Investidores estrangeiros já arremataram R$ 24 bilhões em projetos de infraestrutura no Brasil ao longo de 2023, um sinal claro do apetite internacional pelo setor. O volume de concessões previstas e a familiaridade dos investidores com as regras do setor ajudam a explicar esse apetite. Agora, o chamado “superdezembro” — com uma série de leilões de rodovias e aeroportos — testará se essa disposição se mantém.
Familiaridade e volume atraem capital externo
O Brasil é visto como um mercado atraente, especialmente para empresas europeias que buscam oportunidades em concessões. “O Brasil é um mercado difícil de ignorar para esses grupos globais”, afirma João Auler, head de infraestrutura do UBS BB. A declaração reflete o interesse crescente de players internacionais que já conhecem o ambiente regulatório e veem um pipeline robusto de projetos.
No leilão de transmissão realizado no fim de outubro — o mais recente do levantamento —, Celeo, Cymi, Neoenergia e Cox, ligadas a grupos espanhóis, levaram sete dos oito lotes. A portuguesa EDP ficou com o outro. Esse resultado reforça a presença europeia no setor elétrico brasileiro.
Rodovias: novos entrantes e consórcios
No setor rodoviário, a EcoRodovias, controlada pela italiana ASTM, venceu em março o leilão da concessão Rotas Gerais (BR-116/251/MG). Dois meses depois, o Consórcio 116 Sertões, que inclui a portuguesa Mota-Engil, arrematou a Rota dos Sertões (BR-116/324/BA/PE). Esses certames mostram a diversificação de origens do capital.
Desde 2023, 18 novos grupos participaram dos leilões rodoviários, incluindo grupos estrangeiros ou nacionais. O Ministério dos Transportes passou a buscar também investidores dispostos a financiar as obras ou a aportar capital nas concessionárias. Essa estratégia ampliou a base de participantes e trouxe novos recursos para o setor.
Outros setores: saneamento e aeroportos
Em outros setores, a espanhola Acciona conquistou em maio deste ano a parceria público-privada (PPP) de esgoto da Paraíba. Em março, a também espanhola Aena venceu o leilão da concessão repactuada do Galeão. Esses movimentos indicam que o interesse estrangeiro não se limita a rodovias e transmissão.
A diversificação de ativos — de saneamento a aeroportos — amplia as oportunidades para grupos globais. A presença de empresas espanholas em diferentes segmentos sugere uma estratégia de portfólio no país.
Superdezembro: leilões testam apetite
As disputas previstas até o fim do ano devem dar novos sinais do apetite internacional. O próximo leilão está marcado para quinta-feira, 12 de novembro, para definir o novo controlador da Via Brasil BR-163. Esse certame será o primeiro teste do “superdezembro”.
Em dezembro, a Corporación América Airports (CAAP), controladora da Inframerica, atual concessionária do Aeroporto de Brasília, pretende disputar o leilão de repactuação do terminal. Aena, Zurich Airport e a mexicana Asur também são apontadas como potenciais interessadas. Essa última entrou no Brasil em setembro, com a compra da plataforma de aeroportos da Motiva.
A Nova Infra Invest, parceira da Mota-Engil e da Galapagos Capital na Rota dos Sertões, confirmou que avalia disputar a concessão da Rota 2 de Julho em consórcio. A confirmação sinaliza que grupos já atuantes no país buscam expandir sua presença.
Roadshow e interesse de fundos
A delegação brasileira fez cerca de dez reuniões individuais durante roadshow no exterior. Entre os interlocutores estavam UBS, HSBC, Brookfield e Macquarie Capital. Esses encontros visaram apresentar o pipeline de projetos e atrair capital de longo prazo.
O interesse de fundos de infraestrutura e bancos de investimento reforça a percepção de que o Brasil oferece oportunidades atrativas. A combinação de necessidade de investimento e ambiente regulatório estável é um diferencial competitivo.
Perspectivas para 2024
O resultado dos leilões de dezembro será um termômetro para o apetite estrangeiro em 2024. Se o “superdezembro” confirmar a participação ativa de grupos internacionais, o Brasil poderá consolidar sua posição como destino prioritário para investimentos em infraestrutura na América Latina.
A continuidade do programa de concessões e a previsibilidade regulatória serão fatores decisivos para manter o fluxo de capital. A fonte não detalhou projeções de investimento para o próximo ano, mas o cenário atual sugere otimismo moderado.
