Family office Privatto pretende pescar em mar aberto
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A Privatto, family office de uma das famílias controladoras do Grupo Ipiranga, quer transformar sua experiência em tese para outros clãs. Dessa forma, a gestora aposta em planejamento de longo prazo e diversificação internacional. A origem, porém, é pouco convencional.

Visão geral

  • Family office de uma das famílias controladoras do Grupo Ipiranga
  • Modelo de gestão independente e fee based
  • Exposição ao exterior subiu de 11% para 25% desde 2021
  • Estratégia: dívida no Brasil, crescimento nos Estados Unidos

Uma origem pouco convencional

Diferentemente dos family offices tradicionais, a Privatto não surgiu de uma venda recente de empresa. Ou seja, a casa foi criada para gerir o patrimônio de uma das cinco famílias controladoras do Grupo Ipiranga, após a venda da participação na companhia.

Na época, especulou-se que cada uma das famílias recebeu cerca de US$ 200 milhões pela sua participação, valor que, no entanto, a Privatto não confirma. “Minha família nunca tinha tido liquidez. Eles precisavam se acostumar com o papel de investidores”, diz Cairoli.

Estruturação relâmpago

Com poucos dias para construir a proposta, Cairoli recorreu a Roger Ian Wright, um dos mais respeitados gestores do País, amigo de seu pai, ex-sócio do Garantia e fundador da Arsenal Investimentos. No entanto, Wright morreu em um acidente aéreo em 2009 em Trancoso, aos 55 anos. Ademais, ele havia sido um dos responsáveis pela entrada de Cairoli no mercado financeiro alguns anos antes.

Modelo de remuneração e governança

Foi estabelecido, desde o início, o fee based como modelo de remuneração — hoje a Privatto cobra uma taxa sobre o patrimônio, que começa em 0,5% ao ano e diminui progressivamente até 0,2%, conforme o volume administrado — e a transparência nas informações para evitar conflitos e desconfiança.

Programa de educação financeira

O objetivo era seguir o pedido de José Paulo. “Ele me disse assim: ‘nosso risco de não organizar é algum membro da família fazer um investimento errado e, daqui a alguns anos, a gente ter que socorrer. Precisamos centralizar esse movimento para evitar problemas na família’”, conta Cairoli.

Assim sendo, caberia a ele desenvolver um programa de educação financeira para que os familiares aprendessem a lidar com risco, volatilidade, liquidez e os conflitos que poderiam surgir nas decisões de investimento.

Lições dos primeiros anos

Ao fim dos cinco anos, os dois fundos haviam rendido aproximadamente 85% do CDI. O período atravessou a crise financeira global de 2008 e o início do primeiro governo Dilma Rousseff; consequentemente, o resultado abaixo do benchmark levou a família a rever o modelo.

Alguns parentes preferiram passar a cuidar diretamente do próprio patrimônio e outros mantiveram a gestão com a Privatto. No entanto, atualmente, nem todos os 14 integrantes que participaram da estrutura inicial permanecem como clientes.

O desempenho abaixo do CDI também ajudou a formar a filosofia que a Privatto adotaria nos anos seguintes. Dessa forma, a estrutura passou a centralizar a inteligência das carteiras, usando bancos, corretoras e gestores como fornecedores, sem concentrar a estratégia em uma única instituição. “Centralizamos a inteligência e usamos os bancos como estruturas operacionais”, diz Cairoli.

Abertura para outros clãs

A gestora foi formalmente estruturada em 2014, mas permaneceu por anos dedicada principalmente à família Tellechea Cairoli. No entanto, a abertura para outros grupos familiares ganhou força a partir de 2021 e, há cerca de três anos, tornou-se uma frente de expansão da empresa.

“Competimos com todo mundo, dos family offices dos bancos, inclusive os internacionais, às estruturas independentes. O nosso diferencial é a independência e a trajetória”, diz Cairoli.

Metodologia própria

O planejamento começa com uma projeção de até 40 anos da vida financeira de cada cliente. Em seguida, a Privatto reúne informações pessoais, familiares e empresariais, calcula as despesas previstas e estima como o patrimônio deve evoluir em diferentes cenários de retorno.

Da análise à execução

Em seguida, analisa a carteira existente, os relacionamentos bancários e a distribuição entre ativos financeiros, imóveis e participações empresariais. Dessa forma, a estratégia pode ser executada em diferentes instituições, de acordo com os produtos, preços e serviços oferecidos por cada uma.

Para famílias empresárias

Para as famílias empresárias, o trabalho pode alcançar também a companhia operacional: a Privatto analisa estruturas de crédito, políticas financeiras e fundos de direitos creditórios capazes de financiar clientes e fornecedores das empresas.

Dessa forma, a lógica é considerar o patrimônio familiar como um conjunto formado por empresa, imóveis e aplicações financeiras, em vez de administrar apenas o dinheiro mantido em bancos e corretoras.

Estratégia: dívida no Brasil, crescimento fora

Por que internacionalizar?

A separação entre a estratégia doméstica e a internacional é uma das principais marcas da Privatto. Por exemplo, a participação média dos investimentos no exterior passou de 11% em 2021 para 25% atualmente — e a tendência, segundo Cairoli, é de crescimento.

Ademais, a diferença não está ligada à redução de risco político ou econômico brasileiro; para o executivo, a internacionalização permite acessar empresas, setores e classes de ativos que não estão disponíveis no mercado local.

Alocação: crescimento fora, dívida no Brasil

“O empresário tem a empresa no Brasil, os imóveis no Brasil e o dinheiro no Brasil. O que é mais rápido mover? O dinheiro”, afirma ele.

Assim sendo, a tese defendida pela Privatto é comprar crescimento nos Estados Unidos e dívida no Brasil. Em uma carteira considerada moderada, a parcela brasileira pode chegar a 95% de renda fixa.

Por outro lado, no exterior, o mesmo perfil pode ter aproximadamente metade dos recursos em renda variável, além de títulos de renda fixa, hedge funds, private equity, private credit e outros investimentos alternativos.

Visão sobre ações brasileiras

A baixa exposição às ações brasileiras é uma escolha estrutural. Visto que juros e inflação persistentemente elevados aumentam o custo de capital das companhias e reduzem a quantidade de projetos capazes de produzir retorno suficiente para o acionista.

“Não acredito estruturalmente no mercado de ações brasileiro. O empresário precisa captar a um custo muito alto e rodar um projeto com retorno ainda maior para que ele se viabilize”, diz o fundador da Privatto.

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