A Cosan, um dos maiores conglomerados do agronegócio e energia do Brasil, está reavaliando seus planos de venda de ativos após o primeiro turno das eleições presidenciais, que colocou Flávio Bolsonaro surpreendentemente à frente do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. A mudança no cenário político, que impulsionou os ativos brasileiros nesta semana, levou a empresa a enxergar maior margem para renegociar as vendas inicialmente previstas, segundo uma fonte ouvida sob condição de anonimato.
Com os agentes financeiros precificando uma vitória de Bolsonaro no segundo turno em 25 de outubro, a empresa acredita que pode obter termos mais favoráveis para os negócios que já estão na mesa. A fonte destacou que o otimismo do mercado pós-primeiro turno deve ajudar a Cosan a estabelecer condições melhores nas transações em andamento.
Revisão da venda da fatia na Rumo
Um dos acordos que agora passa por revisão é a potencial venda de parte de sua participação na operadora logística Rumo SA, revelaram as fontes. A Cosan, que em junho contratou o banco BTG Pactual SA como assessor financeiro para avaliar alternativas envolvendo sua fatia na Rumo, recebeu propostas que embutiam um valuation cerca de 30% abaixo do atual valor de mercado da companhia.
Essa diferença de avaliação era um obstáculo para a conclusão do negócio. No entanto, com a recente alta das ações da Rumo e a melhora geral do mercado, a Cosan pode agora buscar valores mais alinhados ao seu patrimônio. A fonte não detalhou se as negociações foram retomadas ou se novas propostas foram apresentadas.
A Rumo, maior operadora de ferrovias do país, é um ativo estratégico para a Cosan, que utiliza sua malha para escoar a produção de açúcar e grãos. A venda de parte da participação era vista como uma forma de reduzir o endividamento da holding, mas a empresa agora tem mais flexibilidade para esperar por melhores condições.
Otimismo do mercado impulsiona ações
Os ativos brasileiros registraram forte alta nesta semana, na esteira de um primeiro turno presidencial que colocou Bolsonaro à frente de Lula. O Ibovespa, principal índice acionário do Brasil, acumula alta de 6,9%, enquanto a moeda brasileira se valorizou 4,8% frente ao dólar no período.
As ações da Cosan dispararam 24% nesta semana, registrando a terceira maior alta entre os 76 papéis que compõem o Ibovespa. Esse movimento reflete a expectativa dos investidores de que o país terá melhores chances de conter seu crescente déficit sob um governo Bolsonaro, ainda que o candidato não tenha apresentado um plano econômico detalhado para isso.
Bolsonaro é visto por investidores e parte do empresariado como um nome mais inclinado a enfrentar as questões fiscais, o que, em última instância, abriria espaço para a queda das taxas de juros. Essa percepção beneficia diretamente empresas endividadas como a Cosan, cujos custos financeiros são pressionados pela Selic elevada.
Melhora financeira reduz pressão por vendas
A reavaliação nas vendas de ativos também reflete uma melhora na posição financeira da Cosan após uma injeção de capital de R$ 10 bilhões (cerca de US$ 2 bilhões) ancorada pela BTG Pactual Holding e pelo fundo Perfin Infra no final do ano passado. Com o endividamento da holding significativamente menor, a Cosan sofre menos pressão para anunciar novos desinvestimentos neste ano e pode ser mais seletiva quanto ao timing e aos valores de qualquer transação, afirmou uma das fontes.
Além do aporte, a companhia adotou uma série de medidas para fortalecer o seu balanço, incluindo a venda de propriedades rurais e a abertura de capital (IPO) de sua unidade de gás, a Compass Gás e Energia SA. O conglomerado também tem cortado custos, o que incluiu o enxugamento de cerca de 100 postos de trabalho, de acordo com essa mesma fonte.
Essas ações deram fôlego à Cosan, que vinha buscando alternativas para melhorar sua alavancagem enquanto lidava com a alta taxa de juros na maior economia da América Latina. Agora, a empresa pode aguardar um cenário mais favorável para concretizar suas vendas sem a urgência que tinha anteriormente.
Outras frentes de desinvestimento
Além da Rumo, a Cosan avalia outras possíveis transações. Uma delas envolve a Moove, unidade de lubrificantes do grupo. De acordo com as fontes, uma transação envolvendo a Moove poderia ocorrer tanto via mercado de capitais quanto no âmbito privado.
A empresa não detalhou o estágio das negociações nem os valores envolvidos. No entanto, a flexibilidade para escolher entre uma oferta pública ou uma venda direta indica que a Cosan está explorando todas as opções para maximizar o retorno de seus ativos.
Procurada, a Cosan não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. A reportagem não obteve retorno até a publicação desta matéria.
Perspectivas para o segundo turno
O mercado segue atento ao desenrolar da campanha eleitoral e às propostas econômicas dos candidatos. A expectativa de uma vitória de Bolsonaro tem sustentado o otimismo, mas analistas alertam para a volatilidade até a definição do pleito.
Para a Cosan, o cenário é de cautela e oportunidade. A empresa pode aproveitar a janela positiva para destravar negócios que estavam travados por valuations desfavoráveis, ao mesmo tempo em que mantém sua estratégia de redução de alavancagem.
A fonte ouvida pela reportagem ressaltou que a reavaliação das vendas não significa desistência, mas sim uma postura mais estratégica diante do novo ambiente de mercado. A Cosan, cujos negócios se estendem por açúcar, lubrificantes, distribuição de combustíveis, transporte ferroviário e fornecimento de gás natural residencial, continua comprometida com a otimização de seu portfólio.
Fonte
- investnews.com.br
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