Trinta e cinco deputados paraguaios protocolaram nesta quarta-feira um pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña, em meio à crise desencadeada pelo colapso do banco Ueno. O documento de acusação foi entregue à Câmara dos Deputados, e os parlamentares solicitaram ao presidente da Casa a convocação de uma sessão extraordinária na quinta-feira para tratar do assunto. A medida ocorre após o fechamento da instituição financeira, que deixou milhões de clientes em incerteza e levantou questionamentos sobre a conduta do chefe de Estado.
Peña, um economista conservador que assumiu o governo em 2023, foi acionista até março do ano passado do grupo proprietário do banco. A instituição contava com cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social. A ligação prévia do presidente com o grupo controlador tornou-se um dos eixos centrais das acusações da oposição.
A crise teve início na terça-feira, quando o Ueno, de propriedade do Grupo Vázquez, fechou suas portas depois que o banco central iniciou um processo de liquidação da instituição. A autoridade monetária constatou um déficit nos índices de solvência relacionado a empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao próprio grupo. A intervenção acendeu um alerta sobre a saúde do sistema financeiro paraguaio e provocou uma corrida por informações entre correntistas.
Diante do cenário, a oposição formalizou o pedido de destituição. Entre os pontos levantados estão conflito de interesses, manipulação regulatória, desvio de recursos previdenciários e encobrimento institucional por parte do banco central. A acusação sustenta que a atuação do presidente e de órgãos de controle teria favorecido o banco antes de sua derrocada. Para dar início ao processo, a Câmara dos Deputados precisa de uma maioria qualificada de dois terços, e ainda não está claro se a bancada governista apoiará a proposta.
Acusações da oposição
O pedido de impeachment detalha uma série de supostas irregularidades cometidas pelo presidente e por autoridades do sistema financeiro. A oposição afirma que Peña, ao manter participação acionária no grupo controlador do Ueno até março do ano passado, teria se beneficiado de decisões regulatórias que permitiram a continuidade das operações do banco apesar dos problemas de solvência. Além disso, os parlamentares apontam que o desvio de recursos do Instituto de Previdência Social teria ocorrido por meio da aplicação de depósitos públicos em uma instituição com fragilidades conhecidas.
Outro ponto levantado é o encobrimento institucional. Segundo a acusação, o banco central teria demorado a agir diante dos sinais de deterioração financeira do Ueno, o que teria agravado as perdas para os poupadores. A oposição também questiona a nomeação de Carlos Carvallo para a presidência da entidade controladora, cargo que ele perdeu após o estouro do caso. A fonte não detalhou se há provas documentais que sustentem todas as alegações.
Apesar da gravidade das acusações, o processo de impeachment enfrenta um obstáculo político considerável. Para que a Câmara autorize a abertura do processo, são necessários os votos de dois terços dos deputados. A base governista, que detém uma parcela significativa das cadeiras, ainda não se manifestou oficialmente sobre o pedido. Caso a proposta avance, o Senado seria responsável pelo julgamento final.
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Reação de Peña
O presidente Santiago Peña não se pronunciou publicamente sobre a iniciativa de destituição. No entanto, em uma publicação na rede social X, ele afirmou que os responsáveis pelas irregularidades responderão perante a Justiça, sem exceções. A declaração foi feita pouco antes de promulgar uma lei que permitirá aos poupadores do Ueno recuperar seu dinheiro em menos tempo. A medida é vista como uma tentativa de mitigar os efeitos sociais da crise.
Na mesma publicação, Peña fez um apelo direto aos atores políticos. “Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, afirmou. A frase sinaliza uma preocupação com a estabilidade do sistema financeiro e com a confiança da população nas instituições. Até o momento, o presidente não respondeu formalmente às acusações da oposição.
A nova lei sancionada por Peña prevê um mecanismo acelerado de devolução dos valores depositados no banco liquidado. A fonte não detalhou o prazo exato para o pagamento nem o montante total a ser ressarcido. A expectativa é que a medida reduza a pressão sobre os correntistas, muitos dos quais dependiam dos recursos para despesas cotidianas.
Consequências institucionais
O colapso do Ueno já provocou mudanças na cúpula do sistema financeiro paraguaio. Carlos Carvallo deixou a presidência da entidade controladora, e oito diretores da instituição sob intervenção foram presos, entre eles o presidente-executivo, Miguel Vázquez. A Procuradoria emitiu mandados de prisão contra os executivos, que se entregaram às autoridades, e acusou formalmente 27 pessoas ligadas ao banco. A Justiça também ordenou o bloqueio de seus bens.
As prisões e acusações representam uma resposta rápida do sistema judicial, mas não dissiparam as dúvidas sobre a extensão do problema. Nesta quarta-feira, também circularam relatos sobre falhas em diversos aplicativos bancários, o que intensificou a preocupação em relação à confiança no sistema financeiro do país. Usuários relataram dificuldades para acessar contas e realizar transferências, embora a causa das falhas não tenha sido oficialmente esclarecida.
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que as instituições financeiras estavam trabalhando para atender ao grande volume de clientes que estão transferindo suas contas do banco Ueno. Em comunicado, a entidade ressaltou que o sistema bancário continuava “operando normalmente”. A declaração busca conter o pânico e evitar uma corrida bancária generalizada.
Impacto e desdobramentos
A crise do Ueno expôs fragilidades na supervisão bancária paraguaia e levantou questões sobre a relação entre o poder político e o setor financeiro. O fato de o presidente ter sido acionista do grupo controlador até recentemente alimenta o debate sobre conflitos de interesse. A oposição tenta capitalizar o desgaste, mas o desfecho do pedido de impeachment permanece incerto.
Enquanto isso, os poupadores aguardam a implementação da lei que promete acelerar a devolução dos depósitos. A medida, se bem executada, pode aliviar a tensão social e restaurar parte da confiança no sistema. No entanto, a extensão total das perdas e o impacto sobre os cofres públicos ainda não foram dimensionados. A fonte não detalhou o valor total que será necessário para cobrir os ressarcimentos.
O caso também reacende o debate sobre a necessidade de reformas na regulação financeira do Paraguai. Especialistas ouvidos pela imprensa local defendem maior transparência na concessão de empréstimos a partes relacionadas e reforço nos mecanismos de fiscalização. Até o momento, o governo não anunciou mudanças estruturais na legislação bancária.
A sessão extraordinária da Câmara, solicitada para quinta-feira, será o primeiro teste de força entre governo e oposição. Se a bancada governista fechar questão contra o impeachment, a proposta tende a ser arquivada. Caso contrário, o país poderá enfrentar um longo processo de instabilidade política em meio a uma crise financeira de grandes proporções.
