A escassez mundial de diesel está dando novo impulso aos esforços da Petrobras para aumentar a produção doméstica de combustível, e reacende a questão da autossuficiência em derivados de petróleo às vésperas das eleições. O Brasil, apesar de ser um exportador líquido de petróleo, ainda depende da importação de um terço do diesel que consome. A estatal avalia investimentos que tornariam o país 100% autossuficiente nesse combustível, mas o cenário político pode influenciar diretamente o rumo dessas decisões.
O tema ganhou relevância em meio a um cenário global de oferta restrita, com impactos diretos nos preços e na segurança energética nacional. A disputa eleitoral coloca em lados opostos visões sobre o papel da Petrobras e a participação da iniciativa privada no setor de refino. Enquanto o ex-presidente Lula prometeu ampliar a capacidade de refino da estatal, o candidato Flávio Bolsonaro inclina-se para o investimento privado, conforme declarações de seu assessor de campanha, Adriano Pires, que criticou no passado a ideia de a Petrobras construir mais refinarias.
Autossuficiência em diesel é meta distante
Hoje, de cada três litros de diesel consumidos no Brasil, um vem de fora, mesmo com o país sendo um exportador líquido e gigante de petróleo. Falta capacidade de refino para transformar o óleo bruto em derivados. A Petrobras não respondeu a um pedido de comentário sobre seus planos de investimento, mas a estatal já sinalizou publicamente a intenção de ampliar unidades existentes, como a Rnest e o Complexo Boaventura.
Apesar das ambições de refino da Petrobras, a previsão para 2035 da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) aponta que o país continuará sendo um importador líquido de combustíveis, mesmo com as expansões planejadas. Isso indica que a autossuficiência total em diesel não deve ser alcançada no médio prazo, independentemente do resultado eleitoral. A dependência externa, portanto, tende a persistir, exigindo estratégias de diversificação de fornecedores e gestão de estoques.
EUA ampliam participação no mercado brasileiro
Os Estados Unidos forneceram o equivalente a 80.400 barris de diesel por dia ao Brasil nos primeiros oito meses deste ano, um aumento de 11% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, os fornecedores norte-americanos ampliaram sua participação no mercado brasileiro de diesel – de 26% para 33%. Essa virada ocorreu à medida que os suprimentos da Rússia diminuíram, enquanto uma onda de ataques ucranianos danificou refinarias e reduziu as taxas de processamento de petróleo para os níveis mais baixos em vários anos.
A maior presença dos EUA no fornecimento de diesel ao Brasil reflete uma reconfiguração das rotas globais de comércio de combustíveis. Com a redução das exportações russas, os compradores brasileiros buscaram alternativas no mercado americano, que se mostrou mais estável e próximo geograficamente. Essa mudança, porém, expõe o país a eventuais oscilações na política energética norte-americana, como ameaças de restrições às exportações.
Incertezas políticas nos EUA e no G7
O ex-presidente Donald Trump afirmou que estava considerando “muito seriamente” a implementação de uma proibição de exportações de diesel no início desta semana, mas na sexta-feira disse que nunca teve a intenção de realmente fazê-lo. Essas declarações foram feitas poucas horas depois que o G7 concordou em participar de uma liberação de 100 milhões de barris de reservas emergenciais de petróleo e diesel para amenizar a crise global. A volatilidade nas declarações de líderes mundiais adiciona um componente de risco para importadores como o Brasil.
A possibilidade de restrições às exportações norte-americanas, ainda que momentaneamente descartada, evidencia a fragilidade da dependência externa. Para o Brasil, que já firmou contratos para importar quase 170 mil barris de diesel por dia neste mês, de acordo com a Abicom, associação do setor de importadores, a segurança do abastecimento é crucial. Dois terços desse volume devem vir dos EUA, o que reforça a importância das relações comerciais entre os dois países.
Debate eleitoral sobre o papel da Petrobras
A discussão sobre autossuficiência em diesel entrou na pauta eleitoral, com propostas divergentes para o setor de refino. Lula prometeu ampliar a capacidade de refino da Petrobras, defendendo o fortalecimento da estatal como instrumento de política energética. Já Flávio Bolsonaro inclina-se para o investimento privado, sinalizando uma abertura maior para a participação de empresas independentes no refino.
O assessor de campanha de Flávio, Adriano Pires, criticou no passado a ideia de a Petrobras construir mais refinarias, argumentando que o capital privado poderia suprir a demanda com mais eficiência. Essa divergência reflete visões distintas sobre o papel do Estado na economia e pode influenciar diretamente os planos de expansão da capacidade de refino no país. A definição do próximo governo será decisiva para o rumo dos investimentos no setor.
Impactos para o consumidor e a economia
A dependência de diesel importado tem efeitos diretos sobre os preços dos combustíveis e, consequentemente, sobre a inflação e o custo de vida. O diesel é essencial para o transporte de cargas e para a agricultura, setores que repassam os custos para toda a cadeia produtiva. A volatilidade do mercado internacional, agravada por conflitos geopolíticos e decisões de grandes produtores, torna o abastecimento interno vulnerável a choques externos.
A busca por autossuficiência, ainda que parcial, poderia reduzir essa exposição e trazer maior previsibilidade aos preços. No entanto, os investimentos em refino são de longo prazo e exigem bilhões de reais, o que demanda planejamento e estabilidade regulatória. A eleição, portanto, não define apenas quem comandará o país, mas também o modelo de desenvolvimento do setor energético nas próximas décadas.
Perspectivas para o futuro do refino
As projeções da EPE indicam que, mesmo com as expansões planejadas, o Brasil continuará importando combustíveis em 2035. Isso sugere que a autossuficiência total em diesel é um objetivo distante, que exigiria investimentos muito superiores aos atualmente previstos. A construção de novas refinarias ou a ampliação significativa das existentes enfrenta desafios ambientais, financeiros e de mercado.
Enquanto isso, o país seguirá dependente de importações, especialmente dos EUA, que se consolidaram como principal fornecedor. A diversificação de fontes e o fortalecimento da infraestrutura de armazenamento e logística são medidas que podem mitigar riscos de curto prazo. O debate eleitoral, contudo, terá papel central na definição das prioridades para o setor de refino nos próximos anos.
Por Mariana Durao, Dayanne Sousa e Redação InvestNews
Fonte
- investnews.com.br
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