O que os acidentes aéreos podem ensinar sobre a segurança do paciente? Uma análise de décadas de pesquisas em aviação e saúde revela que a cultura organizacional — mais do que tecnologia ou recursos — é um fator determinante para desfechos seguros. Estudos apontam que hierarquias rígidas, comunicação ineficaz e medo de falar são problemas comuns a ambos os setores.
Falhas humanas e hierarquia na aviação
No livro “Blink”, Malcolm Gladwell argumenta que muitos acidentes aéreos decorrem principalmente de falhas humanas de comunicação. O sociólogo Geert Hofstede, que estudou diferentes culturas ao longo de cinco décadas, chamou de Power Distance Index (PDI) a característica central que determinou maior ou menor risco de acidente. No estudo sobre aviação, o PDI elevado permaneceu significativamente associado ao maior número de acidentes. Países com alto PDI voam com mais frequência na zona de risco – não por falta de tecnologia, mas por excesso de hierarquia silenciosa.
Essa dinâmica também se aplica à saúde. O agrupamento que inclui o Brasil apresentou os piores indicadores de desempenho em saúde entre os 35 países da OCDE. O estudo de Braithwaite foi chamado de “caixa preta” do sistema de saúde global. O cluster Orderly-Future Orientated compreende países como Alemanha, Japão e França, que obtiveram melhores resultados. Já o cluster Collective-Pyramidal, onde o Brasil se encaixa culturalmente, não teve sequer um país alcançando os objetivos da ONU.
Cultura como preditor de desfechos
A cultura é um preditor independente de desfechos em saúde, mesmo quando se ajusta o sistema para a renda e a infraestrutura local. Na Nasa, o vazamento nos anéis de vedação, uma das causas da tragédia do Challenger, era conhecido há anos, mas não foi comunicado abertamente. Num estudo publicado em 2025 no JCO Global Oncology, identificamos padrões semelhantes em centros de oncologia ao redor do mundo: culturas com alto PDI tendem a centralizar decisões, inibir comunicação aberta e comprometer a segurança psicológica.
Peter Drucker disse: “A cultura come a estratégia no café da manhã.” A frase ilustra como valores e comportamentos enraizados podem superar qualquer plano bem-intencionado. Na saúde, isso significa que protocolos e equipamentos modernos não bastam se a hierarquia silenciar vozes importantes.
Soluções da aviação aplicadas à saúde
CRM e segurança psicológica
O CRM (Crew Resource Management) parte de uma premissa radical para culturas de alto PDI: o copiloto tem o dever de questionar o capitão – não apenas o direito. Um estudo de 2016 mostra que a implementação de programas baseados no CRM reduziu taxas de mortalidade padronizadas e melhorou o clima de segurança em uma unidade de terapia intensiva, segundo Haerkens.
Essa abordagem se conecta ao conceito de segurança psicológica, definido por Amy Edmondson como a crença coletiva de que é seguro assumir riscos interpessoais, falar sobre erros, levantar dúvidas sem medo de humilhação ou punição. A recomendação de Edmondson inclui:
- Definir o contexto e o ambiente (clarificar propósito e tolerar erros);
- Convidar todos à participação, demonstrando humildade, dizendo “não sei”, praticando escuta ativa;
- Responder de forma produtiva aos problemas, agradecendo, desestigmatizando o fracasso e não tolerando violações claras.
Os profissionais de saúde que não falam diante de erros evidentes em salas cirúrgicas não são omissos por caráter — agem de maneira racional dentro de um sistema que pune a voz e recompensa o silêncio. Para mudar essa realidade, é preciso transformar a cultura, não apenas os protocolos.
