Dívida pública do Brasil: menor que a de ricos, mas cara
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O Brasil está longe de ser o país mais endividado do mundo. Japão, Itália, Estados Unidos e França carregam dívidas públicas superiores à brasileira — em alguns casos, acima de 100% do Produto Interno Bruto (PIB). A deterioração das contas públicas, portanto, não é uma exclusividade nacional. Pelas projeções do FMI para 2026, a dívida bruta brasileira corresponde a 96,5% do PIB, abaixo dessas grandes economias.

O problema ganhou dimensão global após anos de aumento dos gastos públicos e crescimento mais lento das economias. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida pública mundial ficou próxima de 94% do PIB em 2025 e deve alcançar 100% até 2029. O avanço das dívidas públicas não começou agora. Desde a crise financeira de 2008, governos e bancos centrais adotaram estímulos para sustentar suas economias, enquanto as taxas de juros permaneceram próximas de zero nos principais mercados.

O crédito barato permitiu que os países ampliassem os gastos sem que o serviço da dívida pressionasse tanto os orçamentos. Esse cenário, porém, começou a mudar com a volta da inflação e a elevação dos juros globais. “O déficit sempre existiu e é crônico. Só que, agora, o sapato está apertando, porque as taxas de juros estão subindo no mundo todo”, afirma Marcelo Cabral, gestor de investimentos e fundador da Stratton Capital.

Juros globais mudam o jogo

Ainda que as decisões não caminhem todas na mesma direção, o cenário mostra que a era do dinheiro praticamente gratuito ficou para trás. Isso significa que dívidas contraídas ou ampliadas quando os juros estavam próximos de zero terão de ser refinanciadas a custos maiores. A situação se torna mais delicada quando o custo médio da dívida supera o crescimento da economia. Nesse cenário, o estoque do endividamento avança mais rapidamente que o PIB, aumentando o esforço fiscal necessário para estabilizar a relação dívida/PIB.

“Hoje, o estoque de dívida é maior e o custo de rolagem também. Isso cria uma dinâmica muito negativa para a própria trajetória da dívida”, explica Gabriel Barros, economista-chefe da ARX. Fonte: FMI — World Economic Outlook, abril de 2026. Dados da dívida bruta do governo geral.

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Por que ricos pagam menos

Os números, entretanto, escondem condições de financiamento bastante diferentes. Os Estados Unidos contam com a principal moeda de reserva mundial, o maior mercado de capitais do planeta e uma economia com maior capacidade de crescimento. “São três fatores: crescimento econômico, dólar e mercado de capitais doméstico”, resume Cabral. Essas características, segundo ele, garantem demanda pelos títulos do Tesouro americano e permitem ao país financiar uma dívida maior.

“Os Estados Unidos têm dívida alta e crescimento alto. A Europa tem dívida alta e crescimento baixo”, pondera Cabral. Isso não significa que essas economias possam ampliar indefinidamente seus débitos. Significa apenas que possuem condições diferentes para financiá-los. É justamente nesse ponto que aparece a principal fragilidade brasileira: embora sua dívida seja menor, o país paga muito mais caro para mantê-la.

O custo brasileiro

Com a Selic em 13,75% ao ano, o custo dos juros consome uma parcela relevante do orçamento. O FMI estima que o Brasil gastará cerca de 8,3% do PIB com juros neste ano. Na projeção do organismo, a dívida bruta deve passar de 96,5% do PIB neste ano para perto de 107% em 2031. Segundo Gabriel Barros, o histórico de desequilíbrio fiscal e inflação acima da meta faz com que os investidores cobrem um prêmio maior para financiar o governo brasileiro.

“A diferença é que a gente não é moeda de reserva e não tem uma demanda global para rolar a nossa dívida”, afirma o economista-chefe da ARX. Apesar da piora das contas públicas, o Brasil ainda aparece em posição relativamente favorável entre os mercados emergentes. Na avaliação de Barros, isso ocorre menos por uma melhora estrutural do país e mais pela deterioração fiscal e institucional de outras economias.

Risco externo limitado

Essas características reduzem o risco de uma crise clássica de balanço de pagamentos, marcada pela falta de dólares para honrar compromissos externos. “A possibilidade de o Brasil entrar em uma crise de balanço de pagamentos é muito pequena, porque o país depende hoje muito menos do setor externo”, avalia Cabral. Para interromper essa dinâmica de falta de confiança e juros altos, o país precisa produzir resultados primários positivos de forma consistente.

Em sua avaliação mais recente, o FMI calculou que um superávit primário próximo de 1,5% do PIB seria necessário para estabilizar a dívida no médio prazo.

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