O Ibovespa encerrou o pregão desta terça-feira (3) com queda de 1,4%, aos 165.529 pontos, no menor patamar desde 19 de janeiro. Foi o sexto recuo consecutivo do índice, que acumula perda superior a 19% nesse período. No mercado de câmbio, o dólar à vista avançou 0,8%, fechando a R$ 5,49, na terceira alta seguida. O tom de forte aversão ao risco dominou a sessão, em meio a incertezas sobre a política fiscal e econômica do quarto mandato de Lula.
Ruídos fiscais e Selic em foco
O gatilho para o mau humor dos investidores veio de ruídos em torno da proposta do economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, que defende uma queda brusca da Selic, a taxa básica de juros, para resolver o problema fiscal do país. A discussão reacendeu temores de que o governo possa adotar medidas heterodoxas na condução da economia. Além disso, o Boletim Focus, divulgado nesta manhã, reforçou a cautela ao mostrar uma combinação de menos crescimento, mais inflação e juros elevados por mais tempo.
Para 2027, a projeção do PIB caiu de 1,31% para 1,20%, a da inflação subiu de 4,34% para 4,76% e a da Selic foi de 11,75% para 12,50%. Esse cenário mais adverso pressiona as avaliações de ativos de risco.
Impacto nas empresas e na Bolsa
“Na economia, isso significa menor expansão esperada das vendas, maior pressão sobre custos e financiamento mais caro. Na Bolsa, essa combinação limita as perspectivas de lucro e reduz o preço que o investidor aceita pagar pelas ações”, comenta Fábio Murad, sócio da Wiser Asset. A fala sintetiza o ambiente de cautela que tem levado investidores a reavaliar posições em renda variável. Com juros mais altos por mais tempo, o custo de oportunidade de estar em ações aumenta, e os múltiplos tendem a se contrair.
Ainda assim, há quem veja espaço para recuperação no médio prazo.
Projeções e oportunidades apontadas pela XP
A XP estima o Ibovespa em 200 mil pontos no fim do próximo ano, uma alta de cerca de 21% sobre o patamar atual. É um ganho potencial parecido com sua estimativa para a renda fixa, o que também pesou na decisão de reduzir a aposta em ações. Para quem está de olho em oportunidades depois da queda, a equipe de análise, chefiada por Fernando Ferreira, aponta empresas de alta qualidade que caíram bastante: Sabesp (SBSP3), Rede D’Or (RDOR3), Totvs (TOTS3), Itaú Unibanco (ITUB4) e Cury (CURY3).
Na lista do que evitar estão as companhias muito alavancadas, que levam pancada dupla: pagam juros altos e ainda enfrentam uma economia mais fraca.
Contexto recente e destaques do pregão
O movimento reflete a dinâmica observada em outubro, quando o índice afundou 10% em um mês marcado por forte volatilidade e aumento do temor fiscal. Só na semana passada o recuo foi de 18%, a pior semana desde 2020. No índice, a Cogna (COGN3) foi o destaque negativo, com desvalorização de quase 13%, após o Citi cortar a recomendação dos papéis de neutra para venda. Na sequência vieram CSN Mineração (CMIN3) e Azzas 2154 (AZZA3), com baixas de cerca de 5%.
Do outro lado do placar, a Natura (NATU3) teve a maior alta, de 4%, seguida por Embraer (EMBJ3) e Usiminas (USIM5), com ganhos entre 3% e 4%.
Embraer reage a contrato com a Grécia
Além de ganhar com o dólar mais alto, já que boa parte da receita vem em moeda americana, a Embraer reagiu à assinatura, na segunda-feira (2), do contrato com o Ministério da Defesa da Grécia para a venda de três aeronaves multimissão KC-390 Millennium, com opção de compra de outras três. O anúncio reforça a carteira de pedidos da companhia e contribui para a percepção de resiliência do setor aeroespacial brasileiro. A valorização das ações da Embraer contrasta com o desempenho negativo do índice no dia.
