Desinformação em saúde no Brasil: o que revela raio-X
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Um estudo conduzido pela agência Lupa, que analisou quase dez anos de checagens, revela como a desinformação sobre saúde se espalha no Brasil. A pesquisa, liderada pelo pesquisador Maiquel Rosauro, mostra que a pandemia de Covid-19 ampliou a escala do problema, mas não criou técnicas novas: as estratégias de manipulação já existiam antes e continuam sendo usadas hoje. O levantamento aponta que o WhatsApp é o principal canal de disseminação, aparecendo em 70,5% das checagens analisadas. Além disso, figuras públicas são frequentemente usadas para dar credibilidade a conteúdos enganosos.

Os dados foram obtidos a partir de 498 verificações realizadas pela Lupa, cobrindo o período de 2015 a 2024. O estudo identificou que, entre 2022 e 2024, o coronavírus perdeu protagonismo, mas as vacinas continuaram sendo alvo de desinformação. Conteúdos que prometiam “desintoxicar” o organismo dos imunizantes ou que atribuíam a eles doenças e problemas de saúde ganharam espaço. A pesquisa também destaca que a desinformação se apropria da credibilidade da ciência, usando declarações verdadeiras fora de contexto, omitindo limitações de pesquisas e atribuindo falas falsas a especialistas.

Pandemia ampliou escala, mas não criou técnicas

Para Maiquel Rosauro, responsável pelo estudo, a crise sanitária funcionou como um catalisador. “O que o estudo mostra, olhando para quase 10 anos de checagens, é que muitas das técnicas que explodiram naquele momento já existiam antes e continuam sendo usadas hoje. A mentira mudou de assunto, incorporou novas ferramentas, mas preservou mecanismos de persuasão muito parecidos”, afirma. Essa constatação indica que a desinformação em saúde não é um fenômeno novo, mas sim uma prática adaptável que se aproveita de contextos de medo e incerteza para se propagar.

Antes da pandemia, boatos sobre curas milagrosas, tratamentos alternativos e supostos perigos de vacinas já circulavam nas redes sociais e aplicativos de mensagens. Com a chegada do coronavírus, esses conteúdos ganharam escala e velocidade, impulsionados pela urgência de informações sobre a doença. No entanto, a estrutura das narrativas enganosas permaneceu a mesma: apelo emocional, distorção de fatos científicos e uso de autoridades falsas. A transição do foco do coronavírus para as vacinas, observada entre 2022 e 2024, reforça essa continuidade.

Vacinas viram alvo principal após a pandemia

Com o arrefecimento da pandemia, a desinformação sobre saúde não desapareceu; ela se redirecionou. O estudo aponta que, entre 2022 e 2024, as vacinas se tornaram o principal alvo. Conteúdos que prometiam “desintoxicar” o organismo dos imunizantes ou que atribuíam a eles doenças e problemas de saúde ganharam espaço nas plataformas digitais. Essas narrativas exploram o medo de efeitos adversos e a desconfiança em relação à indústria farmacêutica, muitas vezes sem qualquer base científica.

Um exemplo comum é a alegação de que as vacinas contra a Covid-19 causam doenças autoimunes ou infertilidade, afirmações já desmentidas por autoridades de saúde. Outra tática recorrente é a promoção de “protocolos de desintoxicação” que supostamente eliminariam os componentes da vacina do corpo, algo sem respaldo na medicina. A fonte não detalhou quais doenças específicas foram atribuídas aos imunizantes, mas o padrão identificado mostra uma tentativa de minar a confiança nas campanhas de vacinação. Essa mudança de foco evidencia a capacidade de adaptação dos disseminadores de desinformação.

Ciência é usada como escudo para enganar

A desinformação também se apropria da credibilidade da ciência para parecer legítima. O estudo destaca três estratégias principais: declarações verdadeiras podem ser retiradas de contexto, limitações de pesquisas podem ser omitidas e falas que nunca existiram podem ser atribuídas a especialistas. Essas técnicas são particularmente eficazes porque exploram a confiança do público em fontes científicas, distorcendo informações reais para servir a interesses enganosos.

Por exemplo, um estudo preliminar que aponta uma correlação fraca entre um medicamento e um efeito colateral pode ser apresentado como prova definitiva de causalidade, ignorando as ressalvas dos próprios autores. Da mesma forma, citações inventadas de médicos renomados circulam em correntes de WhatsApp, conferindo autoridade a tratamentos sem eficácia comprovada. A omissão de limitações metodológicas também é comum, transformando pesquisas observacionais em evidências robustas. Essas práticas corroem a confiança pública na ciência e dificultam a tomada de decisões informadas.

WhatsApp domina a disseminação de boatos

O levantamento revela que o WhatsApp é o principal canal de propagação de desinformação em saúde, aparecendo em 70,5% das checagens analisadas. Essa predominância se deve à natureza privada e criptografada do aplicativo, que dificulta o monitoramento e a moderação de conteúdo. Além disso, o compartilhamento de mensagens em grupos fechados cria um ambiente de confiança entre os participantes, o que aumenta a probabilidade de aceitação das informações falsas.

A dinâmica do WhatsApp também favorece a viralização rápida de boatos, especialmente quando envolvem temas sensíveis como saúde. Mensagens com tom alarmista ou que prometem soluções milagrosas são frequentemente repassadas sem verificação, alcançando milhares de pessoas em poucas horas. O estudo não detalhou o período exato em que o WhatsApp teve maior incidência, mas a presença consistente do aplicativo nas checagens ao longo dos anos indica um problema estrutural. A falta de ferramentas eficazes de checagem dentro da plataforma agrava o cenário.

Figuras públicas são usadas sem autorização

Outro achado relevante é o uso indevido de figuras públicas para dar credibilidade a conteúdos enganosos. Ao menos 142 das 498 verificações registravam a presença de figuras públicas, cujos nomes, imagens ou reputações são apropriados para sustentar narrativas falsas. Essa prática explora a confiança que o público deposita em personalidades conhecidas, como médicos, políticos e celebridades, para legitimar informações sem fundamento.

Em muitos casos, as figuras públicas não têm qualquer relação com o conteúdo divulgado; suas imagens são usadas sem autorização em montagens ou vídeos manipulados. Em outros, declarações antigas são tiradas de contexto para apoiar alegações atuais. A fonte não detalhou quais figuras públicas foram mais visadas, mas o número expressivo de casos indica uma estratégia deliberada de apropriação de autoridade. Esse mecanismo é especialmente perigoso em temas de saúde, onde a opinião de um especialista pode influenciar decisões de tratamento e prevenção.

Como se proteger da desinformação em saúde

Diante desse cenário, especialistas recomendam cautela ao receber informações sobre saúde, especialmente por aplicativos de mensagens. Verificar a fonte original, buscar confirmação em órgãos oficiais como o Ministério da Saúde e desconfiar de conteúdos alarmistas são medidas essenciais. O estudo da Lupa não oferece recomendações específicas, mas os padrões identificados sugerem que a educação midiática é uma ferramenta importante para combater a desinformação.

Além disso, é fundamental checar se a informação foi publicada por veículos de imprensa confiáveis ou se há consenso científico sobre o tema. A presença de erros gramaticais, promessas milagrosas e pedidos de compartilhamento em massa são sinais de alerta. A desinformação em saúde não é um problema passageiro; ela evolui e se adapta, exigindo vigilância constante da sociedade e das plataformas digitais.

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