Os resultados finais das eleições em Israel confirmaram que o bloco do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu perdeu a maioria no Knesset, o Parlamento do país. A definição abre caminho para semanas de negociações complexas entre partidos muito diferentes, que vão dos judeus ultraortodoxos até os seculares e siglas lideradas por árabes. Segundo os números divulgados na madrugada desta sexta-feira (30), o bloco de Netanyahu ficou com 53 cadeiras na eleição de terça-feira (27).
O principal bloco de oposição somou 48. Já os partidos liderados por árabes conquistaram as 19 cadeiras restantes, um desempenho histórico. Para formar governo, será necessário reunir ao menos 61 dos 120 assentos do Parlamento.
Resultado oficial ainda depende de homologação
Os resultados ainda precisam ser homologados e encaminhados ao presidente Isaac Herzog na próxima quarta-feira (4). Em seguida, Herzog encarregará um líder político de tentar formar o novo governo. Netanyahu, o premiê mais longevo do país, continua no cargo enquanto as conversas avançam. A demora na certificação não impede que os partidos iniciem contatos informais, mas qualquer acordo formal só será validado após o aval presidencial. A expectativa é que o processo de coalizão se estenda por semanas, dado o histórico de impasses em eleições anteriores.
Vídeo: YouTube | Fonte: www.moneytimes.com.br
Lapid sinaliza movimentações nos bastidores
“Agora vem a parte realmente difícil”, escreveu no X o centrista Yair Lapid. “Se você quer saber se algo está acontecendo por trás do silêncio que está ouvindo agora, a resposta é sim.” A declaração sugere que as negociações já começaram, mesmo sem anúncios públicos. Lapid, que lidera o principal bloco de oposição, é visto como um possível articulador de uma coalizão ampla. No entanto, a diversidade ideológica entre os partidos torna qualquer acordo frágil. A participação de legendas árabes é o ponto mais sensível dessa equação.
Participação árabe volta ao centro do debate
O debate sobre a participação de partidos árabes em uma coalizão volta ao centro da política israelense: para alguns, trata-se de um passo necessário, e para outros, um risco político difícil de aceitar. Historicamente, nenhuma coalizão governista incluiu formalmente partidos árabes, embora tenham apoiado governos de minoria em votações pontuais. O desempenho recorde dessas siglas — 19 cadeiras — amplia sua relevância nas negociações. Líderes árabes sinalizam disposição para integrar um governo que priorize igualdade e serviços públicos.
Por outro lado, setores da direita rejeitam qualquer aliança com essas legendas, alegando incompatibilidade ideológica.
Netanyahu amplifica acusações sem provas
No intervalo até a certificação do resultado, Netanyahu e o Likud amplificaram alegações sem provas de que partidos liderados por árabes teriam ‘roubado’ a eleição por meio de ajuda estrangeira. Em sua primeira manifestação pública nesta sexta-feira, Netanyahu publicou no X que é proibido formar coalizão com partidos árabes. A postura reduz as chances de um governo de unidade nacional e empurra o país para um cenário de impasse. Analistas apontam que a retórica do premiê visa mobilizar sua base e deslegitimar eventuais negociações da oposição.
Até o momento, nenhuma evidência concreta foi apresentada para sustentar as acusações.
Comitê eleitoral pede investigação ao Shin Bet
O chefe do comitê eleitoral, o ministro do Supremo Tribunal Noam Sohlberg, afirmou que ‘suspeitas sérias’ de interferência estrangeira foram levadas ao seu conhecimento. Em carta ao serviço de segurança Shin Bet, disse não ter como verificar as alegações, mas pediu investigação. A imprensa israelense noticiou que integrantes do Likud apontaram o Catar como possível envolvido. Doha negou e classificou a acusação como ‘ridícula e perigosa’.
A comissão eleitoral disse que a apuração se baseia em inteligência sigilosa, mas ressaltou que isso não altera o resultado final a ser enviado ao presidente nem se dirige a um grupo específico da população.
Shin Bet reforça legitimidade do voto árabe
O Shin Bet também afirmou que a investigação não busca ‘lançar suspeitas’ sobre uma parcela da sociedade que votou ‘de forma democrática e legal’. O comitê eleitoral pediu conclusões em até uma semana. A declaração tenta conter o clima de desconfiança alimentado pelas acusações do Likud. Enquanto isso, partidos árabes classificam as alegações como tentativa de deslegitimar seu crescimento eleitoral. O desfecho da investigação pode influenciar o tom das negociações, mas não deve alterar a distribuição de cadeiras.
Futuro político de Netanyahu em jogo
Se Netanyahu acabar fora do cargo, críticos avaliam que ele enfrentará maior pressão por acusações de corrupção e aumentará a chance de uma investigação sobre falhas de segurança antes do ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023. O premiê nega irregularidades e afirma ser vítima de perseguição política. A perda da maioria parlamentar enfraquece sua capacidade de aprovar leis que poderiam blindá-lo judicialmente. Aliados admitem que, sem o cargo, sua situação jurídica se complica. A oposição, por sua vez, promete priorizar a retomada da confiança nas instituições.
Próximos passos da crise política
Com a homologação prevista para quarta-feira, o presidente Herzog terá a missão de indicar um nome com chances reais de formar governo. Caso ninguém consiga os 61 assentos, novas eleições podem ser convocadas — seria a sexta vez em quatro anos. O impasse prolongado afeta a economia e a segurança nacional em um momento de tensão regional. A comunidade internacional acompanha com atenção, especialmente diante da possibilidade de um governo sem Netanyahu.
A fonte não detalhou prazos para a conclusão das negociações, mas a expectativa é de um processo longo e incerto.
