Lula discursa na ONU com recados a Trump e críticas à guerra
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez, nesta terça-feira, um discurso com forte tom de candidato na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Em sua fala, Lula criticou a ingerência externa em processos eleitorais, mandou recados ao governo dos Estados Unidos e afirmou que a ONU falha em livrar a humanidade da guerra. O discurso ocorre a menos de um mês das eleições presidenciais no Brasil, marcadas para 4 de outubro.

Democracia em xeque e recados a Trump

Lula abriu sua participação afirmando que a democracia está novamente em xeque e que voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. Em seguida, deu outro recado ao presidente dos Estados Unidos, país que classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O petista não citou nominalmente Donald Trump, mas o contexto deixou claro o alvo das críticas.

O presidente também defendeu a igualdade de gênero e o combate à violência contra a mulher. “Um país livre do feminicídio, onde nenhuma mulher, dentro ou fora de casa, viva sob a ameaça da violência. Essa é uma causa que o mundo precisa, e o mundo todo precisa abraçar”, declarou. A fala reforça uma de suas bandeiras de campanha, voltada ao eleitorado feminino.

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ONU falha e guerra é falência da política

Lula criticou duramente o Conselho de Segurança da ONU. “Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel”, disse. Ele lembrou que 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial e que trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista. Para o presidente, a guerra é uma falência total da política.

O mandatário brasileiro também comentou o conflito em Gaza. “Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixado pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas”, afirmou. A declaração gerou reações imediatas nas redes sociais.

Lula ainda citou o conflito entre Estados Unidos e Irã, sem nomear os países. Disse que o estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra, quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional. Sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, que se arrasta há cinco anos, classificou como um “drama humanitário”.

Crime organizado e cooperação internacional

O presidente afirmou que o Brasil não subestima o desafio do crime organizado e está preparado para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam as comunidades. “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado”, disse.

Segundo Lula, a cooperação foi o espírito da proposta que entregou pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos. “Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior. Por muito tempo, os estados brasileiros atuaram cada um à sua maneira. O crime se aproveitou da falta de coordenação. Mas isso está mudando”, completou.

Multilateralismo corroído e defesa do Pix

Lula avaliou que os pilares do multilateralismo estão sendo corroídos e que a Organização Mundial do Comércio (OMC) respira por aparelhos. “Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como arma de coerção e chantagem, as consequências são nefastas”, afirmou. O presidente também atacou os negacionistas da saúde e do clima.

Na área econômica, Lula defendeu a soberania sobre os recursos naturais. “Temos os minerais críticos e as terras raras de que o mundo precisa para realizar a transição energética. Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro e é em benefício dele que serão exploradas. O acesso aos nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais”, declarou.

O presidente também saiu em defesa do Pix, sistema de pagamentos instantâneos brasileiro. “Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros e brasileiras”, emendou.

Eleições e soberania nacional

Perto do final do discurso, Lula afirmou que, apesar do “tarifaço contra a nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações”. Ele também avaliou que ainda há muito a ser feito na economia em um mundo em transformação, e introduziu o tema do fim da escala 6×1 de trabalho, uma de suas bandeiras na campanha à reeleição, juntamente com a atração do eleitorado feminino.

Por fim, o assumidamente candidato Lula citou, na tribuna da ONU, a eleição de 4 de outubro. Segundo ele, os brasileiros não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do poder legislativo. “Vão decidir entre democracia e negacionismo. Se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão”, afirmou.

O presidente reforçou que o pleito será transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão. “Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país”, afirmou, sem citar nominalmente Flávio Bolsonaro (PL), seu adversário e aliado de Trump.

Lula concluiu defendendo o sistema eleitoral brasileiro. “Possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto, sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”, afirmou. “A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano”, concluiu.

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