O Banco Mundial pode emprestar até US$ 5 bilhões à Venezuela nos próximos dois anos, com a retomada das relações do país com a instituição sediada em Washington, afirmou uma alta executiva. A declaração foi dada por Cordeiro Guerra em entrevista à margem das reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial em Bangkok. O financiamento serviria para “apoiar reformas e investimentos prioritários em infraestrutura e áreas sociais”, segundo a executiva.
A sinalização ocorre em um momento de reaproximação entre a Venezuela e os organismos multilaterais, após anos de distanciamento. O banco e a instituição irmã, o FMI, retomaram as relações com o governo da Venezuela em abril, sob a presidência interina de Delcy Rodríguez. Desde então, as equipes técnicas têm trabalhado na definição de um arcabouço macrofiscal e no apoio à reestruturação da dívida, estimada em cerca de US$ 170 bilhões por alguns cálculos privados.
Primeira operação de US$ 500 milhões
O banco identificou uma primeira operação de US$ 500 milhões e concentra esforços em projetos de água e eletricidade, disse Cordeiro Guerra. A instituição também poderia emprestar até US$ 2 bilhões no primeiro ano caso a Venezuela regularize pagamentos em atraso com outros credores multilaterais. “Desenvolvemos uma carteira de projetos que podemos financiar, com os quais estamos confortáveis e que gostaríamos de levar adiante, e aguardamos a regularização dos pagamentos em atraso para poder avançar”, afirmou.
O último empréstimo concedido ao país foi em 2005, o que evidencia o longo período sem financiamento do banco à Venezuela. A retomada, portanto, representaria uma mudança significativa no relacionamento institucional. Contudo, qualquer apoio também dependeria da aprovação da diretoria executiva do Banco Mundial, acrescentou Cordeiro Guerra.
Dívidas com outros credores
A Venezuela tem mais de US$ 2 bilhões em principal e juros vencidos com o Banco Interamericano de Desenvolvimento. O país exportador de petróleo também tem pagamentos em atraso com o Banco de Desenvolvimento da América Latina. Essas pendências precisam ser equacionadas para destravar novos recursos, conforme indicou a executiva.
A regularização desses atrasos é vista como condição essencial para que o Banco Mundial avance com os desembolsos. Enquanto isso, a instituição trabalha “intensamente” com a Venezuela na definição do arcabouço macrofiscal do país e no apoio à reestruturação da dívida. A fonte não detalhou os termos dessa reestruturação nem os prazos para a regularização.
Escritório em Caracas até o fim do ano
O banco também pretende contratar em breve um representante residente na Venezuela, afirmou Cordeiro Guerra, acrescentando que a instituição planeja abrir um escritório em Caracas antes do fim do ano. A presença física no país facilitaria o diálogo com as autoridades e o acompanhamento dos projetos.
A abertura do escritório sinaliza o compromisso de longo prazo do banco com a Venezuela, mesmo diante dos desafios econômicos e políticos. A executiva não mencionou custos ou cronograma detalhado para a instalação, mas reforçou que a contratação do representante está próxima.
Expansão na América Latina
A atuação do banco na América Latina cresceu fortemente nos últimos anos em meio a uma onda de governos favoráveis ao mercado e também alinhados ao presidente dos EUA, Donald Trump. Esse contexto tem impulsionado uma agenda de empréstimos voltada a reformas estruturais e consolidação fiscal.
O banco prepara um amplo pacote de empréstimos para a Colômbia, onde o presidente Abelardo de la Espriella assumiu o cargo em agosto. A instituição concederá três empréstimos separados para eficiência dos gastos, setor de energia e setor de saúde, afirmou Cordeiro Guerra, sem revelar os valores.
Modelo de garantia para reformistas
Alguns dos empréstimos à Colômbia seguem a estrutura do que o banco já aprovou para a Argentina em junho, quando o país obteve um empréstimo comercial de até US$ 2 bilhões com garantia de 95% do Banco Mundial. Em Barbados, a instituição planeja conceder o mesmo tipo de empréstimo para ajudar na regulamentação de pagamentos e nos pagamentos digitais do governo.
“Queremos recompensar os reformistas”, afirmou Cordeiro Guerra. “Trata-se de fazer o trabalho difícil e efetivamente implementar reformas voltadas à consolidação fiscal e à estabilidade macroeconômica.” Ela citou Paraguai, República Dominicana, El Salvador e Panamá como países que implementam reformas favoráveis ao setor privado e crescem mais de 4% ao ano por meio da consolidação fiscal, servindo de exemplo para o restante da região.
O caso venezuelano, porém, ainda depende de passos concretos para se alinhar a esse grupo. A regularização das dívidas e a implementação de reformas serão observadas de perto pelo banco e pelos mercados.
Fonte
- investnews.com.br
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