O setor do agronegócio brasileiro está sempre gerando boas notícias, com seguidas safras recordes, elevada produtividade e aumentos frequentes de participação na balança comercial do País. No entanto, um relatório inédito do Banco Inter mostra que um conjunto de pressões simultâneas vem corroendo as margens, o fluxo de caixa e a saúde financeira de inúmeras empresas do setor. Os outros dois pontos levantados pelo Inter que formam essa “tempestade perfeita” em 2026 são os juros altos e a alavancagem das empresas.
Recuperações judiciais disparam
O número de recuperações judiciais de empresas ou produtores ligados ao agro saltou de menos de 500, em janeiro de 2022, para mais de 2 mil, em janeiro deste ano. No Banco do Brasil, a inadimplência na carteira agrícola saltou de 0,6%, em dezembro de 2022, para 6,2% em março de 2026 – pico histórico da série. O banco elevou suas provisões para 9,7% nessa carteira, exposta a perdas estimadas de R$ 40,6 bilhões.
Alerta para pequenos produtores
“Embora o risco de crise sistêmica seja baixo no momento, o cenário é de alerta, principalmente para os pequenos produtores, que sofrem mais com a percepção de que o crédito está mais difícil e caro”, afirma Winalda. Entre os fatores de risco, ele cita a alta dos fertilizantes como maior causa de preocupação. Winalda afirma que já é possível notar um início de ano mais fraco em termos de volume para a ureia, o que pode sinalizar uma safra mais modesta à frente. “Em contrapartida, observa-se uma clara corrida por estocagem de fosfato, indicando que o mercado teme algum desabastecimento”, acrescenta.
El Niño ameaça safras
O El Niño – fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial – também ameaça os produtores. Para o agro, isso significa maior risco de frustração de safras, pressão sobre custos de produção e potencial escassez hídrica em regiões irrigadas, adverte o estudo do Banco Inter. Outro ponto citado como fator da “tempestade perfeita” do agro é a oscilação do preço de algumas commodities do setor, que não têm performado tão bem.
Juros altos e crédito caro
O cenário macroeconômico, com juros altos e inflação acima da meta, também contribui para a cautela no setor. “Para o setor agro, a conclusão é direta: crédito caro por mais tempo”, aponta o relatório. Nos últimos dez anos, o setor vem respondendo por uma fatia entre 23% e 25% do PIB brasileiro, com tendência de alta nos anos de supersafra e de câmbio favorável. Apenas em 2025, o PIB do agro somou R$ 3,2 trilhões, crescendo 12,2% em valor e 6,75% em quantidade produzida em relação a 2024. Em geral, o agro responde por metade das exportações brasileiras de bens, gerando 28,6 milhões de empregos na cadeia completa, do insumo à agroindústria.
Visão de especialista
Octaciano Neto, sócio da consultoria Zera Ag e ex-secretário de Agricultura do Espírito Santo, afirma que os fatores apontados pelo Banco Inter de fato preocupam isoladamente. Segundo ele, o problema é concentrado em segmentos específicos (soja e milho) e produtores mais alavancados.
