O modelo de negócio que transformou empresas de capital aberto em tesourarias de bitcoin está comprometido pela queda da criptomoeda, que recua mais de 50% desde a máxima de outubro de 2025. A dúvida que paira é: até quando a Strategy, com cerca de 20 vezes a reserva da segunda maior empresa de tesouraria de bitcoin, seguirá vendendo suas criptomoedas enquanto não consegue mais captar emitindo ações?
Alerta da S&P desde 2024
Desde o ano passado, a S&P Global Ratings já alertava para os riscos do modelo. Em outubro de 2024, ao dar à Strategy a primeira nota de crédito já atribuída a uma empresa de tesouraria de bitcoin, a agência classificou a companhia em “B-” — seis degraus abaixo do grau de investimento.
“Em nossa visão, isso aumenta a probabilidade de que, quando a companhia de fato tiver de vender bitcoin para gerar caixa, como último recurso, provavelmente o faça a preços severamente deprimidos”, afirmou a agência na ocasião.
Perdas bilionárias no mercado
O modelo de abrir capital para comprar bitcoin, sobretudo via SPACs, começou a ruir lá fora. Ao todo, ainda segundo a Bloomberg, as empresas de tesouraria já listadas perderam cerca de US$ 62 bilhões em valor de mercado entre o pico do bitcoin, em outubro, e o início de junho.
Para cortar a diluição, a companhia também aceitou o resgate antecipado de uma emissão de debêntures conversíveis, eliminando a possibilidade de emitir cerca de 6,96 milhões de novas ações.
Méliuz: caso diferente
Caso diferente é o da Méliuz. A empresa de cashback também elegeu o bitcoin como principal ativo de tesouraria e, como as demais, teve prejuízo contábil no primeiro trimestre devido à queda da criptomoeda.
Enquanto OranjeBTC e Strategy negociam com mNAV abaixo de 1 — ou seja, valem em bolsa menos do que o bitcoin que carregam no caixa —, a Méliuz é negociada a 2,41 vezes o valor de suas reservas, segundo o painel de tesouraria da própria companhia. Mesmo depois de o bitcoin desabar, o mercado ainda paga mais que o dobro do que vale a reserva da Méliuz.
O prêmio reflete o negócio de cashback gerando caixa por trás da tesouraria, algo que as treasuries puras não têm a oferecer.
Desempenho da ação
A ação também sentiu muito menos a queda da criptomoeda: desde outubro, quando o bitcoin atingiu a máxima, a CASH3 recua cerca de 5%, contra 67% da Strategy e 75% da OranjeBTC no mesmo intervalo.
Empresas com receita diversificada
No exterior, mais de 100 empresas abertas carregam bitcoin no balanço sem que isso defina o valor de suas ações, por terem outra fonte de receita.
- Tesla: mantém 11,5 mil bitcoins em caixa, mas vale mais de US$ 1 trilhão vendendo carros.
- Block (fintech de Jack Dorsey): tem cerca de 8,6 mil bitcoins, mas é avaliada pelo negócio de pagamentos.
Em todos esses casos, a queda do bitcoin gerou prejuízo contábil — a Tesla, por exemplo, amargou US$ 173 milhões em perdas com a criptomoeda no primeiro trimestre —, mas não ameaça o modelo de negócio, porque a reserva é um adereço, não o ativo central.
