Uma nova diretriz da Associação Americana da Tireoide (ATA) está mudando a conduta médica em relação ao tratamento de alterações da tireoide durante a gestação. Publicada quase dez anos após as diretrizes anteriores, de 2017, a orientação internacional traz mudanças significativas, especialmente para o hipotireoidismo subclínico. No Brasil, especialistas analisam os impactos e adaptam as recomendações à realidade do sistema de saúde.
Anticorpo positivo não exige tratamento
O subcoordenador do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Cleo Mesa Júnior, explica que o anticorpo positivo detectado por exame mostra apenas uma predisposição a desenvolver a alteração da tireoide. “Se os [hormônios] TSH e o T4 livre estão normais, a mulher é considerada eutireoidiana e não há benefício comprovado em usar levotiroxina, apenas pela gestante ter o anticorpo positivo”, afirma. Dessa forma, a presença isolada do anticorpo não justifica o início da medicação. A conduta busca evitar tratamentos desnecessários.
Hipotireoidismo prévio exige ajuste de dose
Para aquelas mulheres que já tinham hipotireoidismo antes de engravidar, a orientação continua sendo aumentar em cerca de 30% a dose habitual do hormônio assim que ela engravida. Essa recomendação permanece inalterada e visa garantir níveis adequados de hormônio tireoidiano desde o início da gestação. O ajuste precoce é fundamental para o desenvolvimento fetal. A nova diretriz não modifica essa conduta consolidada.
Brasil mantém rastreamento universal
O Brasil manterá a estratégia de rastreamento precoce de todas as gestantes, desde o início da gravidez, para identificar quem realmente precisa de tratamento. A decisão é diferente da nova diretriz da ATA que sugere o rastreamento seletivo apenas em mulheres que tenham fatores de risco, que nos critérios anteriores eram a idade materna, a obesidade e o número de gestações anteriores.
O especialista em endocrinologia admite que a recomendação internacional, baseada em fatores de risco, é controversa porque não existem provas científicas definitivas de que testar apenas quem tem risco seja melhor do que testar todas as gestantes. “O rastreamento seletivo pode deixar de identificar algumas mulheres que apresentam alteração da tireoide, mas não possuem os fatores de risco considerados na triagem”, alerta.
Foco no primeiro trimestre
Outra mudança no posicionamento diz respeito ao hipotireoidismo subclínico, situação em que o TSH fica elevado, mas o hormônio tireoidiano (T4 livre) permanece normal. A partir de agora, o início do tratamento para TSH (hormônio que estimula a tireoide a trabalhar) entre 4,0 e 10 mUI/L fica focado no primeiro trimestre da gestação. Especialistas defendem que, até a 12ª semana de gravidez, é o momento em que o desenvolvimento do feto depende mais do hormônio tireoidiano materno.
Se o problema for identificado apenas no segundo ou terceiro trimestre, a orientação é apenas acompanhar a função tireoidiana sem iniciar a levotiroxina, salvo se o TSH for superior a 10 mUI/L neste período.
Individualização e janela de oportunidade
O representante da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia esclarece que não há evidência científica clara de benefício em iniciar o tratamento hormonal de rotina. “Isso não significa deixar de tratar o hipotireoidismo fraco ou alterações importantes. A decisão deve considerar o nível do TSH, o T4 livre, e o momento da gestação”, disse Cleo Mesa Júnior. Antes da diretriz norte-americana, quando o problema era detectado durante a gestação, a reposição do hormônio poderia ser considerada, independentemente do tempo da gestação. Agora, a janela terapêutica é mais restrita.
Repetição de exames gera divergência
O posicionamento internacional também recomenda repetir o exame de detecção do nível do hormônio TSH somente após o período de uma a três semanas antes de decidir tratar a gestante. Isso porque, em determinadas situações, algumas alterações leves podem ser transitórias na gestação. No Brasil, as sociedades médicas recomendam não aguardar este período para repetir a coleta de sangue antes, para só então decidir iniciar a terapia na gestante, como defende Cleo Mesa Júnior.
“[No Brasil], em um sistema em que nem sempre é possível garantir retorno rápido, esperar pode significar perder a janela de oportunidade para o tratamento”, justifica.
Priorização quando não houver testagem universal
Quando não houver condições para testar todas as gestantes, a nova diretriz prioriza o rastreamento de alterações na tireoide em gestantes com maior risco. A medida brasileira, além de não perder a oportunidade de diagnosticar a doença, busca maior individualização dos casos para tratar quem realmente precisa e para evitar o excesso de medicação desnecessária. Dessa forma, o objetivo é otimizar recursos sem comprometer a saúde materno-fetal. A fonte não detalhou quais seriam os fatores de risco considerados nessa priorização.
Fonte
- medicinasa.com.br
- diretriz (www.thyroid.org)
