A poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais, gestores brasileiros notam um descompasso entre as demandas econômicas e as propostas dos candidatos, Lula e Flávio Bolsonaro. A avaliação foi apresentada durante painel com representantes de três casas de investimento, que discutiram os possíveis impactos no mercado financeiro. Entre os pontos centrais estão a ausência de uma agenda fiscal clara e as incertezas sobre a trajetória de juros.
Agenda fiscal vazia preocupa investidores
Na campanha, o principal descompasso entre as expectativas do mercado e o que vem sendo defendido pelos candidatos é a ausência de uma proposta fiscal clara para os próximos quatro anos. “Não vamos ter essa discussão na eleição; não [é um tema que] ganha voto”, afirmou Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset, durante painel. Ainda assim, a gestora trabalha com a possibilidade de que algum pacote de ajustes será implementado a partir do próximo ano independentemente do vencedor.
“Algum pacote de ajuste para a gente não ter um desarranjo na economia — juros subirem, câmbio subir muito —, alguma coisa precisa ser feita”, afirmou. Ao mesmo tempo, ele não espera que o assunto seja central na eleição: “Não vamos ver essa discussão na eleição — não ganha voto e não vai ter”. A fala reflete um sentimento de que o debate fiscal ficará para depois do pleito, independentemente do resultado.
Cenários divergentes para Lula e Flávio
Na TAG Investimentos, o CIO André Leite vê uma diferença maior entre os dois principais cenários eleitorais. Para Flávio, a gestora espera um ajuste fiscal mais profundo. Já no caso de Lula, o gestor classifica a perspectiva como uma incógnita. Essa distinção reflete a dificuldade de precificar os ativos diante de propostas ainda pouco detalhadas.
Maurício Moura, sócio do fundo Zaftra, estende a crítica à oposição. “Essa foi uma campanha que infelizmente o eleitor vai chegar na urna sem entender qual vai ser o projeto de Brasil da situação e o projeto de Brasil da oposição”, disse em painel. A falta de clareza programática é apontada como um fator de risco adicional para os investidores.
Segundo turno é cenário-base, mas há surpresas
O cenário-base dos gestores brasileiros é de um segundo turno entre Lula e Flávio, acompanhando as mais recentes pesquisas de intenção de voto que mostram os candidatos próximos a um empate. Segundo Moura, cujo fundo acompanha eventos eleitorais no Brasil e no exterior, essa combinação poderia alterar significativamente a distribuição dos votos e abrir espaço para que Flávio saísse à frente no primeiro turno – ou até mesmo já vitorioso.
“A probabilidade de vitória da oposição no primeiro turno não é desprezível. Muito pelo contrário: é maior do que nos anos anteriores”, afirmou. Já o CIO da TAG, aposta em um segundo turno entre os principais candidatos, mas acredita que uma eventual vitória de Flávio ainda é subdimensionada nos mercados. “O mercado está pouco posicionado para esse evento, talvez tenha precificado de 15% a 20% desse movimento”, disse Leite.
Impactos nos ativos e na curva de juros
Em caso de vitória de Flávio, o CIO vê bolsa e juros reais longos, como as NTN-Bs, com melhor desempenho ajustado ao risco. Com Lula, Leite diz que bolsa e NTN-Bs já negociam em nível de preço estressado e sofreriam menos do que a real, que seria o ativo mais vulnerável. A liberação de valor, porém, depende da trajetória de juros. Segundo ele, um nível de Selic abaixo de dois dígitos seria necessário para que o investidor deixasse o CDI e buscasse outras opções de investimento.
No entanto, o CIO vê o atual ciclo de cortes com ceticismo, e projeta que o país pode entrar em uma nova trajetória de alta de juros em caso de um novo governo Lula. Leite avalia que o atual ciclo de redução tem um componente político relevante, especialmente por serem cinco cortes consecutivos mais brandos, de apenas 0,25 ponto percentual (p.p.), quando o usual é que o BC aumente o ritmo após os primeiros cortes.
Pressões inflacionárias e perspectivas para 2027
Funchal, da Bradesco Asset, também reconhece pressões de alta da inflação. “Olhando friamente para os choques [inflacionários] esperados daqui para frente, a tendência seria aumentar os juros. Podemos ter choque de El Niño, fim da escala 6×1, petróleo. São vieses de alta”, afirmou. A gestora do Bradesco, no entanto, projeta queda para os juros em 2027. Funchal considera razoável o argumento do Banco Central de que a desaceleração da economia contraída para o próximo ano possa abrir espaço para a continuidade dos cortes mesmo com as pressões contrárias.
