Como fatores genéticos predispõem jovens à depressão
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Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) buscou entender como fatores genéticos predispõem à depressão em jovens. O trabalho, integrante do doutorado do psiquiatra Marcelo Brañas, investiga se o risco genético para o transtorno é apenas um ponto de partida ou se também influencia a evolução dos sintomas ao longo do crescimento. A resposta a essa pergunta pode ajudar a compreender melhor o papel da hereditariedade e do ambiente na saúde mental dos jovens brasileiros.

A pergunta do estudo

O artigo Polygenic Risk for Major Depression: Diagnostic Specificity and Developmental Trajectories in an Admixed Youth Cohort é parte do doutorado de Marcelo Brañas, orientado pelo professor Euripedes Constantino Miguel (USP) e coorientado por Pedro Mario Pan (Unifesp). Em sua pesquisa, Brañas resume o objetivo central: “O nosso artigo buscou responder à pergunta se o risco genético para depressão apenas define um ponto de partida para o surgimento do transtorno ou se também molda a forma como os sintomas evoluem à medida que um jovem cresce”. A formulação indica que a genética pode ter um papel dinâmico, não apenas estático. Isso significa que, além de influenciar a vulnerabilidade inicial, os genes poderiam afetar a trajetória clínica da depressão em jovens.

O estudo, portanto, não trata o risco genético como um destino inevitável. Ao contrário, ele o coloca como um elemento que interage com outras dimensões. Essa interação é o foco do artigo. Para compreender essa complexidade, é preciso considerar também o ambiente em que o jovem se desenvolve.

O peso da genética

Mas há ainda um forte componente genético, já demonstrado por diversos estudos, especialmente com gêmeos. “A depressão é multifatorial. Estima-se que cerca de 37% dela [uma média do que os estudos mais robustos encontraram], em termos populacionais, está relacionada à genética, o que é uma parcela considerável”, diz o psiquiatra Marcelo Brañas. Esse percentual é uma média de achados robustos, conforme o próprio médico ressalta. Em outras palavras, quase quatro em cada dez casos de depressão, em uma perspectiva populacional, teriam relação com fatores hereditários.

A estimativa, no entanto, não significa determinismo. O mesmo Brañas enfatiza que a depressão é multifatorial, ou seja, depende da combinação de diversos elementos. Estudos com gêmeos são particularmente úteis para chegar a esses números, pois permitem comparar a influência de fatores genéticos e ambientais. Ainda assim, o percentual reforça a importância de investigar os mecanismos que ligam o DNA ao desenvolvimento do transtorno. E esse caminho inevitavelmente cruza com o contexto em que o jovem está inserido.

A influência do ambiente

Mais comum entre os tipos de depressão, o desenvolvimento do Transtorno Depressivo Maior é influenciado por muitos fatores ambientais, do contexto onde a pessoa cresce e vive — dificuldades socioeconômicas, se passou por adversidades na infância como viver em um ambiente familiar conflituoso, bullying, se teve pais usuários de drogas, entre outros. Esses fatores ajudam a explicar por que a genética não age sozinha. Eles podem atuar como gatilhos que ativam uma predisposição existente ou como elementos que moldam a forma como a doença se manifesta.

A relação entre genes e ambiente é um dos pontos centrais do artigo de Brañas. Ao examinar uma coorte de jovens (como sugere o título do estudo, Admixed Youth Cohort), os pesquisadores buscam identificar como esses fatores se combinam. Essa abordagem integrada é fundamental para uma compreensão mais completa da depressão na população jovem brasileira. Compreender essas interações abre espaço para discutir como esses conhecimentos podem ser aplicados.

Os cuidados com o uso clínico

Diante do potencial da genética para explicar parte dos casos de depressão, é natural imaginar que testes genéticos possam um dia ser usados na prática clínica. Brañas, no entanto, faz uma ponderação importante. “Isso ainda está longe, mas se a gente chegar a realmente ter esses instrumentos genéticos, será que eles podem ser prejudiciais ao paciente, com impactos psicológicos? É algo que ainda precisa ser muito bem discutido e estudado”, pondera o médico. A fala reforça a necessidade de avaliar os riscos emocionais que um teste dessa natureza poderia trazer.

Para o psiquiatra, qualquer avanço nesse sentido deve ser acompanhado de uma discussão ética cuidadosa. Os impactos psicológicos de saber que se carrega um risco genético para depressão são um exemplo disso. Ainda não se sabe, segundo a ponderação de Brañas, se esses instrumentos trariam mais benefícios do que prejuízos. Por isso, a ciência precisa avançar de forma prudente. Esse é um debate que continuará presente na agenda da pesquisa genética.

O artigo Polygenic Risk for Major Depression: Diagnostic Specificity and Developmental Trajectories in an Admixed Youth Cohort integra o doutorado de Marcelo Brañas, com orientação de Euripedes Constantino Miguel (USP) e coorientação de Pedro Mario Pan (Unifesp). A reportagem foi originalmente publicada no portal Medicina S/A, com informações do Jornal da USP.

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