O aumento do custo de vida, especialmente dos aluguéis e imóveis, levou manifestantes a ocuparem praças em Portugal. Os protestos começaram há três semanas, com a montagem de tendas em uma praça na cidade do Porto. Desde então, o movimento se espalhou e ganhou visibilidade nacional.
Relatos divulgados nas redes sociais e por parlamentares portugueses denunciam lesões sofridas por alguns manifestantes durante ações policiais. Apesar disso, as tendas foram remontadas após cada investida da força policial portuguesa. Nesse fim de semana, o Tribunal Administrativo de Lisboa autorizou a permanência da ocupação da Praça do Rossio até o dia 24 de novembro.
Comércio local teme impactos no Rossio
Comerciantes de Lisboa demonstram preocupação com os impactos no comércio da região. Eles também temem a realização de um mercado de Natal, previsto para ser montado na Praça do Rossio a partir do dia 14 de novembro. A ocupação pode afetar o fluxo de clientes e a logística do evento.
De acordo com um estudo citado pelos manifestantes, o ideal é que os aluguéis representem, no máximo, 30% dos salários. No entanto, a realidade em cidades como Lisboa está distante desse patamar. A situação tem mobilizado moradores e imigrantes.
Ativista brasileira relata dificuldades
A ativista brasileira Priscila Valadão, que também é cidadã portuguesa, é uma das porta-vozes do movimento das acampadas. Ela emigrou para Portugal há 12 anos e sentiu na pele a dificuldade de encaixar o aluguel no orçamento mensal. “No centro de Lisboa, você não consegue encontrar um apartamento tipo loft, que a gente chama aqui de T0, por menos de 1.500 euros, sendo que é o salário mínimo português é 920 euros. Então, é simplesmente impossível uma pessoa morar na cidade”, destaca.
Mesmo hoje, depois de mais de uma década em Portugal, Priscila ainda precisa lançar mão de estratégias para conseguir pagar a locação. Atualmente, ela vive longe do centro de Lisboa, onde divide um imóvel com outra pessoa. Segundo ela, os brasileiros, assim como muitos imigrantes, acabam tendo mais dificuldades do que os próprios portugueses de conseguir uma moradia.
“Doze anos atrás, eu já via pessoas falarem que os donos dos imóveis, quando ouviam pelo telefone, que [o potencial locatário] era um brasileiro, desligavam o telefone e falavam que o apartamento já estava alugado. E era mentira”, conta. O relato evidencia barreiras enfrentadas por estrangeiros no mercado de arrendamento.
Brasileiros são maior comunidade estrangeira
Segundo a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (Aima) portuguesa, os brasileiros são a maior comunidade estrangeira naquele país, com 493 mil pessoas, ou seja, um terço do total de imigrantes em Portugal e 4% da população total do país (11,4 milhões). Esse número não considera aqueles com dupla nacionalidade, portanto o total de brasileiros vivendo no país europeu é ainda maior. A Embaixada do Brasil em Lisboa informou que “acompanha atentamente as manifestações”.
Priscila Valadão explica que, entre os motivos para o aumento do custo com habitação em Portugal, estão a especulação imobiliária, principalmente relacionada com fundos de investimento estrangeiros, e a destinação de imóveis a hospedagens temporárias para turistas. Investidores brasileiros, aliás, fazem parte do problema da especulação imobiliária, segundo Priscila. A restrição à compra de imóveis por fundos imobiliários é uma das demandas dos participantes dos protestos.
Nova lei de arrendamento é criticada
Os manifestantes também criticam a nova lei sobre aluguéis (chamados de “rendas” ou “arrendamentos” em Portugal), que está em tramitação no Parlamento e que pode tornar ainda mais difícil a vida de quem precisa alugar imóvel para ter onde morar. Entre as mudanças propostas pelo Novo Regime de Arrendamento Urbano estão a redução do tempo para despejos, o fim do limite de 2% para reajustes nos contratos, o aumento do valor do depósito-caução e a possibilidade de recusa, pelo proprietário, de uma renovação automática do contrato.
Há ainda reivindicações sobre controle da inflação e aumentos de salários. Segundo o primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, o governo tem um plano de investimento em habitações públicas e de “dinamização” de imóveis privados. O total de investimentos previstos para o setor é de 10 bilhões de euros. Entre as políticas anunciadas por Montenegro está a construção de 133 mil residências, financiadas pelo orçamento da República e pelo Banco Europeu de Investimentos.
Fonte
- agenciabrasil.ebc.com.br
- Rádios (radios.ebc.com.br)
- TV Brasil Veja dicas do MEC para se preparar para o primeiro dia do Enem (tvbrasil.ebc.com.br)
