O setor sucroenergético brasileiro, liderado por gigantes como a Raízen, enfrenta um momento de transformação. A forte desvalorização do açúcar no mercado internacional e o rápido avanço do etanol de milho estão reconfigurando o mercado.
Enquanto a commodity açucareira registra queda de quase 50% desde seu último pico em 2023, o biocombustível produzido a partir do milho cresce a taxas expressivas. Esse cenário pressiona as tradicionais usinas de cana a reavaliarem seus modelos de negócio.
Crise no mercado do açúcar: preços abaixo do custo
O açúcar passa por um ciclo de baixa que impacta diretamente os produtores. A cotação do açúcar bruto caiu cerca de 30% na ICE em um ano, refletindo a pressão sobre os preços.
Desvalorização histórica
Desde o último pico em 2023, a desvalorização do açúcar é de quase 50%. Hoje, a commodity já é negociada abaixo de seu custo de produção, situação que preocupa as empresas do ramo.
Segundo informações disponíveis, ninguém consegue produzir açúcar a menos de 400 dólares por tonelada. Essa realidade evidencia a tensão no mercado e a necessidade de estratégias de mitigação de riscos.
Estratégias de proteção das empresas
Para a safra 2026/27, a companhia informou já ter fechado o preço do equivalente a 60% do volume destinado à exportação. O valor foi fixado em R$ 2.442 por tonelada (perto de US$ 470).
Essa medida visa garantir parte da receita em meio à volatilidade, mas a pressão sobre as margens permanece. A fase atual exige adaptação rápida diante de um cenário de incertezas.
Produção global em alta: Brasil e Índia ampliam oferta
O Brasil é o maior produtor mundial de açúcar, posição que o coloca no centro das atenções do mercado global. A expectativa é que a produção brasileira tenha aumentado em 700 mil toneladas, para 44,4 milhões.
Ciclo da safra brasileira
A safra do açúcar no Brasil começou em abril de 2025 e se encerra agora em março. Esse ciclo define a disponibilidade do produto no mercado internacional.
Expansão na Índia
A Índia é o segundo maior produtor mundial de açúcar, com uma dinâmica própria que influencia os preços internacionais. A produção da safra corrente começou em outubro passado e deve acabar só em setembro.
A estimativa para a Índia é de um salto de 26% no volume, para 35,3 milhões de toneladas. Essa expansão em dois dos principais produtores ajuda a explicar parte da pressão baixista sobre os preços.
Mix de produção: etanol ganha espaço nas usinas
Ao longo da safra, as usinas de cana definem a proporção de matéria-prima que será destinada à produção de açúcar ou de etanol. Essa decisão é crucial para o equilíbrio financeiro das empresas.
Os números do último trimestre revelam uma tendência de diversificação:
- Raízen: 56% etanol e 44% açúcar
- São Martinho: 51% etanol e 49% açúcar
- Jalles Machado: 66% etanol e 34% açúcar
Esses dados mostram uma clara inclinação para o etanol em algumas empresas. A escolha pelo biocombustível pode ser uma estratégia para contornar a baixa rentabilidade do açúcar.
Revolução do etanol de milho: crescimento acelerado
Hoje, o etanol de milho responde por cerca de 20% da produção brasileira de biocombustível. Essa fatia vem crescendo de forma acelerada, redefinindo o panorama do setor.
Vantagens competitivas
O etanol de milho apresenta características que o tornam atrativo:
- Crescimento médio de 33% ao ano
- Custo de produção até 40% mais barato que o etanol de cana
Investimentos em nova capacidade
O impulso ao etanol de milho se reflete na construção de novas unidades. Das 28 usinas de etanol em construção no país:
- 18 usarão milho como matéria-prima
- 6 usarão cana
Esse dado ilustra a mudança em curso, com o milho ganhando espaço como alternativa viável. A transição sinaliza uma reconfiguração do setor.
Adaptação do setor: desafios e oportunidades
Diante da queda do açúcar e da ascensão do etanol de milho, as empresas sucroenergéticas precisam se reinventar. A pressão sobre os preços do açúcar, negociado abaixo do custo, exige eficiência operacional e gestão de riscos.
Paralelamente, o crescimento do etanol de milho oferece oportunidades, mas também impõe concorrência ao etanol de cana. As usinas tradicionais devem equilibrar seus mixes de produção para maximizar a rentabilidade.
Futuro do setor
A capacidade de adaptação será determinante para o futuro do setor. Enquanto o açúcar enfrenta um ciclo desfavorável, o etanol de milho emerge como uma força transformadora.
Essa dinâmica coloca em evidência a necessidade de inovação e diversificação. O caminho à frente envolve navegar entre tradição e modernidade, sempre atento às oscilações do mercado global.