Pesquisa aponta que juízes homens ganham mais em 86% dos Tribunais de Justiça
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Em 86% dos Tribunais de Justiça (TJs) do país, os juízes homens recebem mais do que as juízas. A conclusão é de um estudo que analisou as folhas de pagamento de 25 cortes estaduais, com exceção de Santa Catarina e do Amapá.

A desigualdade não se restringe ao salário-base, mas também se amplia nos chamados penduricalhos e vantagens.

Metodologia do levantamento

O levantamento, encerrado em junho de 2026, examinou dados das folhas de pagamento dos tribunais. Santa Catarina não permitiu a exportação estruturada dos dados, o que excluiu o tribunal da amostra.

Já o Amapá não havia publicado as folhas de dezembro de 2025 até o fechamento do estudo, motivo pelo qual também ficou de fora. Assim, a análise abrangeu 25 dos 27 tribunais estaduais.

Pagamentos milionários concentrados entre homens

Em um período de dois anos, os dados registraram pagamentos de grandes montantes, todos concentrados no público masculino:

  • 14 pagamentos mensais acima de R$ 1 milhão, todos destinados a homens.
  • 83 pagamentos entre R$ 500 mil e R$ 1,7 milhão, sendo 82% deles para juízes.

Esses montantes estão geralmente associados a funções de direção e cargos de confiança, de acordo com o estudo. Ou seja, os maiores acréscimos salariais são ocupados majoritariamente por homens.

A pesquisa aponta que a desigualdade não se limita ao salário-base, mas se amplia nos penduricalhos e vantagens. Essas rubricas complementares reproduzem o desequilíbrio já observado no vencimento padrão.

O acesso a esses benefícios está diretamente ligado a postos de comando, o que ajuda a explicar a concentração nos homens. Dessa forma, a remuneração total acaba por acentuar as diferenças.

Distância maior em Rondônia e Minas Gerais

Rondônia: maior diferença entre desembargadores

A maior diferença média de remuneração entre homens e mulheres foi encontrada entre desembargadores de Rondônia. No tribunal rondoniense, os homens recebem, em média, R$ 56,8 mil a mais por ano do que as mulheres no mesmo cargo.

O número é um dos exemplos mais evidentes de como a disparidade persiste no topo da carreira. A diferença não é pontual, mas reflete uma realidade estrutural.

Minas Gerais: disparidade entre juízas de primeiro grau

Entre as juízas de primeiro grau, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG) apresentou a maior disparidade. A mediana anual de rendimento líquido de uma juíza mineira é R$ 18,1 mil menor do que a de um juiz na mesma função.

Esse dado reforça a conclusão de que, mesmo no mesmo degrau da carreira, as mulheres recebem menos. Os exemplos de Rondônia e Minas Gerais mostram que a diferença não é um fenômeno isolado.

Desigualdade também é de poder

Para a diretora-executiva da Justa, Luciana Zaffalon, a diferença de pagamentos é um sinal de que também há desigualdade na distribuição de poder dentro dos tribunais. “A distribuição de recursos acompanha a distribuição de poder”, afirmou.

A fala de Zaffalon encontra respaldo nos números: dos 27 tribunais estaduais, apenas quatro são atualmente presididos por mulheres — Espírito Santo, Paraná, Sergipe e Tocantins. Ou seja, a minoria de cortes sob comando feminino reflete a mesma lógica observada na remuneração.

Esse cenário reforça a tese de que a desigualdade salarial é, antes de tudo, uma desigualdade de acesso aos postos de poder. As funções de direção e os cargos de confiança, que impulsionam os maiores salários, são majoritariamente ocupados por homens. A consequência é a concentração dos rendimentos mais altos no mesmo perfil.

A pesquisa sugere que, sem mudanças na estrutura, a situação tende a se perpetuar.

Medidas afirmativas para destravar o topo

Zaffalon descreve o resultado de uma resolução que mirou especificamente a promoção como uma forma de “destravar o topo”. Ela atribui o avanço ao fato de a resolução ter endereçado as promoções.

Além disso, a entidade já recomenda a criação de uma política similar para a entrada e a progressão na carreira em primeira instância. A proposta é estender o mecanismo para as fases iniciais da carreira.

A ideia é que, assim como ocorreu com as promoções para os tribunais superiores, também sejam adotadas medidas afirmativas para garantir maior presença feminina desde o início da carreira. Isso incluiria critérios de alternância ou de paridade em concursos e progressões.

Sem essas políticas, a tendência é que a desigualdade se perpetue. Os dados mostram que o problema não está na capacidade das juízas, mas na estrutura que privilegia determinados grupos.

Mudanças ainda dependem de indicações

Nesse contexto, uma vaga aberta em tribunal superior pode ser ocupada por uma mulher, o que representaria um avanço na composição da corte. Contudo, a decisão cabe às instâncias políticas e depende de indicação presidencial e aprovação do Senado.

A expectativa é que os dados divulguem o problema e pressionem por mudanças concretas. Enquanto isso não ocorre, os tribunais estaduais seguem refletindo uma realidade em que as mulheres ganham menos e ocupam menos espaços de comando.

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