O fenômeno climático El Niño pode atingir intensidade sem precedentes e ultrapassar os padrões observados nas últimas quatro décadas, afirmou nesta quarta-feira (21) a diretora da agência meteorológica das Nações Unidas. A declaração foi feita por Celeste Saulo, secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), durante a divulgação de novas projeções climáticas globais. O alerta ocorre em um momento de crescente preocupação com os impactos do aquecimento global e a capacidade dos países de conter as emissões de gases de efeito estufa.
Segundo Saulo, o El Niño deve levar uma onda de calor para algumas regiões e abalar os padrões de chuva, provocando seca severa, enquanto em outras regiões ele pode causar inundações. A declaração reforça a necessidade de preparação para eventos extremos em diferentes partes do mundo. A fonte não detalhou quais áreas específicas serão mais afetadas, mas o histórico do fenômeno sugere impactos significativos em regiões tropicais e subtropicais.
Aquecimento global supera projeções anteriores
O aquecimento global deve ser mais intenso que as projeções anteriores, mesmo no cenário mais otimista, com as temperaturas médias subindo para 1,7 a 1,8 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais até meados do século, segundo relatório da ONU divulgado hoje. Esse valor está acima da meta de 1,5°C estabelecida no Acordo de Paris de 2015, que os países concordaram em tentar manter como limite preferencial para evitar os piores impactos climáticos.
Apesar da rápida expansão das energias renováveis e das políticas climáticas que estão reduzindo as emissões em muitos países, o relatório mostrou que ainda são necessárias reduções “urgentes e rigorosas” para alcançar o melhor cenário possível. A diferença entre as projeções atuais e as metas acordadas evidencia a lacuna entre compromissos e ações concretas. Especialistas apontam que a janela para limitar o aquecimento a níveis seguros está se fechando rapidamente.
COP31 e a luta contra as emissões
Enquanto os países se preparam para a próxima rodada de negociações climáticas na Turquia, a COP31, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que é crucial não desistir dos esforços para conter as emissões que estão causando inundações, incêndios e outros desastres naturais. A declaração foi feita em um contexto de frustração com o ritmo lento das reduções de gases de efeito estufa.
“Ultrapassar a meta não significa desistir. Ainda podemos manter esse aumento o menor e mais curto possível – e fazer com que as temperaturas voltem a ficar abaixo de 1,5 grau até o final do século”, disse ele. A fala de Guterres busca manter o engajamento político, mesmo diante da constatação de que a meta de 1,5°C provavelmente será temporariamente excedida. A COP31 será um momento-chave para avaliar a ambição dos novos planos climáticos nacionais.
Meta de 1,5°C: ultrapassagem inevitável?
De acordo com o Acordo de Paris de 2015, os países concordaram em tentar manter o aumento médio da temperatura bem abaixo de 2 graus e, preferencialmente, em 1,5°C. No entanto, o relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) indica que limitar o aquecimento a 1,5°C sem ultrapassagem ou com ultrapassagem limitada não é mais considerado possível. Essa constatação marca uma mudança significativa no discurso climático internacional.
Como limitar o aquecimento a 1,5°C sem ultrapassagem ou com ultrapassagem limitada não é mais considerado possível, o Pnuma disse que seu novo cenário de ultrapassagem, “mais baixo possível”, oferece cerca de 50% de chance de que as temperaturas possam retornar a 1,5°C ou menos até 2100. Esse cenário dependeria de reduções drásticas de emissões e de tecnologias de remoção de carbono em larga escala. A incerteza sobre a viabilidade dessas tecnologias é um ponto central de preocupação.
Planos climáticos insuficientes e remoção de carbono
O relatório indicou ainda que os planos climáticos apresentados desde o ano passado praticamente não alteraram as projeções de aquecimento futuro e que o retorno à meta de 1,5°C dependeria da remoção de carbono em grande escala, cuja viabilidade é incerta. Isso significa que as promessas atuais dos países, mesmo se cumpridas integralmente, não seriam suficientes para evitar uma ultrapassagem significativa da meta de temperatura.
A remoção de carbono em grande escala envolve tecnologias como captura direta do ar e bioenergia com captura e armazenamento de carbono, que ainda estão em estágios iniciais de desenvolvimento e enfrentam desafios técnicos e econômicos. A fonte não detalhou quais tecnologias específicas foram consideradas no relatório, mas a menção à incerteza sugere que os formuladores de políticas não devem contar exclusivamente com essas soluções. O foco, segundo o relatório, deve permanecer na redução imediata e profunda das emissões.
El Niño e aquecimento: uma combinação perigosa
A coincidência entre um El Niño potencialmente recorde e um aquecimento global acima das projeções anteriores pode amplificar os impactos climáticos em todo o planeta. O El Niño tende a elevar temporariamente as temperaturas globais, somando-se à tendência de aquecimento de longo prazo causada pelas emissões humanas. Isso pode resultar em anos excepcionalmente quentes e em eventos extremos mais frequentes e intensos.
Os efeitos do El Niño incluem alterações nos padrões de vento e precipitação, que podem levar a secas prolongadas em algumas regiões e a chuvas torrenciais em outras. A combinação com o aquecimento global pode agravar a escassez de água, os incêndios florestais e as perdas agrícolas. A fonte não detalhou projeções específicas para o Brasil, mas historicamente o El Niño está associado a secas no Norte e Nordeste e a chuvas excessivas no Sul.
Diante desse cenário, a mensagem das Nações Unidas é clara: é preciso acelerar a transição para uma economia de baixo carbono e aumentar a resiliência das comunidades vulneráveis. A COP31, na Turquia, será uma oportunidade para os países revisarem suas metas e assumirem compromissos mais ambiciosos. Enquanto isso, o mundo observa os desdobramentos do El Niño e se prepara para um futuro climático incerto.
Fonte
- agenciabrasil.ebc.com.br
- Rádios (radios.ebc.com.br)
- TV Brasil Xamã, Tainá Müller e Genesson Honorato no Sem Censura (tvbrasil.ebc.com.br)
