Brasília — Logo após ser reeleito, em uma virada inédita e histórica no segundo turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já deu pistas, em seu primeiro discurso, que vai intensificar em seu quarto mandato o embate contra as big techs — tema caro ao seu governo. A declaração foi feita em São Paulo, acompanhado de ministros, aliados e apoiadores, e marca o tom da nova gestão para o setor digital.
O petista criticou duramente as empresas de tecnologia que, segundo ele, não pagam impostos no país e tentam influenciar processos eleitorais. “Não podemos ter empresas monstruosas de grande ganhando milhões e bilhões, não pagando nem um imposto para esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral desse país”, afirmou. A fala sinaliza prioridade para a regulação do setor.
Regulação das plataformas é prioridade
Lula reforçou que os crimes cometidos no ambiente digital devem ser tratados com a mesma seriedade que os da vida real. “Essa foi uma eleição que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro através de plataformas digitais que nós vamos ter que regular. Não é possível que a gente não tenha consciência que o crime no mundo digital tem que ser tratado que nem na vida real”, complementou. O presidente deixou claro que a regulação será uma bandeira central do novo mandato.
Em setembro do ano passado, o governo Lula já havia enviado um projeto de lei para o Congresso Nacional no sentido de regular as big techs. A proposta ainda está com o relator, o deputado Aliel Machado (PV/PR), mas foi aprovada em regime de urgência pelo plenário da Câmara, em março deste ano. O texto cria um departamento específico para o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), uma superintendência especial de Relevância Sistêmica, Livre Concorrência e Defesa do Consumidor em Mercados Digitais, para tratar do tema.
O PL também integra a lista de prioridades do Ministério da Fazenda e era uma das bandeiras do ex-ministro da pasta, Fernando Haddad. Em ano eleitoral, contudo, o projeto teve sua discussão adiada. A expectativa é que a tramitação ganhe novo fôlego com o início do quarto mandato.
Comunicação digital e exército nas redes
Ao mesmo tempo que enfatizou o cerco às big techs, Lula também sinalizou que pretende ter uma política mais assertiva para a comunicação digital a partir de 2027. Seu governo foi frequentemente criticado por perder várias batalhas nas redes, terreno dominado pelo bolsonarismo. A intenção é reverter esse cenário com estratégias mais eficientes.
Lula também pretende melhorar a comunicação digital do governo e manter o “Exército do Lula” no WhatsApp. Além disso, ele se comprometeu a governar para todos, incluindo empresários, e planeja investir em data centers e na economia digital. A manutenção da militância digital é vista como essencial para contrapor narrativas adversárias.
Acenos a empresários e economia digital
Ao longo do discurso de vencedor, o petista também se comprometeu a governar o País não só para quem o elegeu e prometeu reuniões com empresários, educadores, cientistas e as mulheres, grupos aos quais fez acenos mais diretos. A fala busca ampliar a base de apoio e sinalizar um governo de coalizão ampla.
Lula também reforçou que pretende investir em data centers em seu quarto mandato. Em outubro, o Congresso finalmente aprovou a lei que cria o Redata, programa do governo que concede incentivos fiscais aos datacenters – a iniciativa, porém, ainda depende de regulamentações que ainda não saíram. “Nós queremos fazer desse país um país que se torne desenvolvido. Muito investimento na economia digital, na economia verde e na economia criativa”, ressaltou.
Educação e inteligência artificial brasileira
Prometeu também universalizar escolas de tempo integral e desenvolver uma inteligência artificial brasileira, enfatizando a importância de educação em matemática e engenharia. “Iremos ensinar mais matemática, mais engenharia, porque eu não quero ficar dependendo de Inteligência Artificial chinesa ou americana, quero criar uma [IA] brasileira”, pontuou. A declaração indica aposta em soberania tecnológica e formação de mão de obra qualificada.
As promessas abrangem desde a regulação das plataformas até investimentos em infraestrutura digital e educação, delineando um plano ambicioso para o setor. Resta saber como o governo irá conciliar o embate com as big techs e os acenos ao empresariado, em um cenário político ainda marcado por polarização.
