El Niño deixa cana no campo e ameaça safra de açúcar
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As fortes chuvas provocadas pelo fenômeno El Niño estão prejudicando a colheita de cana-de-açúcar no Brasil, causando atrasos e o acúmulo da matéria-prima usada pelas usinas. Esse cenário ameaça comprometer o início da próxima temporada no maior fornecedor mundial de açúcar, segundo operadores do setor.

Operadores do produto alertaram na terça-feira para impactos iminentes durante um evento do setor em São Paulo e revisaram as expectativas para a produção brasileira na safra de açúcar atual. A preocupação é que a cana não colhida agora possa prejudicar o planejamento das usinas para o próximo ciclo.

Chuvas intensas atrasam colheita e deixam cana no campo

As chuvas intensas dos últimos dois meses dificultam a colheita, deixam cana nos campos e obrigam as usinas a escolher entre prolongar a temporada de moagem ou interromper as operações para se preparar para a próxima safra, disseram os operadores. A decisão não é simples, pois envolve equilibrar a necessidade de processar a cana disponível com a urgência de realizar a manutenção dos equipamentos.

Paulo Garcia, da Vital Commodities, projeta cerca de 45 milhões de toneladas de cana não colhida devido às chuvas provocadas pelo El Niño. Esse volume expressivo representa um desafio logístico e operacional para as usinas, que precisam encontrar uma maneira de processar a matéria-prima sem comprometer o próximo ciclo.

Algumas usinas se preparam para prolongar a moagem até o Natal, disse Garcia, mas isso pode dificultar a retomada das operações já em março, porque a entressafra mais curta deixa pouco tempo para concluir a manutenção antes do início da próxima temporada. A entressafra é o período em que as usinas realizam reparos e ajustes necessários para garantir a eficiência da moagem.

Essa extensão da moagem, embora ajude a reduzir o volume de cana deixada no campo, cria um efeito cascata: se as usinas não tiverem tempo suficiente para a manutenção, podem enfrentar quebras e interrupções na próxima safra, o que reduziria ainda mais a produção de açúcar.

Impacto no mercado global de açúcar

O Brasil é o maior exportador mundial de açúcar, e qualquer ameaça à colheita e à produção do país pode repercutir nos mercados globais do produto. A possibilidade de uma safra menor no Brasil já começa a influenciar os preços internacionais.

Os futuros de açúcar subiram 1,5% em Nova York na quarta-feira, seu segundo pregão de alta na semana. Esse movimento reflete a preocupação dos investidores com a oferta global, uma vez que o Brasil responde por cerca de 24% da produção mundial de açúcar, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.

Além disso, a redução na produção brasileira pode abrir espaço para outros países exportadores, mas a capacidade de resposta desses concorrentes é limitada no curto prazo. Isso tende a manter os preços elevados até que haja maior clareza sobre a safra brasileira.

Estimativas de produção são revisadas para baixo

A Sucden espera que o Brasil produza 37 milhões de toneladas de açúcar nesta temporada, ante estimativa anterior de 40 milhões de toneladas, feita no início da safra. Essa revisão para baixo de 3 milhões de toneladas é significativa e reflete as dificuldades enfrentadas pelos produtores.

“Não está claro quantas usinas estarão prontas para retomar a moagem em março”, disse Jeremy Austin, diretor-geral da Sucden Brasil, durante um painel na terça-feira. “Isso será algo a acompanhar nos próximos meses.” A declaração de Austin destaca a incerteza que paira sobre o setor.

A revisão das estimativas não é um caso isolado. Outros analistas e traders também têm ajustado suas projeções para refletir o impacto das chuvas. A divergência entre as estimativas iniciais e as atuais mostra como o clima pode alterar rapidamente as perspectivas para a safra.

Embora a Sucden tenha reduzido sua projeção, a fonte não detalhou se outras empresas do setor fizeram revisões semelhantes. No entanto, o tom geral do evento em São Paulo foi de cautela, com os participantes atentos aos desdobramentos climáticos.

Desafios operacionais para as usinas

As usinas enfrentam um dilema: moer a cana disponível agora ou priorizar a preparação para a próxima safra. Prolongar a moagem pode gerar receita imediata, mas compromete a manutenção. Interromper a moagem cedo demais deixa cana no campo, o que representa perda de matéria-prima.

A manutenção das usinas é crucial para garantir a eficiência da moagem. Sem o tempo adequado para reparos, as máquinas podem apresentar falhas durante a safra, levando a paradas não programadas e redução da produção. Esse risco é especialmente relevante em um cenário de entressafra mais curta.

Além disso, a cana que permanece no campo por muito tempo pode perder qualidade, com redução no teor de sacarose. Isso afeta diretamente o rendimento da produção de açúcar e etanol, tornando a operação menos eficiente.

Os operadores também precisam lidar com a logística de colheita em condições de solo encharcado, o que dificulta a entrada de máquinas e aumenta os custos operacionais. A combinação desses fatores pressiona as margens das usinas.

Perspectivas para a próxima safra

A incerteza sobre quantas usinas estarão prontas para retomar a moagem em março é um dos principais pontos de atenção. Se um número significativo de usinas não conseguir concluir a manutenção a tempo, a próxima safra pode começar com capacidade reduzida, afetando a oferta de açúcar.

Os próximos meses serão decisivos para avaliar a extensão dos danos. O clima continuará sendo um fator crítico: se as chuvas persistirem, a colheita pode sofrer novos atrasos, agravando a situação. Por outro lado, uma melhora nas condições climáticas poderia permitir uma aceleração da colheita e reduzir as perdas.

Enquanto isso, o mercado global de açúcar permanece sensível a qualquer notícia sobre a safra brasileira. Os preços podem continuar voláteis, refletindo a incerteza sobre a oferta futura.

Para os consumidores, o impacto pode ser sentido nos preços de produtos que utilizam açúcar como insumo, embora a fonte não tenha detalhado projeções nesse sentido. A situação reforça a importância do Brasil no mercado global de commodities agrícolas.

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