A capital do Quirguistão, Bishkek, tornou-se o centro das atenções diplomáticas da Eurásia nesta semana. A cimeira anual da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) reúne um grupo diverso de líderes de 21 países, que buscam novas alianças, ambições e oportunidades diante da ascensão de potências regionais em uma Eurásia multipolar em rápida transformação. O encontro ocorre em um momento de reconfiguração geopolítica, com conflitos ativos e cadeias de suprimentos sendo redesenhadas.
Os dez membros plenos da OCX — China, Índia, Paquistão, Rússia, Bielorrússia, Irã, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão — representam mais de 40% da população mundial. A organização, que assinalou seu 25.º aniversário, foi originalmente criada para lidar com questões de segurança regional após o colapso da União Soviética. Com o tempo, porém, evoluiu para uma plataforma de cooperação comercial, de segurança e política em múltiplos níveis, refletindo as mudanças no equilíbrio de poder global.
Conectividade econômica e novos corredores
Um dos objetivos centrais da cimeira é desenvolver oportunidades de conectividade econômica, incluindo novos corredores energéticos e de transporte. Esse foco ganha urgência em um cenário em que o conflito envolvendo o Irã está redesenhando as cadeias mundiais de trânsito e abastecimento. Países da região buscam rotas alternativas que evitem áreas de instabilidade, reduzam custos logísticos e fortaleçam a integração regional.
Durante os debates, os líderes devem explorar projetos de infraestrutura que liguem a Ásia Central ao Oriente Médio e à Europa, aproveitando a posição geográfica estratégica do Quirguistão e de seus vizinhos. A fonte não detalhou quais corredores específicos foram discutidos, mas a ênfase em energia e transporte indica uma prioridade em segurança econômica e resiliência das cadeias de suprimentos.
China e Quirguistão em ‘período de ouro’
O presidente chinês, Xi Jinping, descreveu as relações entre China e Quirguistão como um “período de ouro” de desenvolvimento. A declaração sinaliza o aprofundamento dos laços bilaterais, que incluem investimentos em infraestrutura, comércio e cooperação em segurança. O Quirguistão, país anfitrião da cimeira, tem sido um parceiro estratégico para a China na região, especialmente no âmbito da Iniciativa do Cinturão e Rota.
Esse relacionamento privilegiado contrasta com as tensões que envolvem outros membros da OCX, como Índia e Paquistão, que mantêm disputas históricas. A cimeira, portanto, serve também como um espaço para gerenciar divergências e buscar consensos mínimos em temas de interesse comum, como o combate ao terrorismo e a estabilidade fronteiriça.
Paz no Cáucaso em pauta
Em um desdobramento significativo, o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, e o primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, realizaram na segunda-feira, em Bishkek, uma nova rodada de negociações de paz. Os dois líderes discutiram os próximos passos do histórico processo de paz entre os antigos rivais, que disputam territórios há décadas. O encontro à margem da cimeira reforça o papel da OCX como plataforma para diálogos bilaterais delicados.
Além das questões de segurança, Aliyev e Pashinyan abordaram novas formas de cooperação comercial e energética, bem como os principais projetos do chamado Corredor do Meio através da Rota Trump para a Paz e Prosperidade Internacionais (TRIPP). A menção a esse corredor indica interesse mútuo em integrar as economias do Cáucaso às rotas comerciais que ligam a Ásia à Europa, contornando a Rússia ou o Irã.
Cazaquistão e Azerbaijão miram comércio
O presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, também se encontrou com o homólogo azeri, Ilham Aliyev, para discutir comércio e investimentos por meio de projetos regionais conjuntos. O Cazaquistão, maior economia da Ásia Central, busca diversificar suas rotas de exportação, especialmente de petróleo e gás, reduzindo a dependência de território russo. O Azerbaijão, por sua vez, tem se posicionado como um hub energético alternativo para a Europa.
Esses encontros bilaterais demonstram que, embora a OCX seja frequentemente vista como um bloco liderado por China e Rússia, os países menores da região estão ativamente buscando seus próprios interesses estratégicos. A cimeira oferece um palco para costurar acordos que nem sempre passam pelos canais tradicionais.
Putin em Bishkek: agenda intensa
O presidente russo, Vladimir Putin, chegou a Bishkek na segunda-feira para marcar presença na cimeira regional. Sua participação ocorre em um momento em que a economia russa enfrenta dificuldades, pressionada por sanções ocidentais e pelos custos da guerra na Ucrânia. A cimeira é uma oportunidade para Moscou demonstrar que ainda mantém influência na Eurásia e buscar apoio político e econômico de parceiros regionais.
Putin deverá se reunir com Xi Jinping, em um encontro que simboliza a parceria estratégica entre Rússia e China. Embora a fonte não tenha detalhado os temas da conversa, é provável que incluam cooperação energética, comércio bilateral e coordenação em fóruns multilaterais. A relação entre os dois países tem sido um pilar da política externa russa diante do isolamento ocidental.
Guerra na Ucrânia e segurança no mar Negro
O presidente russo tem encontro marcado com o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, para discutir a guerra da Rússia na Ucrânia e a segurança no mar Negro. A Turquia, membro da OTAN, tem mantido um delicado equilíbrio entre apoiar a Ucrânia e manter canais abertos com Moscou. O mar Negro é uma zona crítica para o escoamento de grãos e para a projeção militar russa, e qualquer alteração no status quo afeta diretamente a segurança alimentar global.
Além disso, Putin deve se encontrar com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, em um contexto em que Moscou tem sido um firme apoiante do Irã durante o confronto militar com os Estados Unidos e Israel. A aproximação entre Rússia e Irã inclui cooperação militar, fornecimento de drones e coordenação em temas como o programa nuclear iraniano. A cimeira da OCX serve como um espaço neutro para esses diálogos sensíveis.
Armênia e a sombra da União Europeia
Prevê-se ainda que Putin se encontre com o primeiro-ministro armênio, Nikol Pashinyan, após os avisos de Moscou contra a recente intenção anunciada por Erevan de pedir adesão à União Europeia. A Armênia, tradicional aliada da Rússia, tem demonstrado frustração com a falta de apoio russo em seu conflito com o Azerbaijão e busca diversificar suas parcerias internacionais. A possível candidatura à UE representa um desafio direto à influência russa no Cáucaso.
Esse encontro poderá ser tenso, uma vez que Moscou vê a aproximação de ex-repúblicas soviéticas com o Ocidente como uma ameaça à sua esfera de influência. A cimeira da OCX, portanto, não é apenas um palco de cooperação, mas também de disputas veladas e pressões diplomáticas.
Perspectivas para o bloco
A cimeira de Bishkek ocorre em um momento de transição para a OCX. O bloco, que começou focado em segurança regional, agora enfrenta o desafio de se adaptar a um mundo multipolar, com múltiplos centros de poder e interesses divergentes entre seus membros. A inclusão de novos membros, como Bielorrússia e Irã, ampliou o escopo geográfico, mas também trouxe novas complexidades.
Os resultados concretos da cimeira ainda não foram divulgados, mas a intensa agenda de encontros bilaterais sugere que os líderes estão mais interessados em acordos específicos do que em declarações conjuntas amplas. A fonte não detalhou se haverá um comunicado final ou quais compromissos formais serão assumidos.
Enquanto isso, a cidade de Bishkek permanece sob forte esquema de segurança, com delegações de 21 países circulando entre hotéis e centros de convenções. A expectativa é que, ao final do encontro, fiquem mais claros os rumos da cooperação eurasiática em um cenário global cada vez mais fragmentado.
