O CEO global da Stellantis, Carlos Tavares, fez um alerta ao governo brasileiro sobre o avanço das montadoras chinesas no mercado nacional. Em entrevista exclusiva ao NeoFeed, ele afirmou que a expansão dos carros importados e dos modelos montados com kits chineses está transferindo para a China uma demanda que poderia beneficiar siderúrgicas e fornecedores locais. A declaração ocorre em meio ao anúncio de R$ 32 bilhões em investimentos da Stellantis na América do Sul, com foco em produtos e tecnologias locais.
Investimento e estratégia de localização
A Stellantis anunciou R$ 32 bilhões em investimentos na América do Sul, com foco em produtos e tecnologias locais, visando crescer 10% em volume até 2030 e manter a liderança no Brasil e na região. Em entrevista exclusiva ao NeoFeed, Tavares afirmou que a montadora pretende responder ao avanço das fabricantes chinesas com produção local e parcerias com grupos do país asiático, como Leapmotor e Dongfeng.
“Conhecemos o consumidor brasileiro e temos a capacidade de estar próximos dele. É essa competência que queremos oferecer aos nossos parceiros. Já temos uma parceria consolidada com a Leapmotor fora da América do Sul e começamos agora a desenvolvê-la também na região”, disse.
“Nossa estratégia não é importar. Queremos produzir aqui, desenvolver fornecedores locais, conversar diariamente com o cliente e oferecer o que ele deseja. Estamos finalizando em Pernambuco uma linha modular para a produção da Leapmotor e podemos fazer o mesmo trabalho com a Dongfeng”, completou.
O executivo destacou que a receita é a localização: “Mais do que colocar marcas para ‘bater de frente’, nossa receita é a localização. Vamos trazer tecnologias e produtos, trabalhar em conjunto e desenvolver fornecedores no Brasil. O que for produzido aqui será feito por trabalhadores daqui e com componentes e sistemas de fornecedores locais.”
Alerta sobre o impacto no aço brasileiro
Tavares fez um alerta ao governo brasileiro: a expansão dos carros importados e dos modelos montados com kits chineses está transferindo para a China uma demanda que poderia beneficiar siderúrgicas e fornecedores nacionais. Ele apresentou dados que mostram o impacto desse avanço sobre a indústria brasileira do aço.
“Considerando os carros importados e os kits trazidos da China, o volume de aço que entrou no Brasil por meio desses veículos passou de aproximadamente 20 mil toneladas, em junho de 2025, para 50 mil toneladas em junho de 2026. Mais do que dobrou”, afirmou.
“Isso significa que, mesmo com o crescimento da indústria automobilística brasileira, empresas como Gerdau e Usiminas podem não estar capturando esse aumento da demanda. Quem ganhou mais espaço foram os produtores instalados na China”, completou. O CEO ressaltou que a participação das marcas chinesas passou de menos de 10% para cerca de 20% no mercado brasileiro.
Comparação com políticas globais
Para Tavares, o Brasil precisa seguir o exemplo de outros países que já definiram prioridades para o setor automotivo. “Os Estados Unidos decidiram priorizar a manufatura automotiva e seus fornecedores. Para isso, estão definindo um sistema regulatório e uma política comercial próprios. A Europa também discute quais regras aplicar ao setor para incentivar e privilegiar a produção local”, comparou.
“O Brasil é um mercado enorme, com grande potencial presente e futuro, e também precisa estabelecer suas prioridades. Este é um momento importante para discutir isso com a política brasileira”, afirmou. A declaração reforça o pedido por medidas que protejam a indústria nacional diante do avanço chinês.
Estratégia multi-energy e futuro
Perguntado se a estratégia de localização vale apenas para veículos elétricos, Tavares respondeu que não. “Existe mercado para múltiplos tipos de motorização. Os veículos elétricos e eletrificados estão crescendo e terão um espaço muito importante, mas ainda existe um mercado predominante de biocombustíveis e de combustíveis tradicionais. Nossa estratégia é multi-energy. O consumidor quer liberdade de escolha e um carro adequado à forma como pretende utilizá-lo. Continuaremos oferecendo veículos a etanol, gasolina, híbridos e elétricos”, explicou.
O executivo demonstrou confiança na capacidade da Stellantis de competir: “Temos marcas muito fortes e um time capaz de entender o que o consumidor deseja e oferecer a tecnologia e o produto que ele vai querer comprar nos próximos meses.” A montadora aposta na produção local e em parcerias para manter a liderança no Brasil.
