A artista Beatriz Milhazes, conhecida por seu repertório visual de espirais, volutas e elementos florais inspirados na natureza e em festas populares, enfrentou um desafio peculiar ao longo da carreira: traduzir sua pintura em camadas para a linguagem da gravura. Esse processo, marcado por recusas e parcerias duradouras, é o tema da exposição “Beatriz Milhazes: gravuras do acervo da Pinacoteca de São Paulo”, que reúne 27 impressões produzidas entre 1996 e 2019.
O desafio da tradução
Em 1996, após sua primeira exposição em Nova York, Milhazes buscava um impressor capaz de traduzir seu vocabulário visual para a gravura. O primeiro profissional recusou a proposta, considerando o projeto complexo, caro e sem mercado nos EUA. A artista, porém, não desistiu e encontrou no americano Jean-Paul Russell, da Durham Press, o parceiro ideal.
As obras foram impressas na Durham Press, e a parceria entre Milhazes e Russell se estendeu por mais de duas décadas. A mostra na Estação Pinacoteca reúne 27 gravuras desse período, todas doadas pela artista à instituição, única a reunir esse conjunto.
O monotransfer como técnica
Integrante do movimento Geração 80, Beatriz Milhazes desenvolveu a técnica do monotransfer, que reduz a gestualidade da pintura. O processo consiste em pintar os elementos da composição, invertidos, sobre uma folha de plástico e, em seguida, transferir essa camada para a tela. Essa abordagem, que opera pela soma — segundo o curador Renato Menezes —, foi adaptada para a gravura com a ajuda de Russell.
Segundo Menezes, o trabalho de Beatriz opera pela soma, e a tradução para a gravura exigiu um entendimento profundo de sua técnica. O curador define que Beatriz é mais um desses nomes que se juntam ao acervo, fortalecendo a linha de pesquisa ligada ao pensamento gráfico feminino no Brasil.
Os títulos e suas relações
Os títulos escolhidos por Milhazes evocam personagens, objetos e situações do cotidiano, mas nenhuma dessas imagens pode ser reconhecida entre as formas das gravuras. Obras como “Figo” (2006) e “Cabeça de mulher” não correspondem diretamente às imagens apresentadas, rompendo a expectativa de correspondência entre palavra e representação.
Segundo Menezes, parte dos nomes nasce de uma lista mantida pela artista; outros surgiram de conversas com Jean-Paul Russell durante o processo de criação. Ao batizar suas gravuras com referências aparentemente alheias às imagens, Milhazes desafia o espectador a buscar significados além do óbvio.
A exposição “Beatriz Milhazes: gravuras do acervo da Pinacoteca de São Paulo” oferece um mergulho no processo criativo de uma das principais artistas da Geração 80, revelando como a complexidade de sua pintura em camadas foi traduzida para a gravura com maestria.
