Choque da inadimplência na bolsa: análise da Meraki Capital
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Risco de inadimplência no crédito de varejo

A possibilidade de um choque na bolsa brasileira desencadeado pelo aumento da inadimplência no crédito de varejo é uma hipótese que ganha contornos concretos na análise da Meraki Capital. Com R$ 2 bilhões sob gestão, a casa dedicada especialmente ao mercado de ações avalia que os riscos de calotes podem ser o estopim para uma correção nos preços dos ativos, especialmente no setor bancário.

Em entrevista, o CFO da gestora detalhou os movimentos táticos que refletem essa visão cautelosa e revelou as preferências setoriais para navegar o cenário.

A Meraki Capital, embora tenha sua atuação principal em renda variável, também opera um fundo multimercado responsável pela gestão do patrimônio da Fundação Lia Maria Aguiar. Essa diversificação, no entanto, não dilui a convicção da equipe de que o momento exige seletividade rigorosa na exposição a papéis de bancos, justamente o segmento mais sensível à dinâmica da inadimplência.

Preferência por Itaú e BTG Pactual

Na frente bancária, a Meraki Capital concentra suas apostas compradas em dois nomes: Itaú Unibanco e BTG Pactual. A escolha não é aleatória.

De acordo com o CFO, essas instituições são avaliadas como menos expostas ao crédito de varejo, segmento considerado mais vulnerável em um ambiente de deterioração da renda das famílias e de juros ainda elevados. “Itaú e BTG têm carteiras com perfil de risco mais equilibrado e menor concentração em linhas de financiamento ao consumo”, explicou o executivo, sinalizando que a gestora busca proteção relativa dentro do setor.

A preferência reflete uma leitura de que bancos com grande base de clientes pessoa física e forte atuação em cartões de crédito e crédito pessoal tendem a sofrer mais com o aumento da inadimplência. A fonte não detalhou números de provisões ou índices de calotes, mas a mensagem foi clara: é preciso estar nos veículos certos para evitar surpresas.

Cobertura de posições vendidas

Um dado revelador da postura atual da Meraki Capital é o encerramento de posições vendidas (short) em Bradesco, Santander e Banco do Brasil.

O CFO confirmou que a gestora esteve vendida nesses papéis ao longo do ano, apostando na queda dessas ações, mas já cobriu integralmente essas posições. “Hoje, a Meraki não está vendida nesses bancos”, afirmou, acrescentando que a casa manteve as posições compradas (longs).

Esse movimento de cobertura de shorts e manutenção de longs sugere que a gestora viu um ponto de exaustão na desvalorização desses ativos ou uma mudança no balanço de riscos. Embora a fonte não tenha detalhado os motivos exatos, a decisão indica que o pior momento para as ações desses bancos pode já ter passado, ou que o custo de manter as apostas vendidas se tornou proibitivo diante de valuations deprimidos.

Inadimplência como gatilho de risco

Para a Meraki Capital, a inadimplência no crédito de varejo não é apenas um indicador setorial; trata-se de uma variável macro que pode contaminar a confiança do mercado como um todo.

Embora o CFO não tenha usado a palavra “gatilho”, a combinação de preferência por bancos menos expostos e o encerramento de posições vendidas sugere que a gestora enxerga riscos assimétricos. A deterioração da qualidade do crédito poderia levar a revisões para baixo nos lucros dos bancos, afetando o índice Ibovespa e provocando um efeito dominó em outros setores.

A leitura indireta é que, se a inadimplência superar as expectativas, o impacto não ficará restrito aos balanços financeiros: poderá desencadear um choque de confiança, reduzindo o apetite por risco e pressionando múltiplos na bolsa. A gestora, porém, não especulou sobre a magnitude desse possível choque nem sobre horizontes temporais, mantendo o foco na alocação tática.

Visão sobre o cenário global

Paralelamente, o CFO também comentou sobre valuations extremos no mercado global, citando o caso da Nvidia. A fabricante de chips já valeu US$ 1 trilhão e, nos últimos dezoito meses, estabilizou-se na faixa de US$ 5 trilhões – uma cifra que ilustra o apetite por ativos de tecnologia, mas também acende alertas sobre possíveis bolhas. Embora a menção não tenha sido diretamente ligada ao risco de inadimplência no Brasil, ela reforça a noção de que a Meraki Capital está atenta a múltiplos fatores que podem detonar correções bruscas.

A discrepância entre as avaliações de empresas de tecnologia americanas e a realidade de bancos brasileiros não passou despercebida. Enquanto o mercado global precifica otimismo quase irrestrito com inteligência artificial, a gestora prefere ater-se a fundamentos domésticos, selecionando nomes com menor risco de inadimplência, mesmo que isso signifique abrir mão de parte da euforia tecnológica.

Postura cautelosa e seletividade

No frigir dos ovos, a Meraki Capital adota uma postura que mescla cautela tática e convicção em teses de longo prazo. Ao se concentrar em Itaú e BTG Pactual, a casa aposta que a qualidade das carteiras de crédito será um diferencial competitivo crucial.

O encerramento das posições vendidas nos demais bancos sinaliza que o pessimismo pode ter atingido um limite, mas sem significar uma guinada otimista.

A mensagem central que emerge da entrevista é que os investidores devem monitorar de perto os indicadores de inadimplência. Qualquer deterioração acima do previsto pode funcionar como o catalisador de um ajuste mais intenso nos preços, especialmente se coincidir com um ambiente global menos favorável. Por ora, a Meraki parece posicionada para enfrentar esse risco com seletividade e gestão ativa de riscos – uma estratégia que, em tempos incertos, pode fazer toda a diferença.

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