O brasileiro nunca ganhou tanto, mas o dinheiro mal entra na conta e já vai embora para pagar dívidas e juros. É o que revela um estudo do Centro de Liderança Pública (CLP), que mostra como o ciclo de crédito e consumo impulsionou a economia, mas deixou as famílias em situação frágil. A inadimplência subiu para 5,3% — alta de 1,4 ponto percentual em 12 meses — e a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas estacionou em 61,5% ao ano, um patamar considerado punitivo.
Juros altos e dívidas crescentes
O Banco Central elevou a taxa Selic em 15% ao ano em junho de 2025, mantendo-a nesse nível — o maior desde julho de 2006 — até março deste ano, quando caiu para 14,75% e, agora, está em 14,5%. Mesmo com a leve redução, os juros continuam em patamar elevado, o que encarece o crédito e dificulta a vida de quem já está endividado. A taxa média de 61,5% ao ano no crédito livre para pessoas físicas é um reflexo direto dessa política monetária restritiva.
Inadimplência em alta
A inadimplência das famílias subiu para 5,3%, um aumento de 1,4 ponto percentual em 12 meses. Isso significa que mais brasileiros estão atrasando o pagamento de suas contas, pressionados pelo custo do crédito e pelo endividamento elevado. O estudo do CLP cita dados do Ipea, de 2025, que projetam uma trajetória ascendente para a dívida bruta do governo geral: 79,6% do PIB no fim de 2025, 83,7% em 2026 e 87,0% em 2027. Esse cenário fiscal apertado contribui para a manutenção dos juros altos.
Críticas ao Desenrola 2
Segundo o CLP, trocar dívidas caras por outras um pouco menos caras — estratégia que o governo deve tentar repetir com o programa Desenrola 2 — não resolve o problema de fundo. O documento defende controlar o crescimento das despesas públicas, para contribuir com o ambiente de queda de juro, e frear o impulso de crédito estimulado pelo governo sobre famílias já excessivamente comprometidas. A nota técnica sugere ainda medidas mais ambiciosas, como a venda de ativos públicos subutilizados para abater a dívida e abrir espaço para investimentos reais.
Conta chegou, diz economista
“O ciclo de gasto, crédito, consumo e emprego comprou tempo, mas não comprou sustentabilidade. Agora, a conta chegou”, afirma Daniel Duque, em referência ao estudo do CLP. A frase resume o diagnóstico de que o modelo baseado em estímulo ao consumo via crédito se esgotou, deixando as famílias endividadas e o governo com espaço fiscal reduzido. Para o CLP, é necessário um ajuste fiscal mais profundo para que os juros possam cair de forma sustentável e a renda do brasileiro deixe de ser engolida por dívidas.
