Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos e a Fapesp, desenvolveram uma estratégia de precisão e baixo custo para detectar a presença de superbactérias. O teste rápido, similar aos utilizados para covid-19 e gravidez, promete reduzir o tempo de diagnóstico de até três dias para apenas seis horas, aliviando o estresse de pacientes em isolamento preventivo nas UTIs. A técnica ainda aumenta a agilidade do atendimento e reduz a sobrecarga nas equipes de enfermagem.
O que são as superbactérias?
De acordo com os pesquisadores, as superbactérias são cepas de microrganismos que desenvolveram resistência a múltiplos antibióticos. Essa resistência acontece por meio da produção de enzimas destruidoras de remédios, o que torna o tratamento convencional ineficaz.
Entre os tipos mais preocupantes estão as Enterobactérias resistentes aos carbapenêmicos (ERCs), bactérias que fazem parte da flora intestinal. A proliferação dessas cepas é considerada uma das condições mais graves para a saúde humana.
- No Brasil, infecções causadas pelas ERCs apresentam uma taxa de mortalidade de 63,8%, o que reforça a necessidade de diagnósticos rápidos.
- A demora na identificação do microrganismo agrava o quadro clínico e aumenta o risco de transmissão hospitalar.
Os desafios dos métodos convencionais
Cultura bacteriana e isolamento preventivo
Os métodos convencionais, baseados no cultivo das bactérias em laboratório, demoram cerca de dois a três dias para fornecerem o resultado. Nesse período, o paciente precisa permanecer em um estressivo isolamento preventivo, uma medida que, embora necessária para evitar a disseminação, gera impactos emocionais e sobrecarrega os hospitais e as equipes de enfermagem.
Além disso, o isolamento prolongado pode causar ansiedade e desconforto, afetando a recuperação.
Testes moleculares eficientes, porém caros
Existem ainda os testes genéticos moleculares, como o PCR, Proteína C-Reativa, que oferecem maior rapidez e precisão, mas são inviáveis para a maioria dos hospitais públicos. A razão são os custos elevados e a exigência de equipamentos específicos, o que limita o acesso da população ao diagnóstico adequado.
A nova estratégia da USP
Como funciona o teste
A nova estratégia, desenvolvida pela FMUSP em parceria com CDC e Fapesp, é capaz de detectar a presença das superbactérias com baixo custo. A amostra do paciente, coletada via swab retal, é colocada em um caldo nutritivo por apenas seis horas. Em seguida, o material é inserido imediatamente no teste rápido, um dispositivo semelhante aos testes de farmácia, como o da covid-19 e o de gravidez.
Esse processo reduz o tempo de espera do resultado de dias para horas, o que diminui o período de isolamento e libera leitos de UTI.
Custo e aplicabilidade
A fonte não detalhou o custo final do teste, mas ressalta que a técnica é acessível e pode ser aplicada em larga escala. Os pesquisadores destacam que o teste pode ser realizado com equipamentos simples, o que facilita sua adoção em unidades de saúde de diferentes portes.
Diferencial da inovação
O médico infectologista Matias Chiarastelli Salomão, professor colaborador da Faculdade de Medicina e um dos autores do estudo, explica o diferencial: “O grande pulo do gato é a mudança no fluxo dos testes. Ao invés de realizarmos o exame no final do período de cultura das bactérias, ele agora é feito no início”, ressalta.
A chave está em antecipar a análise para a fase inicial do crescimento bacteriano, aproveitando o caldo nutritivo como um meio de amplificação rápida. Com isso, é possível fornecer um resultado confiável em horas, sem abrir mão da precisão. Essa abordagem, segundo o pesquisador, é o que diferencia a nova estratégia de outras tentativas anteriores. A mudança no fluxo é fundamental para reduzir o tempo de resposta sem comprometer a confiabilidade.
Impacto na saúde pública
Benefícios do diagnóstico ágil
A rapidez no diagnóstico tem potencial de transformar o manejo das infecções por superbactérias no Brasil. Com a redução do período de isolamento, pacientes deixam de passar dias em estresse desnecessário, e os hospitais conseguem otimizar recursos humanos e materiais.
A taxa de mortalidade de 63,8% por infecções por ERCs no país destaca a urgência de ferramentas como essas, especialmente em um cenário de crescente resistência antimicrobiana.
Perspectivas para a rede pública
A expectativa é que a parceria entre FMUSP, CDC e Fapesp sirva de modelo para políticas públicas de saúde, ampliando o acesso ao diagnóstico rápido em unidades de terapia intensiva.
A fonte não detalhou um cronograma para a implementação do teste na rede pública, mas a comunidade científica acompanha o desenvolvimento com atenção. Estudos adicionais ainda são necessários, mas a técnica já se mostra promissora.
