Dezesseis anos depois, e com a Meta muito mais do que dezesseis vezes maior do que era naquela época, chega outra oportunidade de examinar a big tech, e O Outro Lado das Redes (The Social Reckoning), que está em cartaz nos cinemas, parecia o filme para isso. A produção se propõe a recontar um momento-chave na história recente da empresa, abordando uma polêmica muito maior do que os dramas pessoais de Mark Zuckerberg e seus sócios há 20 anos. No entanto, a promessa não se cumpre.

Sem Fincher no comando, mas com o mesmo roteirista (Aaron Sorkin), o longa se dispôs a examinar as acusações envolvendo o algoritmo do Facebook e a exposição de segredos internos. A trama se divide em dois núcleos que, em tese, deveriam se complementar, mas que na prática não alcançam a tensão esperada. Enfim, apenas parecia.

O núcleo de Frances Haugen e Jeff Horwitz

No principal, Jeff Horwitz (Jeremy Allen White, de O Urso), repórter do Wall Street Journal, se aproxima de Frances Haugen (Mikey Madison, de Anora), engenheira do Facebook disposta a expor os segredos da empresa, mesmo que isso lhe custe o emprego. A relação entre jornalista e fonte é o coração dramático do filme, mas a direção não encontra formas criativas de dar corpo a essa dinâmica. As cenas de bastidores, que poderiam gerar suspense, soam burocráticas e sem urgência.

A atuação de Mikey Madison é contida, transmitindo a determinação de Haugen sem grandes arroubos. Jeremy Allen White, por sua vez, entrega um Horwitz correto, mas sem o magnetismo que o papel exigiria. A química entre os dois é morna, e o espectador acompanha os encontros sem se envolver emocionalmente. A fonte não detalhou se houve improvisação ou cortes significativos nessas sequências.

O roteiro de Sorkin, conhecido por diálogos afiados e ritmo acelerado, aqui parece menos inspirado. As conversas entre Horwitz e Haugen não têm o brilho de obras anteriores do roteirista, e as explicações sobre o funcionamento do algoritmo soam didáticas demais. A transição para o segundo núcleo, no entanto, revela ainda mais fragilidades.

Zuckerberg ensaia para o Congresso

A outra parte do filme é ainda mais frustrante. Em paralelo, acompanhamos Mark Zuckerberg (Jeremy Strong) ensaiando as respostas que daria ao Congresso norte-americano sobre as acusações envolvendo o algoritmo do Facebook, e reagindo em tempo real a novas denúncias publicadas por Horwitz. A ideia de mostrar os bastidores da preparação para o depoimento é interessante, mas a execução é monótona e repetitiva.

Jeremy Strong, conhecido por papéis intensos, interpreta Zuckerberg com uma frieza calculada. No entanto, as cenas de ensaio se arrastam, e as reações às reportagens do Wall Street Journal são previsíveis. A montagem alterna entre os dois núcleos sem criar um diálogo efetivo entre eles, e o espectador fica com a sensação de assistir a dois filmes desconexos. A fonte não detalhou se houve consultoria jurídica ou técnica para essas cenas.

O filme tenta abordar temas complexos, como a responsabilidade das plataformas e o impacto do algoritmo na sociedade, mas não aprofunda nenhum deles. As discussões ficam na superfície, e as motivações dos personagens são pouco exploradas. A transição para a conclusão é abrupta, deixando pontas soltas.

Oportunidade desperdiçada

No fim, O Outro Lado das Redes é uma grande oportunidade desperdiçada. O roteiro não é tão afiado quanto se espera de Sorkin, a direção não encontra formas criativas de dar corpo à trama, e até o que poderia jogar a favor, como as atuações, fica no ok: dignas, mas longe de brilhantes. O filme não consegue capturar a complexidade da era da desinformação nem a tensão dos bastidores corporativos.

Comparado a A Rede Social, que se tornou um clássico moderno, O Outro Lado das Redes carece de identidade visual e narrativa. A ausência de David Fincher é sentida em cada cena, e a direção genérica não imprime personalidade ao projeto. A trilha sonora e a fotografia são funcionais, mas não memoráveis. A fonte não detalhou o orçamento ou a bilheteria do filme.

Com outro diretor no comando, poderia ter sido um grande filme. Do jeito que está, ficou pelo meio do caminho. E, com certeza, não vai ser lembrado da mesma forma que A Rede Social é lembrado até hoje. A produção tinha todos os elementos para ser relevante, mas falhou em transformá-los em uma obra coesa e impactante.

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