A gestão hospitalar brasileira vive um momento de transformação. Nos últimos anos, hospitais de ponta adotaram práticas modernas de administração, certificações internacionais e protocolos de segurança. No entanto, esse avanço não se reflete no sistema de saúde como um todo. A maioria das instituições ainda luta com falta de recursos, infraestrutura precária e acesso desigual. O resultado é um país com ilhas de excelência em meio a um oceano de carências.
Números revelam o contraste
Os números ajudam a dimensionar o salto e seus limites. São mais de 380 mil organizações de saúde cadastradas no CNES, 7.642 hospitais e cerca de 686 instituições acreditadas no país (9%). No recorte do estado de São Paulo são 1.196 hospitais, dos quais são 216 acreditados (18%). A acreditação é um selo de qualidade que atesta a adoção de padrões internacionais de gestão e segurança. A diferença entre a média nacional e a paulista evidencia a concentração de excelência em regiões mais desenvolvidas.
O problema é o alcance. Esse Brasil de excelência representa um bolsão: o topo do segmento privado, parte do filantrópico em grandes regiões e alguns equipamentos públicos. A saúde suplementar chegou a cerca de 53 milhões de beneficiários em 2025, aproximadamente 26% da população. Ou seja, a maioria dos brasileiros não tem acesso a essa rede de alta qualidade. A transição para um sistema mais equitativo esbarra em barreiras estruturais e financeiras.
SUS: dependência e desigualdade
Sete em cada dez brasileiros seguem dependendo exclusivamente do SUS, onde coabitam serviços de padrão internacional e unidades em sucateamento acelerado, em municípios que não conseguem sequer manter a porta de entrada funcionando. A qualidade que conquistamos é real, mas ainda não é universal. Essa dualidade é o retrato de um sistema fragmentado, onde a gestão eficiente convive com a escassez crônica. A falta de investimento contínuo compromete a capacidade de atendimento e gera filas e desassistência.
Enquanto hospitais de referência realizam transplantes e cirurgias robóticas, unidades básicas de saúde em áreas remotas carecem de insumos básicos e profissionais. A disparidade regional é gritante: o Norte e o Nordeste concentram os piores indicadores de infraestrutura e recursos humanos. A gestão hospitalar avançada, nesses contextos, é uma exceção, não a regra. A universalização do acesso exige políticas públicas robustas e financiamento adequado.
Financiamento: o nó não desatado
E aqui está o nó que a gestão moderna ainda não conseguiu desatar: o financiamento não acompanhou o salto de qualidade. As Organizações Sociais de Saúde dependem de contratos renováveis e gestores trabalham com orçamentos estrangulados, sem previsibilidade. A instabilidade financeira impede o planejamento de longo prazo e a manutenção de equipes qualificadas. Sem recursos estáveis, mesmo os hospitais mais bem administrados enfrentam dificuldades para sustentar seus padrões.
As operadoras vivem crise sem precedente: desperdício, ineficiência, fragmentação e falta de interoperabilidade corroem margens enquanto a sinistralidade pressiona o setor. O modelo de remuneração por procedimento incentiva o volume em detrimento da qualidade, gerando desperdícios e procedimentos desnecessários. A falta de integração entre sistemas de informação dificulta a coordenação do cuidado e eleva os custos administrativos. A crise das operadoras reflete a necessidade de reformular o financiamento da saúde suplementar.
O papel das lideranças
Diante desse cenário, líderes do setor defendem mudanças estruturais. *Anis Mitri Filho, médico e executivo em saúde, presidente da AHOSP – Associação de Hospitais e Serviços de Saúde do Estado de São Paulo e coordenador do Comitê das Organizações Sociais de Saúde (COSS) da FEHOSP, tem alertado para a urgência de um novo modelo de gestão. A experiência das organizações sociais mostra que é possível alcançar eficiência com qualidade, desde que haja contratos claros e financiamento adequado.
A profissionalização da gestão é um caminho sem volta, mas precisa ser acompanhada de políticas públicas coerentes.
A gestão hospitalar avançou, mas o sistema não. O desafio agora é transformar as ilhas de excelência em um arquipélago acessível a todos. Isso exige vontade política, investimento contínuo e uma visão sistêmica que integre público e privado. Enquanto o financiamento for insuficiente e a gestão fragmentada, a qualidade continuará sendo privilégio de poucos. A saúde é um direito constitucional, e sua efetivação depende de um sistema que funcione para todos, não apenas para uma minoria.
