Em um movimento para evitar restrições comerciais mais severas, a China concordou em conter as exportações de veículos híbridos para a União Europeia. O acordo, fechado no final da sexta-feira, é visto como uma aposta de Pequim para se esquivar de salvaguardas do bloco de 27 países, embora tenha poucas perspectivas imediatas de remodelar a relação comercial global entre as duas potências.
As negociações entre Pequim e Bruxelas terminaram com um consenso de 16 pontos que abrange comércio, investimentos, controle de exportações e direitos de propriedade intelectual. A UE informou que a China concordou em cortar drasticamente a exportação de milhões de carros híbridos, enquanto fontes a par das conversas afirmam que o bloco pretende recorrer a medidas de salvaguarda para conter a entrada desses veículos.
Entenda o acordo e seus 16 pontos
O consenso de 16 pontos representa um esforço diplomático para acalmar as tensões comerciais. Além do setor automotivo, o acordo toca em áreas sensíveis como investimentos e propriedade intelectual, sinalizando uma tentativa de criar um terreno comum. No entanto, a fonte não detalhou o conteúdo específico de cada ponto, limitando-se a confirmar a abrangência dos temas.
A decisão da China de limitar as exportações de híbridos é central para o entendimento. A UE deixou claro que, sem esse compromisso, poderia aplicar medidas mais duras, como cotas tarifárias. Essas medidas, permitidas pelas regras da OMC, aplicariam taxas sobre importações que excedessem determinado volume, uma premissa exigida tanto pela China quanto pela UE.
Com o acordo, Pequim ganha tempo e evita uma escalada imediata, mas o gesto não resolve as tensões estruturais. A relação comercial entre as duas potências continua marcada por desconfianças, especialmente em setores estratégicos como tecnologia e energia.
Por que a UE ameaçava salvaguardas
Líderes da UE se reúnem nesta quinta-feira para decidir se adotam uma resposta mais enérgica à disparada das exportações chinesas. O avanço dos produtos chineses subsidiados ameaça esvaziar a indústria de transformação europeia e dizimar milhões de empregos, segundo avaliação do bloco.
Na semana passada, Alemanha e França pediram mecanismos mais rígidos, incluindo um instrumento capaz de bloquear o acesso da China ao gigantesco mercado único europeu. A pressão dos dois países reflete o temor de que a indústria local não consiga competir com os preços chineses, muitas vezes sustentados por subsídios estatais.
As medidas de salvaguarda planejadas pela UE costumam assumir a forma de cotas tarifárias. Esse mecanismo respeita as regras da OMC, o que é uma premissa exigida tanto pela China quanto pela UE. A aplicação de tarifas acima de um volume pré-determinado conteria o fluxo excessivo sem violar acordos internacionais.
O impacto nas montadoras europeias
Montadoras chinesas como a Chery Automobile aumentaram drasticamente o envio de veículos para a UE em resposta à retração no mercado doméstico. O movimento agravou a crise que assombra as rivais europeias, entre as de pior desempenho global no momento.
Os números ilustram a pressão: as vendas da Mercedes-Benz caíram 8% no terceiro trimestre, enquanto a Volkswagen reduziu sua projeção de lucro no mês passado, seguindo alerta semelhante emitido pela BMW em junho. A concorrência chinesa, com preços agressivos e tecnologia competitiva, tem corroído a participação de mercado das marcas tradicionais.
Para os fabricantes europeus, o acordo com a China é um alívio temporário. Sem ele, a perspectiva era de uma guerra comercial aberta, com retaliações e perdas para ambos os lados. A indústria automobilística europeia, que emprega milhões de trabalhadores, depende de um ambiente comercial estável para planejar investimentos de longo prazo.
Reações de executivos e analistas
François Provost, presidente executivo da Renault, classificou o acordo com a China como um “marco importante” para assegurar o futuro da indústria automobilística europeia. O executivo esteve entre os líderes empresariais que se reuniram com Sefcovic antes de sua viagem a Pequim.
“Eu o havia alertado sobre a urgência de um acordo”, disse Provost em entrevista no domingo (11). “Sem isso, estaríamos caminhando para uma guerra comercial com a China, onde todos saem perdendo.” A fala reflete o sentimento de que o diálogo era a única saída viável para evitar danos maiores.
No entanto, analistas ponderam que o acordo pode não ser replicável em outros setores. “Os diplomatas europeus gastaram um capital político enorme para avançar no setor automotivo, e não está claro se essa mesma abordagem poderá ser simplesmente replicada em outros setores”, disse Christopher Beddor, diretor-adjunto de pesquisas sobre a China na Gavekal Dragonomics.
Beddor também alertou para os riscos de uma escalada. “Barreiras e tarifas amplas provavelmente levariam a retaliações por parte de Pequim, e as autoridades chinesas têm a ‘opção nuclear’ de ameaçar a restrição das exportações de terras raras”, afirmou. “Mas, nesta fase, eles parecem mais inclinados a fechar um acordo.”
O que esperar da reunião de líderes da UE
A reunião desta quinta-feira será decisiva para o futuro do acordo. Os líderes europeus precisam avaliar se o compromisso chinês é suficiente para conter a enxurrada de importações ou se serão necessárias medidas adicionais. A pressão de Alemanha e França por mecanismos mais rígidos indica que o bloco não está totalmente convencido da eficácia do acordo.
Se as salvaguardas forem acionadas, a China pode retaliar, elevando o risco de uma guerra comercial mais ampla. Por outro lado, a manutenção do diálogo pode abrir espaço para acordos semelhantes em outros setores, embora analistas como Beddor vejam isso com ceticismo.
O desfecho da reunião definirá o tom das relações comerciais entre as duas potências nos próximos meses. Por ora, o acordo sobre híbridos representa uma trégua frágil, mas necessária para evitar um conflito de maiores proporções.
Fonte
- investnews.com.br
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