Niall Ferguson diz que Brasil está condenado a ficar no meio
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O historiador britânico Niall Ferguson afirmou que o Brasil está “condenado a ficar no meio” da disputa entre Estados Unidos e China, que ele classifica como uma segunda Guerra Fria. A declaração foi feita em entrevista ao NeoFeed durante a Expert XP, onde Ferguson também analisou as eleições presidenciais brasileiras, a dependência econômica da China e o papel do país na revolução da inteligência artificial.

Segunda Guerra Fria: EUA e China em rota de colisão

Ferguson vê Washington e Pequim mergulhados em uma nova confrontação global, comparável ao embate ideológico do século XX. O ponto crítico, segundo ele, é Taiwan. “A China diz que Taiwan pertence à China, e os Estados Unidos afirmam que reservam o direito de impedir que a China assuma o controle da ilha”, explicou, destacando o impasse crescente na região.

Taiwan: o epicentro da crise

Para o historiador, o paralelo com a Guerra Fria original é claro: a primeira teve seu momento mais explosivo em Cuba – a crise dos mísseis de 1962 –, enquanto na segunda “a pior crise pode acontecer em Taiwan”. Ele considera a ilha o ponto de tensão mais evidente entre as potências, um foco de risco que pode escalar para um conflito militar aberto.

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Brasil condenado a ficar no meio

Nesse cenário, Ferguson traçou um diagnóstico duro para o Brasil. “O país está condenado a ficar no meio”, afirmou, referindo-se à impossibilidade de escapar da geopolítica bipolar. Contudo, ele apontou que a distância geográfica em relação aos principais teatros da disputa reduz os riscos imediatos para o território nacional, um alívio relativo que não elimina as pressões comerciais e diplomáticas.

A entrevista também abordou o processo eleitoral brasileiro e a forte dependência econômica da China, o principal parceiro comercial do Brasil. O historiador evitou previsões sobre o resultado das urnas, mas sublinhou que a relação com Pequim é um fator que inevitavelmente moldará as decisões de qualquer governo, independentemente de sua orientação política.

Potencial desperdiçado: recursos naturais e barreiras estruturais

Minerais críticos e terras raras: oportunidade ignorada

Um dos pontos mais críticos de Ferguson foi o desperdício de vantagens competitivas do Brasil. Ele destacou que o país dispõe de energia barata e reservas abundantes de minerais críticos e terras raras, recursos monopolizados pelos chineses. “Os minerais críticos e as terras raras são monopolizados pelos chineses, e o Brasil possui reservas abundantes desses recursos”, lembrou, em um tom de alerta sobre a oportunidade perdida.

Barreiras aos data centers

Apesar desse potencial, Ferguson observou que o Brasil mantém barreiras que dificultam a instalação de data centers, infraestrutura vital para a economia digital. Sem celeridade na atração desses investimentos, o país corre o risco de ficar para trás, justamente quando a demanda global por capacidade de processamento explode com o avanço da inteligência artificial.

Inteligência artificial: sem estratégia, sem protagonismo

Para o historiador, a ausência de uma estratégia nacional para a IA é um dos maiores desafios. “O Brasil não tem uma estratégia para a IA, mas poderia ser um protagonista na expansão de data centers”, afirmou, sugerindo que o país reúne condições naturais para se tornar um hub de infraestrutura computacional. No entanto, a combinação de falta de visão e entraves regulatórios trava esse movimento.

Ferguson descartou a ideia de uma estrutura totalmente nacional na disputa tecnológica global – “é inviável”, disse – e defendeu uma aproximação com o ecossistema americano de inteligência artificial. Segundo ele, grandes modelos de linguagem exigem uma estrutura completa com capacidade computacional gigantesca para treinamento e ainda maior para inferências, algo que demanda parcerias robustas e não o isolamento.

O peso do protecionismo histórico

A crítica ao protecionismo histórico brasileiro também apareceu na conversa. “Durante muitos anos, o Brasil foi protecionista, voltado para dentro e fechado em si mesmo”, afirmou Ferguson, indicando que essa herança ainda pesa sobre a capacidade do país de se integrar às cadeias globais de valor. A superação desse legado, na visão do historiador, é condição para que o Brasil deixe de apenas observar as transformações e passe a influenciá-las.

Ao final, a mensagem de Ferguson foi uma síntese de alerta e oportunidade: o Brasil está no meio da disputa, mas pode usar recursos e posição geográfica para se beneficiar, desde que adote políticas mais abertas e estratégicas para áreas como IA e minerais críticos. A fonte não detalhou caminhos específicos para essa mudança, mas o recado foi claro.

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