Emergências oncológicas no SUS crescem e indicam falhas
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Um estudo conduzido por pesquisadores da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) revelou que as internações por emergências oncológicas no Sistema Único de Saúde (SUS) cresceram de forma consistente entre 2008 e 2024. A análise, apoiada pela FAPESP e publicada em junho na revista Cancer Epidemiology, examinou quase 5 milhões de internações de urgência registradas no SUS no período.

O aumento persistiu mesmo após ajustes estatísticos para o envelhecimento da população, o que, segundo os autores, aponta para deficiências no percurso do paciente até o diagnóstico e tratamento do câncer.

O levantamento não conseguiu determinar quantos pacientes ainda não tinham diagnóstico de câncer ao serem internados por conta de uma emergência oncológica, pois essa informação não está disponível na base de dados do SUS. Contudo, de acordo com o professor responsável, essa é uma das perguntas que o grupo pretende responder em outras etapas da pesquisa, acompanhando pacientes da rede pública prospectivamente.

A ausência desse dado, porém, não invalida a constatação central: as emergências oncológicas estão se tornando mais frequentes no SUS, e isso não se explica apenas pela mudança na estrutura etária da população.

O que são emergências oncológicas

Emergências oncológicas são complicações agudas decorrentes do câncer ou de seu tratamento que exigem intervenção imediata. Entre os exemplos mais comuns estão a síndrome da veia cava superior, compressão medular, hipercalcemia maligna, neutropenia febril e sangramentos graves. Esses quadros costumam surgir em fases avançadas da doença, quando o tumor já compromete funções vitais ou quando a terapia provoca efeitos colaterais severos.

Pacientes que chegam ao pronto-socorro com essas condições frequentemente necessitam de cuidados intensivos, como ventilação mecânica, hemodiálise e monitorização em UTI. O desfecho clínico, nesses casos, tende a ser menos favorável do que quando o câncer é detectado em estágio inicial. Por isso, a ocorrência crescente dessas internações é vista como um sinal de alerta para a qualidade do rastreamento e do acesso ao tratamento oncológico no sistema público.

Crescimento persiste após ajuste por idade

Um dos pontos centrais do estudo foi a aplicação de ajustes estatísticos para eliminar o efeito do envelhecimento populacional. A hipótese inicial era de que o aumento das internações poderia ser explicado simplesmente pelo fato de a população brasileira estar mais velha, já que o câncer é mais incidente em idades avançadas. No entanto, mesmo após esse ajuste, o crescimento das emergências oncológicas continuou significativo.

“Se as emergências oncológicas acontecessem apenas por causa do envelhecimento, esse crescimento desapareceria depois do ajuste estatístico. Mas ele continuou existindo. Isso mostra que há outros fatores envolvidos, relacionados ao funcionamento do sistema de saúde e à jornada que o paciente percorre até conseguir diagnóstico e tratamento”, afirma Cunha, um dos autores do trabalho. A declaração indica que barreiras de acesso, demora na investigação diagnóstica e dificuldades para iniciar o tratamento em tempo hábil podem estar contribuindo para que mais pacientes cheguem ao hospital já em situação de emergência.

Falhas no diagnóstico precoce

O estudo não detalhou quais etapas da jornada do paciente são mais críticas, mas os pesquisadores sugerem que o diagnóstico tardio é um fator relevante. Quando o câncer é identificado em estágio avançado, as chances de complicações agudas aumentam consideravelmente. Além disso, pacientes que aguardam por consultas, exames ou início de tratamento podem sofrer progressão da doença nesse intervalo, elevando o risco de emergências.

Para Cunha, os achados reforçam a necessidade de fortalecer as estratégias de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce do câncer, além de ampliar o acesso ao tratamento em centros especializados. O professor ressalta que investir em prevenção e diagnóstico precoce aumenta as chances de cura, reduz a ocorrência de complicações graves e o impacto sobre o SUS. A declaração aponta para a importância de políticas públicas que garantam fluxos ágeis desde a atenção primária até a oncologia de alta complexidade.

Impacto financeiro e assistencial

Além do custo humano, as emergências oncológicas representam um peso financeiro considerável para o sistema de saúde. Internações de urgência por complicações do câncer costumam demandar recursos de alta complexidade, como leitos de UTI, suporte ventilatório, hemodiálise e medicamentos de alto custo. Esses gastos são muito superiores aos necessários para o diagnóstico e tratamento precoce da doença.

“É muito mais eficiente para o paciente e muito menos custoso para o sistema público de saúde diagnosticar um câncer precocemente do que tratar uma emergência oncológica. Quando esse paciente chega ao pronto-socorro, muitas vezes ele precisa de UTI, ventilação mecânica, hemodiálise e uma série de recursos de alta complexidade, além de apresentar uma chance muito menor de recuperação”, conclui Cunha. A fala resume a lógica econômica e clínica que deveria orientar as políticas de controle do câncer no Brasil.

Próximos passos da pesquisa

Os pesquisadores da EPM-Unifesp planejam dar continuidade ao trabalho com estudos prospectivos, acompanhando pacientes da rede pública para entender melhor em que momento da trajetória ocorrem as falhas que levam às emergências. A base de dados do SUS, embora ampla, não contém informações sobre o status de diagnóstico no momento da internação, o que limita as conclusões atuais.

Com o acompanhamento direto de pacientes, será possível identificar gargalos específicos, como demora na realização de biópsias, falta de acesso a consultas especializadas ou atrasos no início da quimioterapia ou radioterapia. Esses dados poderão subsidiar intervenções direcionadas para reduzir as internações de urgência e melhorar os desfechos clínicos.

O estudo publicado na Cancer Epidemiology representa um passo importante para dimensionar o problema das emergências oncológicas no SUS. Ao demonstrar que o aumento não se deve apenas ao envelhecimento, os autores chamam a atenção para a necessidade de revisar os fluxos de cuidado e investir em estratégias que garantam o diagnóstico e o tratamento em fases iniciais da doença. A expectativa é que os próximos resultados da pesquisa tragam respostas mais detalhadas sobre os pontos críticos do sistema e orientem políticas públicas mais eficazes.

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