Planejamento: pilar da atividade econômica
Existe um pressuposto básico que sustenta qualquer atividade econômica: a capacidade de planejar. Empresas investem, contratam profissionais, desenvolvem tecnologias, ampliam operações e assumem riscos calculados porque acreditam ser possível projetar cenários futuros com razoável grau de segurança. Sem previsibilidade, essa capacidade perde consistência e a sustentabilidade dos negócios passa a depender mais da resistência do que da estratégia.
Informalidade domina transações na saúde
A pesquisa ABRAIDI constatou que mais de 70% das transações realizadas com operadoras de saúde e hospitais privados são informais e sem contratos firmados. Esse dado revela um ambiente de negócios onde a confiança substitui acordos formais, gerando incertezas para fornecedores e prestadores de serviços. A ausência de contratos claros dificulta o planejamento financeiro e a previsão de receitas, elementos essenciais para a sustentabilidade empresarial.
Nos últimos anos, as empresas têm convivido com um ambiente de crescente instabilidade que desafia até mesmo os mais robustos modelos de gestão. A informalidade nas transações é apenas um dos sintomas de um sistema que opera sem regras consistentes, afetando diretamente a capacidade de inovação do setor.
Estoques estratégicos e fluxo de caixa
Empresas precisam administrar estoques estratégicos para garantir que hospitais e pacientes não sofram desabastecimento, imobilizando recursos financeiros significativos em um contexto de juros elevados. Na grande maioria dos casos, os prazos originalmente pactuados para pagamento deixam de representar uma referência concreta para a gestão do fluxo de caixa. Essa realidade força as companhias a operar com capital de giro constantemente pressionado, reduzindo a margem para investimentos.
O resultado é uma inversão da lógica: empresas cuja missão é fornecer tecnologia para o sistema acabam assumindo, involuntariamente, o papel de financiadoras da própria cadeia de saúde. Em vez de focar em inovação, elas precisam gerenciar crises de liquidez e renegociar prazos constantemente.
Inovação perde espaço para crises
Quando a previsibilidade desaparece, investimentos são adiados. Projetos de expansão são reavaliados. A introdução de novas tecnologias torna-se mais lenta. A capacidade de geração de empregos especializados diminui. A inovação, elemento fundamental para a evolução da medicina moderna, perde espaço para a gestão de crises cotidianas. O setor de saúde, que deveria estar na vanguarda do desenvolvimento tecnológico, vê seu potencial limitado por um ambiente de negócios instável.
Nenhum segmento econômico consegue sustentar indefinidamente uma realidade em que as regras mudam constantemente e de forma impositiva. A falta de previsibilidade não afeta apenas as empresas, mas compromete todo o ecossistema de saúde, incluindo pacientes que dependem de tratamentos inovadores.
Debate vai além dos negócios
O debate transcende os interesses empresariais. Trata-se de uma discussão sobre a capacidade do Brasil de manter uma cadeia de suprimentos robusta, inovadora e preparada para atender às crescentes demandas de uma população que envelhece e necessita de soluções cada vez mais sofisticadas para prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças. Ronaldo Sampaio é presidente eleito da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI). A fonte não detalhou propostas específicas para enfrentar o problema, mas os dados da pesquisa indicam a urgência de medidas que restaurem a previsibilidade no setor.
