A Gerdau anunciou nesta terça-feira (3) o encerramento da produção de aço em sua unidade de Divinópolis, em Minas Gerais. A decisão foi comunicada oficialmente pela companhia e ocorre em um contexto de forte pressão das importações e de enfraquecimento da demanda doméstica por aço. A unidade, que integra a divisão de aços longos da empresa, deixará de operar como parte de uma reestruturação produtiva.
O anúncio chega uma semana após a divulgação dos resultados do terceiro trimestre, que mostraram a pressão sobre os negócios brasileiros da Gerdau. Enquanto o lucro líquido ajustado da companhia cresceu 39,7% na comparação anual, para R$ 1,5 bilhão, as vendas de aço no Brasil recuaram 14,6%. Esse contraste revela que o bom desempenho financeiro foi sustentado por outras frentes, como operações internacionais e gestão de custos, enquanto o mercado interno perdeu fôlego.
A queda foi ainda maior nas exportações das unidades brasileiras, que diminuíram 47,9% em volume. Ao mesmo tempo, o custo das vendas por tonelada aumentou 4,5%, pressionado pela alta dos preços de insumos. Esses números ajudam a explicar a decisão de concentrar a produção em plantas mais competitivas, como informou a própria empresa.
Importações avançam e pressionam siderúrgicas
A concorrência do aço estrangeiro tem sido uma das principais preocupações das siderúrgicas brasileiras. Segundo o Instituto Aço Brasil, o país importou 600 mil toneladas de aço em setembro, um aumento de 34,6% em relação ao mesmo mês de 2025. Esse volume elevado, mesmo com alguma retração no acumulado do ano, mantém o setor em alerta.
Embora as importações tenham recuado no acumulado do ano, o volume continua elevado em relação aos padrões históricos. A entidade projeta que o Brasil receberá 4,9 milhões de toneladas de aço laminado importado em 2026, mais que o dobro da média anual registrada entre 2000 e 2019. A presença crescente de produto importado, muitas vezes com preços mais baixos, reduz a competitividade da indústria nacional e afeta diretamente a utilização da capacidade instalada.
Esse cenário de importações em alta se soma a um mercado doméstico enfraquecido, criando um ambiente desafiador para as siderúrgicas locais. A Gerdau, assim como outras empresas do setor, tem buscado ajustar sua estrutura produtiva para enfrentar esse novo equilíbrio de mercado.
Demanda interna recua e produção cai
A pressão ocorre em um momento de enfraquecimento da demanda doméstica. O consumo brasileiro de produtos de aço caiu 3,6% entre janeiro e setembro, enquanto a produção nacional de aço bruto recuou 1,7%. Esses indicadores refletem a desaceleração de setores importantes que consomem aço, como construção civil e indústria de transformação.
A combinação de menor consumo interno e maior presença de importados reduz a necessidade de produção local, levando as empresas a reavaliar suas operações. No caso da Gerdau, a resposta tem sido a racionalização da capacidade produtiva, com foco em unidades mais eficientes e com melhor logística.
A Gerdau já vinha reduzindo sua capacidade produtiva no país. No terceiro trimestre, a companhia informou a paralisação da aciaria da Açonorte, em Recife, e a redução de sua capacidade anual de produção de aço bruto no Brasil de 7,9 milhões para 7,7 milhões de toneladas. O fechamento de Divinópolis é mais um passo nessa direção.
Estratégia foca em unidades mais competitivas
Segundo a empresa, o fechamento em Divinópolis faz parte da estratégia de concentrar a produção brasileira em unidades mais eficientes e competitivas. A decisão não foi isolada, mas se insere em um movimento mais amplo de otimização do parque industrial da Gerdau no país.
A companhia não detalhou o número exato de funcionários afetados, mas informou que avalia transferir parte dos funcionários para outras unidades e oferecer cursos de qualificação para auxiliar na recolocação profissional. Essa medida busca mitigar os impactos sociais da decisão, embora a realocação dependa da disponibilidade de vagas em outras plantas e da disposição dos trabalhadores em mudar de cidade.
A escolha por Divinópolis, uma unidade de menor porte e com custos mais elevados, reflete a lógica de priorizar plantas com maior escala e proximidade de matérias-primas ou mercados consumidores. A empresa não forneceu detalhes adicionais sobre os critérios técnicos ou financeiros que embasaram a decisão.
Impacto local preocupa prefeitura
A prefeitura estima que a decisão atinja trabalhadores equivalentes a 7,4% dos empregos industriais de Divinópolis. A unidade também pode representar até 15% dos repasses de ICMS recebidos pelo município. Esses números dimensionam o peso da siderúrgica na economia local, tanto em termos de renda das famílias quanto de receita pública.
A administração municipal prepara um programa de apoio aos trabalhadores e negócios afetados. O programa deve incluir ações de recolocação profissional, apoio a pequenos fornecedores e medidas para atrair novos investimentos. A prefeitura não divulgou o valor que será destinado a essas iniciativas nem o cronograma de implementação.
O fechamento da unidade também pode gerar efeitos indiretos em serviços e comércio da região, que dependem da renda dos trabalhadores da siderúrgica. A extensão desses impactos ainda não foi calculada pelas autoridades locais.
Setor siderúrgico em reestruturação
O caso da Gerdau em Divinópolis não é isolado. O setor siderúrgico brasileiro enfrenta um cenário de excesso de capacidade global, preços internacionais deprimidos e aumento das importações. Essas condições têm levado empresas a rever portfólios de produtos, fechar unidades menos eficientes e buscar maior produtividade.
A decisão da Gerdau reflete uma tendência de consolidação e especialização, com foco em plantas de maior escala e menor custo. A empresa não informou se novas reduções de capacidade estão previstas para os próximos trimestres, mas o ambiente de mercado sugere que ajustes adicionais não podem ser descartados.
Para Divinópolis, o desafio será diversificar sua base econômica e reduzir a dependência de uma única grande indústria. O programa municipal de apoio pode ser um primeiro passo, mas os resultados dependerão da capacidade de atrair novos negócios e qualificar a mão de obra local.
A Gerdau não divulgou a data exata de paralisação das atividades em Divinópolis, nem o número de funcionários que serão transferidos ou desligados. A empresa limitou-se a informar que as medidas serão comunicadas diretamente aos empregados e que negociações com sindicatos devem ocorrer nos próximos dias.
