como tarifas, preços mais altos dos combustíveis e a ameaça de montadoras chinesas iniciantes entrarem no mercado americano. A obrigatoriedade do rádio AM adiciona mais um item à lista de exigências regulatórias, o que pode aumentar custos e complexidade de produção.
A mudança da indústria para deixar de incorporar o rádio AM começou há uma década, depois que mais montadoras passaram a desenvolver veículos elétricos para o mercado americano. Os motores elétricos geram interferência eletromagnética que pode afetar a recepção do sinal AM, tornando a integração mais difícil e cara. Por isso, muitas montadoras optaram por simplesmente remover o rádio AM de seus veículos elétricos, uma decisão que agora pode ser revertida por lei.
As montadoras, porém, há muito tempo se opõem à obrigatoriedade do rádio AM. Lobistas do setor argumentam que o rádio AM não é mais um recurso amplamente utilizado e afirmam que ele pode interferir no conjunto cada vez maior de tecnologias instaladas nos veículos novos. A Alliance for Automotive Innovation, principal grupo de lobby da indústria, tem sido vocal contra a medida, alegando que ela impõe custos desnecessários e não melhora a segurança veicular.
Declínio do AM e alternativas
O rádio AM, que surgiu há mais de 100 anos e é utilizado por mais de 4 mil emissoras, perdeu espaço à medida que a audiência das rádios FM cresceu ao longo do tempo. A qualidade de som superior do FM e a proliferação de opções digitais, como streaming e podcasts, reduziram drasticamente a audiência do AM. No entanto, o AM ainda mantém uma base fiel, especialmente em áreas rurais e entre ouvintes de programas de notícias, esportes e talk shows.
Atualmente, os motoristas têm uma variedade de opções para receber notícias, entretenimento e alertas de emergência, disse John Bozzella, presidente e CEO da Alliance for Automotive Innovation, em comentários feitos a parlamentares em 2024. Bozzella argumenta que os sistemas modernos de infotainment, conectividade via satélite e alertas de emergência sem fio tornam o rádio AM redundante. Ele questiona a necessidade de uma regulamentação que obrigue uma tecnologia considerada ultrapassada.
“Ao contrário de tecnologias que salvam vidas e são obrigatórias, como airbags, cintos de segurança, controle eletrônico de estabilidade e faróis, o rádio AM analógico não contribui para a segurança dos veículos”, afirmou Bozzella. A declaração reflete a posição da indústria de que a segurança veicular deve ser priorizada com base em evidências científicas, e não em nostalgia ou interesses setoriais. Para os fabricantes, a obrigatoriedade do AM é um retrocesso que ignora os avanços tecnológicos.
Próximos passos da lei
Se for aprovada, a lei exigirá que o Departamento de Transportes dos EUA publique, no prazo de um ano, uma regulamentação tornando o rádio AM obrigatório. A autoridade para fiscalizar e fazer cumprir a regra expiraria após oito anos. Esse prazo limitado sugere que os legisladores pretendem avaliar a eficácia da medida e possivelmente reavaliá-la no futuro, à luz das mudanças tecnológicas.
O projeto ainda precisa ser aprovado pelo Senado, onde o apoio bipartidário também é esperado, mas não garantido. Se virar lei, as montadoras terão que adaptar seus projetos de veículos para incluir receptores AM, o que pode exigir investimentos em blindagem eletromagnética e design de antenas. A indústria terá que equilibrar esses custos com as demandas por veículos mais modernos e eficientes.
“O que realmente diferencia este projeto de lei, e moldou a mobilização em torno dele, é o amplo apoio bipartidário”, disse LeGeyt. “Em um momento em que republicanos e democratas não conseguem concordar sobre praticamente nada.” A declaração destaca a raridade do consenso e reforça a percepção de que o rádio AM transcende divisões políticas, sendo visto como uma questão de segurança nacional e resiliência comunitária.
Divergências e incertezas
As posições conflitantes entre defensores e opositores do projeto refletem um debate mais amplo sobre o papel da regulação em um setor em rápida transformação. De um lado, a visão de que o rádio AM é uma infraestrutura crítica que não pode ser abandonada; de outro, a alegação de que a tecnologia é obsoleta e que o mercado deve decidir. A fonte não detalhou se há estudos independentes que comprovem a eficácia do rádio AM em emergências em comparação com outras tecnologias.
Enquanto o Senado não vota, a indústria automotiva continua a operar em um cenário de incerteza regulatória. A possibilidade de a lei ser aprovada pode levar algumas montadoras a antecipar a reinclusão do rádio AM em seus veículos, enquanto outras podem aguardar o desfecho. O resultado final terá implicações não apenas para os fabricantes, mas também para os consumidores, que podem ver mudanças nos equipamentos padrão dos carros novos.
A aprovação na Câmara é um marco, mas a batalha ainda não terminou. O futuro do rádio AM nos carros americanos dependerá do Senado e da capacidade dos defensores de manter a coalizão bipartidária. Enquanto isso, a discussão sobre o valor de uma tecnologia centenária em um mundo cada vez mais digital permanece em aberto.
Fonte
- investnews.com.br
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