Exame de sangue pode prever risco de hipertensão pulmonar
Crédito: medicinasa.com.br
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Um grupo de dez proteínas presentes no sangue poderá, no futuro, auxiliar na identificação de pessoas com maior risco de desenvolver hipertensão pulmonar antes mesmo de a doença se manifestar. A descoberta, liderada por pesquisadores brasileiros, foi publicada na revista Nature Communications e abre caminho para o desenvolvimento de um exame menos invasivo focado na detecção precoce, além de revelar mecanismos biológicos que podem levar a novos tratamentos.

O estudo teve apoio da FAPESP (projetos 26/05647-2 e 2025/10898-1) e foi conduzido por Fernando Rabioglio Giugni, pesquisador do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), durante seu pós-doutorado na University of Texas Southwestern Medical Center, nos Estados Unidos.

Doença subdiagnosticada afeta até 10% dos idosos

Embora muitas vezes seja considerada uma doença rara, a hipertensão pulmonar pode afetar entre 0,5% e 1% da população quando contabilizados seus diferentes tipos. Entre pessoas com mais de 65 anos, a frequência pode chegar a quase 10%, incluindo casos mais leves.

Caracterizada pelo aumento da pressão nos vasos que levam o sangue do coração aos pulmões, a condição costuma ter um diagnóstico complexo devido aos seus sintomas genéricos. Por isso, a busca por marcadores precoces é fundamental para melhorar o manejo clínico.

Proteômica agnóstica revela assinatura molecular

Para chegar aos resultados, Giugni utilizou uma técnica chamada proteômica, capaz de medir milhares de proteínas simultaneamente em uma única amostra de sangue. Em vez de partir de uma proteína previamente escolhida, como ocorre em pesquisas guiadas por uma hipótese específica, o pesquisador usou uma abordagem chamada “agnóstica”, na qual não havia uma proteína-alvo previamente definida.

Essa estratégia permitiu identificar um conjunto de dez proteínas associadas ao risco de hipertensão pulmonar. Entre elas, destaca-se a NOTCH3, que já havia sido relacionada à doença em estudos experimentais anteriores realizados em modelos animais e celulares.

NOTCH3 emerge como possível alvo terapêutico

“Essa convergência entre as evidências obtidas a partir da genética e da proteômica em humanos e os estudos experimentais reforça a necessidade de investigar a via como possível alvo terapêutico”, avalia Giugni. A descoberta pode contribuir para uma abordagem mais personalizada no futuro.

Segundo o pesquisador, caso uma terapia direcionada à NOTCH3 venha a ser desenvolvida, a análise dos níveis da proteína no sangue poderia ajudar a identificar quais pacientes apresentam maior participação desse mecanismo e, portanto, poderiam ser candidatos ideais ao tratamento.

Diagnóstico atual exige exame invasivo

Por ter sintomas genéricos, o diagnóstico nem sempre é simples. O ecocardiograma é o exame que levanta a suspeita, pois permite estimar a pressão da artéria pulmonar, mas a confirmação definitiva exige o cateterismo cardíaco direito, exame invasivo que mede diretamente as pressões na circulação pulmonar. Além de ser mais caro, o procedimento não está disponível em todos os serviços de saúde.

Um exame de sangue baseado nas dez proteínas identificadas poderia, no futuro, reduzir a necessidade de procedimentos invasivos e acelerar o diagnóstico, especialmente em grupos de risco.

Próximos passos: validação e aplicação clínica

O teste ainda não existe na prática clínica. Giugni explica que ainda é necessário desenvolver e validar métodos para medir essas dez proteínas identificadas de maneira precisa e reprodutível em larga escala. Também será preciso confirmar, em outros estudos, se a presença dessas alterações no sangue realmente permite identificar pessoas que desenvolverão a doença.

“Agora, o próximo passo é transformar essas descobertas em algo que possa chegar à prática clínica: validar os marcadores em outras populações e entender se conseguimos atuar nessa via da NOTCH3. Ainda há um caminho importante pela frente, mas esses resultados nos ajudam a identificar onde vale a pena investir os próximos esforços”, conclui Giugni.

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